Não é o fim do mundo,
não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Ricardo repetia essas palavras a
si como um mantra para a salvação eterna, para a danação eterna. As cartas do
baralho cigano tinham mostrado um homem de negócios em seu caminho, sucesso na
carreira, uma viagem, dinheiro, paz e até mesmo um novo amor, tudo isso “num
futuro próximo”.
E não importa o tamanho
ou intensidade do ceticismo nosso de cada dia. Acredito piamente que previsões
feitas por pessoas fantasiadas, e fantasiosas, sempre embutem um tanto de
esperança nos frágeis corações que se deixam passar pelo minucioso processo
investigativo-divinatório de tarólogos, astrólogos e afins. Digo frágil porque
pessoas como Ricardo, que se encontram em alguma das inúmeras encruzilhadas da
vida, constantemente acompanhadas por incertezas trabalhistas e amorosas,
costumam carregar um semblante débil, dispostas a tomar para si respostas
metafísicas para questões de ordem pragmática.
Ricardo havia feito de tudo para
conseguir aquela vaga, que lhe salvaria a vida, as finanças, as hemorroidas, os
hematomas, os ossos quebrantados, a pele curtida. Havia feito de tudo para
fugir da existência miserável que perseguia sua sombra, sem sombras de dúvida.
E agora José? Drummond não viria para redimir as coisas, ou para explicar as
moscas que rodeavam suas ideias.
Quando se candidatou à
vaga, Ricardo estava de mudança, ainda que não soubesse ao certo onde iria
morar. Tinha uma semana para se livrar de um apartamento cheio de mobília,
lembranças e a sensação de uma vida interrompida. Espalhou suas tralhas nas
casas dos amigos mais próximos, jogou um bocado de coisa fora; desmontou-se.
Resumia-se, então, todo ele, a uma mochila, um vasinho de espada-de-são-jorge,
uma estante vermelha e um quadro com um pôster do Magritte em preto e branco. Inscreveu-se
no site da empresa numa lan
house, com o mochilão apoiado no balcão, minutos antes de fechar um
contrato informal para alugar um quarto em uma casa de hippies anacrônicos, bem
no centro da cidade. Na sequência, digitou um sms para Renata: ainda n terminei o cap 2, mas pelo avanço d
ontem acho q até o final do dia rola. E aí? Com todas as merdas que estavam
acontecendo, gostava da ideia de ter uma namorada, mesmo que de maneira casual.
Leu a resposta enquanto
comia um joelho com refresco de caju: Pois
é.... eu tenho uma sugestão: a Ju vai comemorar o aniversário dela hj
"Casarão 70", na Bento Lisboa. Pelo q entendi vai ser uma festinha
tranks, tipo música ao vivo, de graça. Partiu? Bjssss. Leu a resposta e quase
perdeu a fome pensando por que, meus
deus, por que as mulheres escrevem tanto?... Como dizer que eu só quero tomar
uma cerveja, abraça-la a assistir um filme explosivo? Melhor não dizer
nada. E não disse.
A casa dos hippies era
imunda, tinha quinze cachorros, um cágado, dois gatos, e nenhuma faxineira ou
diarista, pelo que lhe informou Tomás, o gerente pancado que o recebeu e o acompanhou ao tal quarto. Em poucos dias
Ricardo descobriria que Tomás fechava o registro da água para economizar,
deixando os banheiros intransitáveis com todo o tipo de odor que o corpo humano
pode produzir, que além das pulgas a casa era enfestada de baratas, que
passeavam tranquilamente por toda cozinha, que o casal do quarto ao lado
protagonizava agoniantes cenas de violência doméstica, que metade dos moradores
passava o dia inteiro no sofá da sala fumando
um e bebendo um chá. Era o único lugar que ele tinha, o único que podia pagar,
o único que conseguira em uma semana.
Uma vez instalado,
tratou de mandar notícias aos amigos fiéis que nunca lhe perdiam de vista, por
mais que ele se escondesse. O e-mail foi rápido e honesto: A vida anda boa, uma vez que ainda não me matei... as novidades são:
não tenho um emprego para o próximo ano, minha tese insiste em se mostrar cada
vez mais complexa e, ao mesmo tempo, incompleta, além disso, só a perspectiva
de morar com meus pais em Vassouras me causa ânsia de vômito, estou
enclausurado em três metros quadrados de paz e ar-condicionado, tendo por
companhia minha insana consciência que martela as mais absurdas verdades e os
mais dolorosos delírios e, assim, no caos, vou tentando escrever e não
enlouquecer por completo. Releu o texto algumas vezes antes de enviar e
decidiu que era melhor jogar limpo mesmo.
Na terceira vez que sua
mãe ligou ele resolveu atender. Estava
aos prantos porque ele não dava noticias, porque o celular dele vive desligado
e dizendo que ele nem sabia que a avó centenária estava internada e que seu
pai... e que... e que... já não ouvia mais. Saiu de casa em direção à
biblioteca e, porque sua vida não fazia sentido mesmo, pegou um papelzinho que
dançava no ar, exibindo-se pela Presidente Vargas como que por encanto. Ele
achou bonito o papelzinho rosa-enjoativo rodando no ar, na hora lhe pareceu
muito semelhante à sua própria vida. Era o anúncio de uma cartomante que
atendia ali perto.
Aquilo pareceu tão
bizarro que pensou a respeito. Sua vida estava tão bizarra, que ousou consultar
a pseudo pitonisa do Saara. Afinal, que mal faria? Que mal faria a uma alma
aflita, o conforto de incensos e pequenas sementes de esperança? Pode parecer
exagero meu, mas acho que aquele foi o maior erro de Ricardo. Contudo, se
apostar sua perspectiva de vida nas palavras de uma desconhecida lhe pareceu
razoável, que acerto poderia obter aquela cabecinha em meio à sonoridade
carioca, sob a luz aturdida e paralisante de dezembro?
Ricardo voltou ao lar hiporonga
impactado pelas previsões de vitória. Tanto que nem mesmo estranhou quando o
gerente declarou em alto e bom som que era michê e
recebia senhoras (ditas “patrocinadoras”) naquela casa nojenta – dizia aquilo
porque precisava montar um esquema com os outros moradores da casa para as
próximas visitas. Ricardo consultou diversos oráculos através do oráculo-mor, Google, e confirmou que seu mapa astral
era digno de um grande estadista, que seu horóscopo chinês ressaltava suas inúmeras
qualidades de bom guerreiro, e que sua numerologia para o apocalíptico 2012 era
extremamente favorável.
De alguma maneira,
aquilo gerou uma sensação de bem estar explicável apenas através de algum
complexo aparato teórico da psicanálise. De uma hora para outra Ricardo era um
cara de sorte, que exercia sua anima
de maneira saudável, tinha boas perspectivas de terminar sua tese em paz e
conseguir um bom emprego, como uma espécie de recompensa por todos os
perrengues enfrentados ao longo daqueles quase trinta anos.
Sob tal estado de
espírito respondeu aos amigos queridos: Hoje acordei melhor... pensando que essa
existência de merda é, com ou sem gozo, passageira, e que com ou sem vontade de
existir, com ou sem "vontade de potência", the
show must go on, e assim que eu defender a tese vou sair do Brasil, devo
ir para Buenos Aires, Madrid, Dubai, sei lá, mas tenho certeza de que Pangloss
estava certo e tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis... risos. Devo
trabalhar em alguma coisa na minha área mesmo, mudar de ares... que sabe me
casar?
Talvez pela infelicidade da citação no
e-mail, ou por capricho do universo, ou pela canalhice que rege alguns
processos seletivos, ou simplesmente pelo fato de Ricardo não ser bom o
bastante, ele não conseguiu aquela vaga. Nem a outra que tentou na semana seguinte,
nem foi classificado no concurso público que tentou alguns meses antes e que só
agora saia o resultado, nem aquela outra para o qual havia sido indicado pelo
doutor fulano de tal. Nada. Nem havia no quarto infestado de pulgas sua amada
guitarra com a qual gritaria uma canção desesperada, uma canção vinda de dentro
da canção selvagem que vibrava e regurgitava em cada célula do seu corpo
estendido no chão feito detrito.
Não é o fim do mundo,
não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Repetia a si como um mantra para
a salvação eterna, para a danação eterna. As paredes do quarto tão pobremente
mobilhado careciam de sentido, as sacolas no chão, espalhadas como praga, tão pouco
tinham razão de ser; com os livros deveria limpar o rabo, com as roupas deveria
fazer as velas do barco, que teria como base a madeira da estante vermelha e o
armário da loja vagabunda. Por onde andaria Renata àquela hora? Por que fazia
sol ao redor da praça? Por que as outras pessoas conseguiam sorrir? Por que as
outras pessoas pareciam confortáveis em sua condição humana? Ao menos
pareciam...
Não é o fim do mundo,
não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Era só uma vaga no mercado de
trabalho... Crianças continuavam sendo escravizadas em Dubai, o preço do café
continuava a disparar no Rio de Janeiro, bolivianos continuavam a invadir São
Paulo, pessoas continuavam a ocupar Wall Street, velhos barrigudos continuavam
a peidar, mulheres barrigudas continuavam a parir. Não havia conseguido a vaga,
mas e daí? Deveria, por isso, matar Madame Rigoletta? Deveria, por isso, se
matar? Deveria, por isso, o mundo acabar?
Não é o fim do mundo,
não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Arranjaria outra, melhor ou pior,
mais ou menos digna, e o mundo não se alteraria por isso, a ordem das coisas
continuaria a mesma. Por que então o desespero? Por que a sensação de que a
vida, num átimo, havia perdido o sentido, total e completamente, com todas as
redundâncias que isso pode suscitar? Uma pessoa a mais desempregada, uma pessoa
a mais fudida, uma pessoa a mais deprimida e concordando com cada vírgula de
Sartre. E daí, Ricardo?
Não é o fim do mundo,
não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Tinha um enorme relógio na parede
que não parava de tiquetaquear de demonstrar que a vida seguia
ininterruptamente com ou sem a maldita vaga com ou sem a porra de um colo de um
consolo de uma droga anestésica qualquer com ou sem mim com ou sem Renata ou
seja lá qual for o nome dela com ou sem um ou vários deuses e assim os
ponteiros despregaram dos números e ficaram içados girando como se dizendo-se
onipresentes como se o tempo em si fosse o único deus existente como se as
mazelas daquela forma de vida encolhida humilhada e ofendida por causa de uma
merdinha de vaga significassem poeira estrelar lixo espacial prestes a se
perder e a vagar pela eternidade a esmo como uma marca de Caim amaldiçoando
cada tentativa futura cada tentativa furtiva de progresso como se aquela vaga
imbecil não fosse a coisa mais importante na vida daquele ser humano
desprezível e assim os ponteiros seguiam zombando daquilo tudo zumbindo com os
acordes de metal que tentavam aclamar o ambiente tenso pesado estéril
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo,
não é o fim do mundo... Sentia uma dor física em algum lugar entre o pulmão e o
estômago, entre algum ponto que ia da sola dos pés até o couro cabeludo, queria
que não houvesse ninguém por perto, mas o quarto estava cheio de ponteiros
abusivos, de pessoas queridas, de fantasmas, de inimigos, de familiares, de
amigos que te dão tapas na cara, de amigos que te expulsam de casa, tudo sem
mais nem por que.
Resolveu que seria melhor ler alguma coisa
para se acalmar, mas toda aquela água no rosto deixava a visão turva, e as
palavras na tela do computador pareciam símbolos místicos, códigos
extraterrestres. Saiu, então, para caminhar, ainda que fosse preciso fazer uso
da velha bengala, guardada nos mais profundos baús de sua memória. Pela rua havia tanta
gente... tanta gente feliz... tanta gente vivendo com ou sem uma importante
vaga... Como era possível aquelas pessoas não reconhecerem uma alma aflita?
Como era possível ninguém distinguir a angústia insuportável, explícita nas chagas
sangrentas que pululavam dos braços frouxos? Como ninguém deteve aquele anjo
caído?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo,
não é o fim do mundo... sussurrou essa ladainha enquanto caminhava da
Biblioteca Nacional até o Bar do Adão, enquanto passava por rostos conhecidos
até reconhecer o meu, sentada, sozinha, revisando um artigo e tomando uma
cerveja. Parei de ler. Ele parou de falar. Bebemos um pouco. Suas mãos tremiam
e eu não sabia o que fazer, embora não soubesse o que estava acontecendo. Eu não
queria saber, não queria fazer parte daquilo, não queria sentir pena, medo,
raiva, não queria sentir nada. Ricardo via uma chuva fina de meteoros rasgando
o toldo, sentia cheiro de enxofre, sucumbia a calafrios por conta do furacão
que se anunciava, repetia em portunhol chinfrim as profecias maias e, por fim,
pediu uma Nega Fulô.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo,
não é o fim do mundo... Essa auto piedade exacerbada, essa ideia fixa de que o
mundo estava realmente se acabando por causa um único revés (ou pelo apanhado
de uns poucos reveses) me deixava louca, conforme Ricardo a apresentava,
paulatinamente. Eu não queria aquela realidade... não daquela forma, goela
abaixo, sem atenuantes, justificativas prévias ou apenas luzes florescentes que
lhes conferissem algum sentido. Sim... a eterna e inútil busca por sentido
qualquer... Eu ouvia aquele conjunto de mínimas catástrofes, de acontecimentos
ordinários e simplesmente não decidia o que pensar sobre eles. A vaga, a
cartomante, os ponteiros... Suas falas eram entrecortadas por suas alucinações,
que por sua vez, me pareciam tão verídicas que eu me sentia em uma
superprodução estadunidense. Por dois segundos considerei segurar suas mãos e
fugir do tsunami, procurar o bunker mais próximo, encontrar o messias mais
adequado e esperar pelo pior ou pelo melhor dos mundos possíveis, candidamente.
Também quis berrar um foda-se, quis compor uma melodia atenuante para meter bem dentro da
canção selvagem, que ele persistia em destilar entredentes. Paguei nossa conta
e ofereci carona, abrigo. Ricardo me sorriu com impressionante lucidez, disse
que passaria na tal casa caótica, pegaria suas coisas e passaria uns tempos
comigo. Fiquei observando enquanto ele caminhava em direção ao ponto de ônibus.
Era impressionante como daquele modo, de costas com uma mão no bolso, ele era
exatamente o garoto que conheci no colégio, tantos anos antes. Tive vontade de
correr e abraça-lo, mas contive o estranho e súbito instinto maternal.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo,
não é o fim do mundo... sei que repetiria essas mesmas palavras até o fim dos
tempos. Até que parasse de doer, até que sua cabeça parasse de chover e
trovejar, até que elas também perdessem o sentido na hecatombe psicodélica que
se afigurava na fumaça da metrópole, até que tivesse início uma existência
automática, até que lhe dessem a pílula lilás, até que novamente encontrasse o
coelho branco idiota para lhe cuspir na cara.
Nunca mais tive notícias de Ricardo, ou de
sua canção selvagem, ou do mundo que se acabou com ele dentro. 2011 foi um ano estranho e nublado, mas 2012 seria muito pior.