sábado, 2 de novembro de 2013

DENTRO DA CANÇÃO SELVAGEM

Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Ricardo repetia essas palavras a si como um mantra para a salvação eterna, para a danação eterna. As cartas do baralho cigano tinham mostrado um homem de negócios em seu caminho, sucesso na carreira, uma viagem, dinheiro, paz e até mesmo um novo amor, tudo isso “num futuro próximo”.
E não importa o tamanho ou intensidade do ceticismo nosso de cada dia. Acredito piamente que previsões feitas por pessoas fantasiadas, e fantasiosas, sempre embutem um tanto de esperança nos frágeis corações que se deixam passar pelo minucioso processo investigativo-divinatório de tarólogos, astrólogos e afins. Digo frágil porque pessoas como Ricardo, que se encontram em alguma das inúmeras encruzilhadas da vida, constantemente acompanhadas por incertezas trabalhistas e amorosas, costumam carregar um semblante débil, dispostas a tomar para si respostas metafísicas para questões de ordem pragmática.
            Ricardo havia feito de tudo para conseguir aquela vaga, que lhe salvaria a vida, as finanças, as hemorroidas, os hematomas, os ossos quebrantados, a pele curtida. Havia feito de tudo para fugir da existência miserável que perseguia sua sombra, sem sombras de dúvida. E agora José? Drummond não viria para redimir as coisas, ou para explicar as moscas que rodeavam suas ideias.
Quando se candidatou à vaga, Ricardo estava de mudança, ainda que não soubesse ao certo onde iria morar. Tinha uma semana para se livrar de um apartamento cheio de mobília, lembranças e a sensação de uma vida interrompida. Espalhou suas tralhas nas casas dos amigos mais próximos, jogou um bocado de coisa fora; desmontou-se. Resumia-se, então, todo ele, a uma mochila, um vasinho de espada-de-são-jorge, uma estante vermelha e um quadro com um pôster do Magritte em preto e branco. Inscreveu-se no site da empresa numa lan house, com o mochilão apoiado no balcão, minutos antes de fechar um contrato informal para alugar um quarto em uma casa de hippies anacrônicos, bem no centro da cidade. Na sequência, digitou um sms para Renata: ainda n terminei o cap 2, mas pelo avanço d ontem acho q até o final do dia rola. E aí? Com todas as merdas que estavam acontecendo, gostava da ideia de ter uma namorada, mesmo que de maneira casual.
Leu a resposta enquanto comia um joelho com refresco de caju: Pois é.... eu tenho uma sugestão: a Ju vai comemorar o aniversário dela hj "Casarão 70", na Bento Lisboa. Pelo q entendi vai ser uma festinha tranks, tipo música ao vivo, de graça. Partiu? Bjssss. Leu a resposta e quase perdeu a fome pensando por que, meus deus, por que as mulheres escrevem tanto?... Como dizer que eu só quero tomar uma cerveja, abraça-la a assistir um filme explosivo? Melhor não dizer nada. E não disse.
A casa dos hippies era imunda, tinha quinze cachorros, um cágado, dois gatos, e nenhuma faxineira ou diarista, pelo que lhe informou Tomás, o gerente pancado que o recebeu e o acompanhou ao tal quarto. Em poucos dias Ricardo descobriria que Tomás fechava o registro da água para economizar, deixando os banheiros intransitáveis com todo o tipo de odor que o corpo humano pode produzir, que além das pulgas a casa era enfestada de baratas, que passeavam tranquilamente por toda cozinha, que o casal do quarto ao lado protagonizava agoniantes cenas de violência doméstica, que metade dos moradores passava o dia inteiro no sofá da sala fumando um e bebendo um chá. Era o único lugar que ele tinha, o único que podia pagar, o único que conseguira em uma semana.
Uma vez instalado, tratou de mandar notícias aos amigos fiéis que nunca lhe perdiam de vista, por mais que ele se escondesse. O e-mail foi rápido e honesto: A vida anda boa, uma vez que ainda não me matei... as novidades são: não tenho um emprego para o próximo ano, minha tese insiste em se mostrar cada vez mais complexa e, ao mesmo tempo, incompleta, além disso, só a perspectiva de morar com meus pais em Vassouras me causa ânsia de vômito, estou enclausurado em três metros quadrados de paz e ar-condicionado, tendo por companhia minha insana consciência que martela as mais absurdas verdades e os mais dolorosos delírios e, assim, no caos, vou tentando escrever e não enlouquecer por completo. Releu o texto algumas vezes antes de enviar e decidiu que era melhor jogar limpo mesmo.
Na terceira vez que sua mãe ligou ele resolveu atender. Estava aos prantos porque ele não dava noticias, porque o celular dele vive desligado e dizendo que ele nem sabia que a avó centenária estava internada e que seu pai... e que... e que... já não ouvia mais. Saiu de casa em direção à biblioteca e, porque sua vida não fazia sentido mesmo, pegou um papelzinho que dançava no ar, exibindo-se pela Presidente Vargas como que por encanto. Ele achou bonito o papelzinho rosa-enjoativo rodando no ar, na hora lhe pareceu muito semelhante à sua própria vida. Era o anúncio de uma cartomante que atendia ali perto.
Aquilo pareceu tão bizarro que pensou a respeito. Sua vida estava tão bizarra, que ousou consultar a pseudo pitonisa do Saara. Afinal, que mal faria? Que mal faria a uma alma aflita, o conforto de incensos e pequenas sementes de esperança? Pode parecer exagero meu, mas acho que aquele foi o maior erro de Ricardo. Contudo, se apostar sua perspectiva de vida nas palavras de uma desconhecida lhe pareceu razoável, que acerto poderia obter aquela cabecinha em meio à sonoridade carioca, sob a luz aturdida e paralisante de dezembro?
            Ricardo voltou ao lar hiporonga impactado pelas previsões de vitória. Tanto que nem mesmo estranhou quando o gerente declarou em alto e bom som que era michê e recebia senhoras (ditas “patrocinadoras”) naquela casa nojenta – dizia aquilo porque precisava montar um esquema com os outros moradores da casa para as próximas visitas. Ricardo consultou diversos oráculos através do oráculo-mor, Google, e confirmou que seu mapa astral era digno de um grande estadista, que seu horóscopo chinês ressaltava suas inúmeras qualidades de bom guerreiro, e que sua numerologia para o apocalíptico 2012 era extremamente favorável.
De alguma maneira, aquilo gerou uma sensação de bem estar explicável apenas através de algum complexo aparato teórico da psicanálise. De uma hora para outra Ricardo era um cara de sorte, que exercia sua anima de maneira saudável, tinha boas perspectivas de terminar sua tese em paz e conseguir um bom emprego, como uma espécie de recompensa por todos os perrengues enfrentados ao longo daqueles quase trinta anos.
Sob tal estado de espírito respondeu aos amigos queridos: Hoje acordei melhor... pensando que essa existência de merda é, com ou sem gozo, passageira, e que com ou sem vontade de existir, com ou sem "vontade de potência", the show must go on, e assim que eu defender a tese vou sair do Brasil, devo ir para Buenos Aires, Madrid, Dubai, sei lá, mas tenho certeza de que Pangloss estava certo e tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis... risos. Devo trabalhar em alguma coisa na minha área mesmo, mudar de ares... que sabe me casar?
            Talvez pela infelicidade da citação no e-mail, ou por capricho do universo, ou pela canalhice que rege alguns processos seletivos, ou simplesmente pelo fato de Ricardo não ser bom o bastante, ele não conseguiu aquela vaga. Nem a outra que tentou na semana seguinte, nem foi classificado no concurso público que tentou alguns meses antes e que só agora saia o resultado, nem aquela outra para o qual havia sido indicado pelo doutor fulano de tal. Nada. Nem havia no quarto infestado de pulgas sua amada guitarra com a qual gritaria uma canção desesperada, uma canção vinda de dentro da canção selvagem que vibrava e regurgitava em cada célula do seu corpo estendido no chão feito detrito.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Repetia a si como um mantra para a salvação eterna, para a danação eterna. As paredes do quarto tão pobremente mobilhado careciam de sentido, as sacolas no chão, espalhadas como praga, tão pouco tinham razão de ser; com os livros deveria limpar o rabo, com as roupas deveria fazer as velas do barco, que teria como base a madeira da estante vermelha e o armário da loja vagabunda. Por onde andaria Renata àquela hora? Por que fazia sol ao redor da praça? Por que as outras pessoas conseguiam sorrir? Por que as outras pessoas pareciam confortáveis em sua condição humana? Ao menos pareciam...
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Era só uma vaga no mercado de trabalho... Crianças continuavam sendo escravizadas em Dubai, o preço do café continuava a disparar no Rio de Janeiro, bolivianos continuavam a invadir São Paulo, pessoas continuavam a ocupar Wall Street, velhos barrigudos continuavam a peidar, mulheres barrigudas continuavam a parir. Não havia conseguido a vaga, mas e daí? Deveria, por isso, matar Madame Rigoletta? Deveria, por isso, se matar? Deveria, por isso, o mundo acabar?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Arranjaria outra, melhor ou pior, mais ou menos digna, e o mundo não se alteraria por isso, a ordem das coisas continuaria a mesma. Por que então o desespero? Por que a sensação de que a vida, num átimo, havia perdido o sentido, total e completamente, com todas as redundâncias que isso pode suscitar? Uma pessoa a mais desempregada, uma pessoa a mais fudida, uma pessoa a mais deprimida e concordando com cada vírgula de Sartre. E daí, Ricardo?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Tinha um enorme relógio na parede que não parava de tiquetaquear de demonstrar que a vida seguia ininterruptamente com ou sem a maldita vaga com ou sem a porra de um colo de um consolo de uma droga anestésica qualquer com ou sem mim com ou sem Renata ou seja lá qual for o nome dela com ou sem um ou vários deuses e assim os ponteiros despregaram dos números e ficaram içados girando como se dizendo-se onipresentes como se o tempo em si fosse o único deus existente como se as mazelas daquela forma de vida encolhida humilhada e ofendida por causa de uma merdinha de vaga significassem poeira estrelar lixo espacial prestes a se perder e a vagar pela eternidade a esmo como uma marca de Caim amaldiçoando cada tentativa futura cada tentativa furtiva de progresso como se aquela vaga imbecil não fosse a coisa mais importante na vida daquele ser humano desprezível e assim os ponteiros seguiam zombando daquilo tudo zumbindo com os acordes de metal que tentavam aclamar o ambiente tenso pesado estéril
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Sentia uma dor física em algum lugar entre o pulmão e o estômago, entre algum ponto que ia da sola dos pés até o couro cabeludo, queria que não houvesse ninguém por perto, mas o quarto estava cheio de ponteiros abusivos, de pessoas queridas, de fantasmas, de inimigos, de familiares, de amigos que te dão tapas na cara, de amigos que te expulsam de casa, tudo sem mais nem por que.
Resolveu que seria melhor ler alguma coisa para se acalmar, mas toda aquela água no rosto deixava a visão turva, e as palavras na tela do computador pareciam símbolos místicos, códigos extraterrestres. Saiu, então, para caminhar, ainda que fosse preciso fazer uso da velha bengala, guardada nos mais profundos baús de sua  memória. Pela rua havia tanta gente... tanta gente feliz... tanta gente vivendo com ou sem uma importante vaga... Como era possível aquelas pessoas não reconhecerem uma alma aflita? Como era possível ninguém distinguir a angústia insuportável, explícita nas chagas sangrentas que pululavam dos braços frouxos? Como ninguém deteve aquele anjo caído?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... sussurrou essa ladainha enquanto caminhava da Biblioteca Nacional até o Bar do Adão, enquanto passava por rostos conhecidos até reconhecer o meu, sentada, sozinha, revisando um artigo e tomando uma cerveja. Parei de ler. Ele parou de falar. Bebemos um pouco. Suas mãos tremiam e eu não sabia o que fazer, embora não soubesse o que estava acontecendo. Eu não queria saber, não queria fazer parte daquilo, não queria sentir pena, medo, raiva, não queria sentir nada. Ricardo via uma chuva fina de meteoros rasgando o toldo, sentia cheiro de enxofre, sucumbia a calafrios por conta do furacão que se anunciava, repetia em portunhol chinfrim as profecias maias e, por fim, pediu uma Nega Fulô.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Essa auto piedade exacerbada, essa ideia fixa de que o mundo estava realmente se acabando por causa um único revés (ou pelo apanhado de uns poucos reveses) me deixava louca, conforme Ricardo a apresentava, paulatinamente. Eu não queria aquela realidade... não daquela forma, goela abaixo, sem atenuantes, justificativas prévias ou apenas luzes florescentes que lhes conferissem algum sentido. Sim... a eterna e inútil busca por sentido qualquer... Eu ouvia aquele conjunto de mínimas catástrofes, de acontecimentos ordinários e simplesmente não decidia o que pensar sobre eles. A vaga, a cartomante, os ponteiros... Suas falas eram entrecortadas por suas alucinações, que por sua vez, me pareciam tão verídicas que eu me sentia em uma superprodução estadunidense. Por dois segundos considerei segurar suas mãos e fugir do tsunami, procurar o bunker mais próximo, encontrar o messias mais adequado e esperar pelo pior ou pelo melhor dos mundos possíveis, candidamente.
Também quis berrar um foda-se, quis compor uma melodia atenuante para meter bem dentro da canção selvagem, que ele persistia em destilar entredentes. Paguei nossa conta e ofereci carona, abrigo. Ricardo me sorriu com impressionante lucidez, disse que passaria na tal casa caótica, pegaria suas coisas e passaria uns tempos comigo. Fiquei observando enquanto ele caminhava em direção ao ponto de ônibus. Era impressionante como daquele modo, de costas com uma mão no bolso, ele era exatamente o garoto que conheci no colégio, tantos anos antes. Tive vontade de correr e abraça-lo, mas contive o estranho e súbito instinto maternal.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... sei que repetiria essas mesmas palavras até o fim dos tempos. Até que parasse de doer, até que sua cabeça parasse de chover e trovejar, até que elas também perdessem o sentido na hecatombe psicodélica que se afigurava na fumaça da metrópole, até que tivesse início uma existência automática, até que lhe dessem a pílula lilás, até que novamente encontrasse o coelho branco idiota para lhe cuspir na cara.


Nunca mais tive notícias de Ricardo, ou de sua canção selvagem, ou do mundo que se acabou com ele dentro. 2011 foi um ano estranho e nublado, mas 2012 seria muito pior.

domingo, 27 de outubro de 2013

A história do gozo


          É incrível como a Baía de Guanabara é ainda mais bonita vista de Niterói, né?! Quer dizer, daqui também é lindo, mas sei lá... Mas esse não é o ponto. Não, eu não vou ficar falando daqui da janela. É que tem um tempo que eu não vinha aqui... tinha esquecido como é bonito. Bom, pouco importa a paisagem quando o gozo da transa matinal escorre pelas suas pernas e você só pensa em como começar a conversa que vai vetar aquele sêmen àquela e qualquer outra parte do seu corpo. Né?! Quer dizer... especialmente se foi uma boa transa. Tô aqui falando em paisagem, pensado na vista da varanda da casa dele, mas podia ter sido em Bangu, Botafogo, Paris, daria no mesmo. Mentira. Passada em Paris, a história teria esse charme que a gente gosta de dar ao estrangeiro. Ah, Dr. Lacerda, você me pediu pra ir direto ao ponto e agora quer preâmbulos.
          Eu queria terminar, então terminamos. Tá. Eu queria só conversar, terminar, ganhar uma declaração de amor beeeeeem brega e aí, de repente reatar, isso num espaço de duas horas, com direito a cachaça. Não, Dr. Lacerda, não se trata de projetar minhas ficções... eu só fiz um plano... todo mundo faz planos, milhares deles, cotidianamente. Mas então, eu tava segura em relação a isso, à minha decisão de terminar o namoro. Como assim eu não queria terminar?! Pois se eu tinha preparado a roupa pra ocasião, o rímel, o delineador, o discurso “te-amo-mas-tô-confusa”, tudo! Eu não crio “uma realidade paralela na qual as coisas são resolvidas através de conflito e drama”! Eu hein. Achei que seus “diagnósticos” vinham depois do meu relato. Eu não estou sendo sarcástica, nem tô negando porra nenhuma. Ok... continuando.
         É...
         Eu...
        Ah, sei lá se eu ainda quero falar disso, dele, da vida. Tenho uma infinidade de trabalho atrasado... e.... Num sei. Pois é, né, eu deveria gastar a grana dessa hora fazendo o cabelo. E porque te parece importante que eu fale sobre isso? Sério, Dr. Lacerda! Engraçado que eu nunca reparei que fico suspirando quando tô preocupada... Será? Tá.
Quando eu saí da casa dele só pensava que eu tinha levado meu primeiro pé na bunda, que eu tinha sido, de certa forma, humilhada, que eu tinha dito um monte de desaforos descabidos de mulher recalcada e que o Rio fica tão lindo nublado. Agora que já passou um tempo, vejo que os desaforos não eram tão descabidos, que de fato eu queria manter um namorado, não ele, especificamente ele, o Homem H.
         É sério. Tá.
        Eu levei umas 13 horas pra chegar na casa dele. Ah, carro quebrado, mecânico gato, divagações sobre uma geração que não consegue se encaixar profissionalmente nem se engajar politicamente, uma queimadura na mão e muita revisão dos argumentos pró e contra o namoro. Mas porra, é só um namoro... Dr. Lacerda, você acha isso mesmo...? Ah, isso não deveria tomar tanto tempo na minha vida, na vida de ninguém... O marcante mesmo, o impacto da coisa tava no gozo que escorria. Quer dizer, de repente eu nem estaria aqui dando tanta atenção a isso se... Ah... Tá.
     Aí... aí eu cheguei lá. Puta da vida com a viagem, cansada, genuinamente confusa em relação à importância que eu dou aos meus sentimentos, querendo uma cerveja, um cigarro e um cafuné. Não queria pensar em nada, decidir nada. Aí conversamos. Sentamos na varanda e, olhando sempre pra Baía, nunca nos olhos, conversamos como dois bons amigos. Falamos da viagem, das divagações profissionais, do Flamengo, do Fluminense, da Copa, do Cabral, da menstruação. Falamos até às 5 da manhã. Até a gente ir dormir. Não, ele parecia normal... quer dizer... agora acho que ele já parecia querer conversar, que nem eu. Acordamos, transamos. Foi bom. Pensei de novo se eu queria mesmo terminar; pensei que eu queria encontrar uma resposta pronta dentro de mim; queria fechar os olhos e acessar um arquivo interno com respostas precisas pras minhas dúvidas; queria não ser humana.
        Ele arrumou a bagunça da madrugada anterior enquanto eu pegava minha caneca de café. Nessa hora, vigiando o trajeto de um barco, sentindo o gozo escorrer pelas minhas coxas, sentindo o calor da atividade sexual ainda percorrer minhas veias, bebendo o café devagar, eu pensava que não dava pra terminar ali naquela mesa de café da manhã fofa que ele tinha preparado. Não dava. Comecei a voltar atrás, a pensar que na verdade tava tudo bem. Foi então que ele me chamou pra sentar na rede com ele, no colo dele. Com os olhos marejados ele me olhava e formava uma ruga na testa e suava e desviava o olhar pro chão e me olhava de novo e gaguejava e suspirava e derretia sob o sol de inverno e procurava alguma coisa ao redor de si e angustiava com mais rugas e suspiros.
           “Não é fácil pra mim te dizer isso...”.
Prontosurtei. Putaquepariusurtei. Putaquepariuesseputoquerterminar. “Que isso, gatinho, fala logo...”
         “Eu andei pensando... é.... acho que... ah, não sei... eu acho que tô um pouco confuso e... talvez seja melhor...”
         “Cara! Que bom que você falou isso! Ai! Vim a viagem toda pensando nisso, pensando se eu quero um namorado ou se eu quero você, sabe? Pensando se vale a pena, pensando que eu nem sei direito o que eu sinto por você... Quer dizer, nem preciso te dizer que eu só não te traí porque tá foda, não encontra homem que  preste, nem pruma transa... te contar que a vida não ta fácil... hahahahaha O que foi?!! Que cara é essa?!”
          “Só achei que sua reação seria outra...”
          “Mas me conta, você tá comendo alguém?”
          “(...)”
          “Fala! (risos)”
          “Não.”
         “Ah, você achou que eu fosse chorar? Hahahahahahahahahaha. Ai ai... enfim, bom resolvermos tudo assim, tudo numa boa!”
       Ah, Dr. Lacerda, que isso foi uma demonstração de imaturidade emocional eu já sabia. Quero entender porque eu sempre saio de um relacionamento trocando farpas, ou aos berros, ou aos prantos ou... hahahahahaha Mais 5 anos de análise?! Tá. Então, depois eu fui beber, óbvio, com o C. em Copacabana. No caminho pro bar, quem eu encontro na rua? Ferreira Gullar! Claro que eu não o conheço... Mas ele sempre circula pelo Lido, cansei de vê-lo por ali. Enfim... achei que seria bacana escrever um poema pro Homem H. É, tive a ideia lá pela sexta dose. Achei um post-it na bolsa e fui escrevendo no táxi e... ah, o C. ficou pouco tempo, tinha que ir pro ensaio da peça, aliás, estreia hoje! Enfim... acabou que eu resolvi visitar meu tarólogo na galeria Ritz. Acabou que ele não tava lá e eu achei meu bilhete muito brega, deixei pregado na porta dele...
      Como assim acabou meu tempo?! Você não quer mais me ouvir?! Mas eu nem falei das coisas importantes, nem falei sobre como me sinto muito melhor agora, solteira. Na verdade acho que é mais um alívio por não estar em compromisso com alguém que eu nem sabia o que sentia s... É claro que a gente sempre sabe quando ama uma pessoa... mas... ah, para, esse lance de que amor é uma coisa complexa é mui... tá, entendi. Só mais uma pergunta... esse tempo todo que eu venho aqui, contando as férias que você chama de “ausências”, eu tenho te chamado de Dr. e talz... Então, Lacerda, você tem doutorado, quer dizer, defendeu uma tese e coisa e tal, ou a gente aqui só tá corroborando um senso comum de tempos passados?

domingo, 25 de agosto de 2013

Na Ritz

            Vejam vocês, Marisa estava morando em Botafogo. Descolou um trampo como babá, que conseguiu conciliar com o permanente ofício de “vendedora da Avon”. Agora, quem conhece Marisa assim, na superficialidade de seus sorrisos de botequim, podia imagina-la (ah, a gente sempre imagina figuras como Marisa) quase como uma garotinha-zona-sul; ela, que até pouco tempo era orgulhosa moradora de Paracambi. Ninguém tem a real dimensão do que era morar num quarto alugado na casa de um sujeito machista, misógino, careta e covarde, trabalhando 13 horas por dia, gastando cada centavo de seu salário para experimentar (voluntariamente, eu diria, antropologicamente) os agouros da vida burguesa com gostinho de maresia ao final de cada provação etílica. Bom, Marisa achava (e talvez ainda ache) que ninguém tinha, que ninguém entendia e disso se queixava aos montes. E quem acreditaria se contassem que viram Marisa, numa manhã particularmente quente e bela, a caminhar pela Voluntários da Pátria com olhos marejados de dor e desespero, a desejar colo e conformismo?!
            Isto porque Marisa é leve de obrigações da vida normativa, especialmente no que diz respeito à profissão: nem cogitou ensino “superior”, paga uma modesta previdência privada e, muito filósofa, acha que “dinheiro é pra gastar e vida é pra viver, sem mimimi, sem ninguém para te bancar e, portanto, manipular” [sic]. É leve e gosta de rir de tudo, de todas as dores, as suas e as alheias. E lá estava ela, linda, independente, com uma puta dor de dente, sem um centavo no bolso ou qualquer vestígio de sarcasmo no rosto. Apenas a alguns metros do trabalho se percebeu olhando para a Unidade de Pronto Atendimento com algum interesse.
Não cabe aqui narrar o que ela pensou sobre o sistema de saúde público da cidade do Rio de Janeiro, em parte porque a indignação de quem depende dele é tão unânime e pública que seria redundante acrescentar mais um lamento, em parte, grande parte, porque não sei, precisamente, o que se passava por aquela cabeça – Marisa não é criação minha, não é personagem parida do narrador, ela pertence ao mundo e àqueles capazes de enxerga-la. Aliás, esta história, ouvi da boca dela, num bar em Maria da Graça.
            O atendimento foi rápido. Diagnóstico: olha, acho que é virose... brincadeira... pode ser o sizo... pode... e porque você ainda não tirou esses sizos... que estranho... bom, pode ser um canal... quantas vezes você usa fio dental [nota mental pervertida na cabecinha de Marisa]... sei... mas pode ser uma inflamaçãozinha na gengiva... coisa básica... é... eu sei que tá doendo... vou de dar um remedinho óootemo... mas é... você tem que procurar um dentista particular... é... eu sei.... mas aqui eu não tenho recursos pra examinar.... aham... sei... posso te dar um encaminhamento prum posto pra depois você ir de repente prum hospital, mas até lá minha filha... já era sua boquinha... Com uma risadinha cínica o dentista deu um encaminhamento para fazer radiografia e um endereço em Copa, de um camarada, que trabalhava com preços populares.
            A “avenida copacabana”, como dizem os antigos em menção à Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sempre conservou (ou concentrou) seu melhor e inegável caos nos quarteirões entre as ruas Santa Clara e Siqueira Campos, muito, mas muito antes de qualquer ideia de metrô. Rasgando o bairro, antes como navalha do que como aorta, esse passeio público abriga todos, dentre os inúmeros, estereótipos outrora poetizados, cada qual em seus respectivos trechos. Um sujeito incauto, que se atem à certeza do trocador do ônibus quando este diz que para chegar ao número 500 da Avenida você tem que descer no ponto da Barata Ribeiro, perto da Dias da Rocha, vai chegar atrasado em seu compromisso, mas, se vale de consolo, poderá desfrutar de uma elegante caminhada pela desordem urbana no compasso dos (nem sempre simpáticos) aposentados.
            Marisa, esperta e moderna, saiu do metrô na Figueiredo e, no tempo de uma trovoada, estava em frente ao número 610: Galeria Ritz, edifício que nasceu para sepultar o charmoso cinema dos anos 1950. Para ter acesso ao oitavo andar era necessário passar pelo combinado semipsicodélico, multicolorido, sob vacilante luz amarela, e que engloba todo o tipo de comércio conhecido pela raça humana (minha sobrinha jura que certa vez viu uma moça muito “pintada” vendendo dois coelhos brancos nos primeiros degraus da escada). A Ritz é como a imagem que Hollywood nos passa de Bangkok.
            A concepção de edifícios mistos, isto é, aqueles que abrigam num mesmo corredor consultórios médicos e residências familiares, sempre pareceu uma aberração para Marisa. Porém, naquela tarde de verão sua dor era tanta (agora assolando metade da cara) que prendeu a respiração e só soltou quando a secretária abriu a porta do 823.
            Horas depois, com 2 dentes a menos e um cheque pré-datado que ela ainda não sabia exatamente como cobriria, Marisa caminhou em direção ao elevador; com a felicidade modorrenta da anestesia. Achou até graça do urro saído de uma porta com anúncio de estúdio de tatuagem, enjoou um pouco com o cheiro de frango frito, vindo sabe-se lá de onde e demorou um tanto para notar o papel avisando que o elevador estava parado. Parou no quarto andar para pegar um ar quando reparou numa porta, definitivamente residencial, com os dizeres “Lar Feliz” no tapete gasto e, ao lado, dois sacos pretos cheios, daqueles que a gente usa para lixo ou para mudanças quando faltam malas. A porta parecia ter sido arrombada algumas vezes e, um pouco acima da maçaneta havia um bilhete colado, ocupando dois post-it gigantes e rosa choque. Ela leu aquilo umas três vezes antes de tirar uma foto, aproveitando a modernidade telefônica dos dias de hoje. A nota dizia: 

Mas é claro q nós sabíamos q eu escreveria qualquer merda...
Eu só queria ter certeza de q estamos fazendo a coisa certa, queria confirmar (a mim mesma) q foi uma decisão de comum acordo, q eu já sabia no q ia dar.
Queria ter certezas, a despeito de saber q elas não existem para além das ficções.
Queria falar à toa, pq sou dessas, pq sempre falo pra caralho.
Queria não me sentir estranha...
e no fim das contas, pouco importa o q eu quero ou digo
(...)
vida q segue.
             
              Marisa desceu as escadas em silêncio consigo mesma e atravessou a rua em ato mimético às mocinhas com uniforme de escola particular. Deu por si na Atlântica, cega pelo azul esbranquiçado de sol. Seu telefone tocava, era a patroa. Pegou o ônibus de volta a Botafogo e então só conseguia pensar na história. A história por trás daquele bilhete que não fazia o menor sentido na cabeça de Marisa. E não era culpa dos psicotrópicos: a necessidade vil de saber, investigar, julgar, monitorar e criar a vida alheia faz parte do cotidiano de nossa sociedade há algum tempo.
            Tão logo chegou na Princesa Isabel, a autora da nota já tinha um nome: Aurora, inspirada menos pela Disney e mais pela marchinha de carnaval. Aurora morava com Luciano (Marisa era fã número um do parrudinho que faz dupla com o Zezé) e o poodle Zequinha no apartamento emprestado da madrinha e viviam um constante inferno astral no relacionamento. Aurora já havia parado de cheirar umas mil vezes, enquanto Luciano vira e mexe chegava em casa com purpurina na cueca e cheiro de lubrificante. Aurora perdeu a conta de quantas vezes caminhou até a delegacia e voltou para casa com medo e amor. Luciano já nem sabia mais onde morava, de tanto deixar Copacabana para trás.
            Mas aquela sexta-feira foi marcante, foi o suficiente para Aurora trocar a fechadura da porta e deixar o que restava dos cacarecos de Luciano literalmente para fora de sua vida. Há uma semana não se falavam. Aurora deu a notícia de que começara a trabalhar de modelo para um velho escultor que tinha um atelier no andar de baixo minutos antes de saber que Luciano trouxera Lilá, travesti mais querido da Ritz, para morar com eles, dividir as contas, essas coisas. Aurora e Lilá eram amigas, acostumadas a dividir elevador, roupas, carreiras, gozos; não havia motivo para não dividir também o teto e a cama. Eram tão amigas que em pouco tempo Luciano tornou-se presença desagradável e mal cheirosa. Tão amigas que começaram a posar juntas para seu Agenor. Não havia mais espaço para Luciano. Nem para suas brigas e porradas na cara. Era tempo de tomar uma decisão.
            Novamente Voluntários da Pátria. Marisa andava pela calçada olhando o chão, tentando achar alguma pista sobre o fim daquilo tudo. Parou em frente a uma banca de jornal e releu o bilhete. Quem Aurora teria expulsado? Marisa sabia que precisava de um nível de abstração e criatividade acima do seu, sabia que alguém teria que ajuda-la a terminar a história.
No apartamento de fundos, em um dos quinze cômodos que o compunham, duas meninas gritaram de alegria quando viram Marisa entrar. A patroa dissera que estava tudo bem se ela quisesse descansar, nem precisava levar as meninas para o play... era só ficar ali, quietinha, sem falar nada, assistindo tv com elas. Compreensiva ela. Mas Marisa não podia calar.
            “Meninas, vocês conhecem a história da princesa Aurora e do príncipe Luciano? Eles viviam num lugar muito muito distante, e muito muito esquisito, chamado Copa...”