Vejam
vocês, Marisa estava morando em Botafogo. Descolou um trampo como babá, que
conseguiu conciliar com o permanente ofício de “vendedora da Avon”. Agora, quem
conhece Marisa assim, na superficialidade de seus sorrisos de botequim, podia
imagina-la (ah, a gente sempre imagina figuras
como Marisa) quase como uma garotinha-zona-sul; ela, que até pouco tempo era
orgulhosa moradora de Paracambi. Ninguém tem a real dimensão do que era morar
num quarto alugado na casa de um sujeito machista, misógino, careta e covarde,
trabalhando 13 horas por dia, gastando cada centavo de seu salário para
experimentar (voluntariamente, eu diria, antropologicamente) os agouros da vida
burguesa com gostinho de maresia ao final de cada provação etílica. Bom, Marisa
achava (e talvez ainda ache) que ninguém tinha, que ninguém entendia e disso se
queixava aos montes. E quem acreditaria se contassem que viram Marisa, numa
manhã particularmente quente e bela, a caminhar pela Voluntários da Pátria com
olhos marejados de dor e desespero, a desejar colo e conformismo?!
Isto
porque Marisa é leve de obrigações da vida normativa, especialmente no que diz
respeito à profissão: nem cogitou ensino “superior”, paga uma modesta
previdência privada e, muito filósofa, acha que “dinheiro é pra gastar e vida é
pra viver, sem mimimi, sem ninguém para te bancar e, portanto, manipular” [sic]. É leve e gosta de rir de tudo, de
todas as dores, as suas e as alheias. E lá estava ela, linda, independente, com
uma puta dor de dente, sem um centavo no bolso ou qualquer vestígio de sarcasmo
no rosto. Apenas a alguns metros do trabalho se percebeu olhando para a Unidade
de Pronto Atendimento com algum interesse.
Não cabe aqui narrar o que ela
pensou sobre o sistema de saúde público da cidade do Rio de Janeiro, em parte
porque a indignação de quem depende dele é tão unânime e pública que seria
redundante acrescentar mais um lamento, em parte, grande parte, porque não sei,
precisamente, o que se passava por aquela cabeça – Marisa não é criação minha, não
é personagem parida do narrador, ela pertence ao mundo e àqueles capazes de
enxerga-la. Aliás, esta história, ouvi da boca dela, num bar em Maria da Graça.
O
atendimento foi rápido. Diagnóstico: olha, acho que é virose... brincadeira...
pode ser o sizo... pode... e porque você ainda não tirou esses sizos... que
estranho... bom, pode ser um canal... quantas vezes você usa fio dental [nota
mental pervertida na cabecinha de Marisa]... sei... mas pode ser uma
inflamaçãozinha na gengiva... coisa básica... é... eu sei que tá doendo... vou
de dar um remedinho óootemo... mas é... você tem que procurar um dentista
particular... é... eu sei.... mas aqui eu não tenho recursos pra examinar....
aham... sei... posso te dar um encaminhamento prum posto pra depois você ir de
repente prum hospital, mas até lá minha filha... já era sua boquinha... Com uma
risadinha cínica o dentista deu um encaminhamento para fazer radiografia e um
endereço em Copa, de um camarada, que trabalhava com preços populares.
A
“avenida copacabana”, como dizem os antigos em menção à Avenida Nossa Senhora
de Copacabana, sempre conservou (ou concentrou) seu melhor e inegável caos nos
quarteirões entre as ruas Santa Clara e Siqueira Campos, muito, mas muito antes
de qualquer ideia de metrô. Rasgando o bairro, antes como navalha do que como
aorta, esse passeio público abriga todos, dentre os inúmeros, estereótipos
outrora poetizados, cada qual em seus respectivos trechos. Um sujeito incauto,
que se atem à certeza do trocador do ônibus quando este diz que para chegar ao
número 500 da Avenida você tem que descer no ponto da Barata Ribeiro, perto da
Dias da Rocha, vai chegar atrasado em seu compromisso, mas, se vale de consolo,
poderá desfrutar de uma elegante caminhada pela desordem urbana no compasso dos
(nem sempre simpáticos) aposentados.
Marisa,
esperta e moderna, saiu do metrô na Figueiredo e, no tempo de uma trovoada,
estava em frente ao número 610: Galeria Ritz, edifício que nasceu para sepultar
o charmoso cinema dos anos 1950. Para ter acesso ao oitavo andar era necessário
passar pelo combinado semipsicodélico, multicolorido, sob vacilante luz
amarela, e que engloba todo o tipo de comércio conhecido pela raça humana
(minha sobrinha jura que certa vez viu uma moça muito “pintada” vendendo dois
coelhos brancos nos primeiros degraus da escada). A Ritz é como a imagem que
Hollywood nos passa de Bangkok.
A
concepção de edifícios mistos, isto é, aqueles que abrigam num mesmo corredor
consultórios médicos e residências familiares, sempre pareceu uma aberração
para Marisa. Porém, naquela tarde de verão sua dor era tanta (agora assolando
metade da cara) que prendeu a respiração e só soltou quando a secretária abriu
a porta do 823.
Horas
depois, com 2 dentes a menos e um cheque pré-datado que ela ainda não sabia
exatamente como cobriria, Marisa caminhou em direção ao elevador; com a
felicidade modorrenta da anestesia. Achou até graça do urro saído de uma porta
com anúncio de estúdio de tatuagem, enjoou um pouco com o cheiro de frango
frito, vindo sabe-se lá de onde e demorou um tanto para notar o papel avisando
que o elevador estava parado. Parou no quarto andar para pegar um ar quando reparou
numa porta, definitivamente residencial, com os dizeres “Lar Feliz” no tapete
gasto e, ao lado, dois sacos pretos cheios, daqueles que a gente usa para lixo
ou para mudanças quando faltam malas. A porta parecia ter sido arrombada
algumas vezes e, um pouco acima da maçaneta havia um bilhete colado, ocupando
dois post-it gigantes e rosa choque.
Ela leu aquilo umas três vezes antes de tirar uma foto, aproveitando a
modernidade telefônica dos dias de hoje. A nota dizia:
Mas é claro q nós sabíamos q eu escreveria qualquer merda...
Mas é claro q nós sabíamos q eu escreveria qualquer merda...
Eu só queria ter certeza de q
estamos fazendo a coisa certa, queria confirmar (a mim mesma) q foi uma decisão
de comum acordo, q eu já sabia no q ia dar.
Queria ter certezas, a despeito
de saber q elas não existem para além das ficções.
Queria falar à toa, pq sou
dessas, pq sempre falo pra caralho.
Queria não me sentir estranha...
e no fim das contas, pouco
importa o q eu quero ou digo
(...)
vida q segue.
Marisa desceu as escadas em silêncio consigo mesma e atravessou a rua em ato mimético às mocinhas com uniforme de escola particular. Deu por si na Atlântica, cega pelo azul esbranquiçado de sol. Seu telefone tocava, era a patroa. Pegou o ônibus de volta a Botafogo e então só conseguia pensar na história. A história por trás daquele bilhete que não fazia o menor sentido na cabeça de Marisa. E não era culpa dos psicotrópicos: a necessidade vil de saber, investigar, julgar, monitorar e criar a vida alheia faz parte do cotidiano de nossa sociedade há algum tempo.
Tão logo chegou na Princesa Isabel,
a autora da nota já tinha um nome: Aurora, inspirada menos pela Disney e mais
pela marchinha de carnaval. Aurora morava com Luciano (Marisa era fã número um
do parrudinho que faz dupla com o Zezé) e o poodle Zequinha no apartamento emprestado
da madrinha e viviam um constante inferno astral no relacionamento. Aurora já
havia parado de cheirar umas mil vezes, enquanto Luciano vira e mexe chegava em
casa com purpurina na cueca e cheiro de lubrificante. Aurora perdeu a conta de
quantas vezes caminhou até a delegacia e voltou para casa com medo e amor.
Luciano já nem sabia mais onde morava, de tanto deixar Copacabana para trás.
Mas
aquela sexta-feira foi marcante, foi o suficiente para Aurora trocar a
fechadura da porta e deixar o que restava dos cacarecos de Luciano literalmente
para fora de sua vida. Há uma semana não se falavam. Aurora deu a notícia de
que começara a trabalhar de modelo para um velho escultor que tinha um atelier
no andar de baixo minutos antes de saber que Luciano trouxera Lilá, travesti
mais querido da Ritz, para morar com eles, dividir as contas, essas coisas.
Aurora e Lilá eram amigas, acostumadas a dividir elevador, roupas, carreiras,
gozos; não havia motivo para não dividir também o teto e a cama. Eram tão
amigas que em pouco tempo Luciano tornou-se presença desagradável e mal
cheirosa. Tão amigas que começaram a posar juntas para seu Agenor. Não havia
mais espaço para Luciano. Nem para suas brigas e porradas na cara. Era tempo de
tomar uma decisão.
Novamente
Voluntários da Pátria. Marisa andava pela calçada olhando o chão, tentando
achar alguma pista sobre o fim daquilo tudo. Parou em frente a uma banca de
jornal e releu o bilhete. Quem Aurora teria expulsado? Marisa sabia que
precisava de um nível de abstração e criatividade acima do seu, sabia que
alguém teria que ajuda-la a terminar a história.
No apartamento de fundos, em um
dos quinze cômodos que o compunham, duas meninas gritaram de alegria quando
viram Marisa entrar. A patroa dissera que estava tudo bem se ela quisesse
descansar, nem precisava levar as meninas para o play... era só ficar ali, quietinha, sem falar nada, assistindo tv
com elas. Compreensiva ela. Mas Marisa não podia calar.
“Meninas, vocês conhecem a história da
princesa Aurora e do príncipe Luciano? Eles viviam num lugar muito muito
distante, e muito muito esquisito, chamado Copa...”