domingo, 27 de outubro de 2013

A história do gozo


          É incrível como a Baía de Guanabara é ainda mais bonita vista de Niterói, né?! Quer dizer, daqui também é lindo, mas sei lá... Mas esse não é o ponto. Não, eu não vou ficar falando daqui da janela. É que tem um tempo que eu não vinha aqui... tinha esquecido como é bonito. Bom, pouco importa a paisagem quando o gozo da transa matinal escorre pelas suas pernas e você só pensa em como começar a conversa que vai vetar aquele sêmen àquela e qualquer outra parte do seu corpo. Né?! Quer dizer... especialmente se foi uma boa transa. Tô aqui falando em paisagem, pensado na vista da varanda da casa dele, mas podia ter sido em Bangu, Botafogo, Paris, daria no mesmo. Mentira. Passada em Paris, a história teria esse charme que a gente gosta de dar ao estrangeiro. Ah, Dr. Lacerda, você me pediu pra ir direto ao ponto e agora quer preâmbulos.
          Eu queria terminar, então terminamos. Tá. Eu queria só conversar, terminar, ganhar uma declaração de amor beeeeeem brega e aí, de repente reatar, isso num espaço de duas horas, com direito a cachaça. Não, Dr. Lacerda, não se trata de projetar minhas ficções... eu só fiz um plano... todo mundo faz planos, milhares deles, cotidianamente. Mas então, eu tava segura em relação a isso, à minha decisão de terminar o namoro. Como assim eu não queria terminar?! Pois se eu tinha preparado a roupa pra ocasião, o rímel, o delineador, o discurso “te-amo-mas-tô-confusa”, tudo! Eu não crio “uma realidade paralela na qual as coisas são resolvidas através de conflito e drama”! Eu hein. Achei que seus “diagnósticos” vinham depois do meu relato. Eu não estou sendo sarcástica, nem tô negando porra nenhuma. Ok... continuando.
         É...
         Eu...
        Ah, sei lá se eu ainda quero falar disso, dele, da vida. Tenho uma infinidade de trabalho atrasado... e.... Num sei. Pois é, né, eu deveria gastar a grana dessa hora fazendo o cabelo. E porque te parece importante que eu fale sobre isso? Sério, Dr. Lacerda! Engraçado que eu nunca reparei que fico suspirando quando tô preocupada... Será? Tá.
Quando eu saí da casa dele só pensava que eu tinha levado meu primeiro pé na bunda, que eu tinha sido, de certa forma, humilhada, que eu tinha dito um monte de desaforos descabidos de mulher recalcada e que o Rio fica tão lindo nublado. Agora que já passou um tempo, vejo que os desaforos não eram tão descabidos, que de fato eu queria manter um namorado, não ele, especificamente ele, o Homem H.
         É sério. Tá.
        Eu levei umas 13 horas pra chegar na casa dele. Ah, carro quebrado, mecânico gato, divagações sobre uma geração que não consegue se encaixar profissionalmente nem se engajar politicamente, uma queimadura na mão e muita revisão dos argumentos pró e contra o namoro. Mas porra, é só um namoro... Dr. Lacerda, você acha isso mesmo...? Ah, isso não deveria tomar tanto tempo na minha vida, na vida de ninguém... O marcante mesmo, o impacto da coisa tava no gozo que escorria. Quer dizer, de repente eu nem estaria aqui dando tanta atenção a isso se... Ah... Tá.
     Aí... aí eu cheguei lá. Puta da vida com a viagem, cansada, genuinamente confusa em relação à importância que eu dou aos meus sentimentos, querendo uma cerveja, um cigarro e um cafuné. Não queria pensar em nada, decidir nada. Aí conversamos. Sentamos na varanda e, olhando sempre pra Baía, nunca nos olhos, conversamos como dois bons amigos. Falamos da viagem, das divagações profissionais, do Flamengo, do Fluminense, da Copa, do Cabral, da menstruação. Falamos até às 5 da manhã. Até a gente ir dormir. Não, ele parecia normal... quer dizer... agora acho que ele já parecia querer conversar, que nem eu. Acordamos, transamos. Foi bom. Pensei de novo se eu queria mesmo terminar; pensei que eu queria encontrar uma resposta pronta dentro de mim; queria fechar os olhos e acessar um arquivo interno com respostas precisas pras minhas dúvidas; queria não ser humana.
        Ele arrumou a bagunça da madrugada anterior enquanto eu pegava minha caneca de café. Nessa hora, vigiando o trajeto de um barco, sentindo o gozo escorrer pelas minhas coxas, sentindo o calor da atividade sexual ainda percorrer minhas veias, bebendo o café devagar, eu pensava que não dava pra terminar ali naquela mesa de café da manhã fofa que ele tinha preparado. Não dava. Comecei a voltar atrás, a pensar que na verdade tava tudo bem. Foi então que ele me chamou pra sentar na rede com ele, no colo dele. Com os olhos marejados ele me olhava e formava uma ruga na testa e suava e desviava o olhar pro chão e me olhava de novo e gaguejava e suspirava e derretia sob o sol de inverno e procurava alguma coisa ao redor de si e angustiava com mais rugas e suspiros.
           “Não é fácil pra mim te dizer isso...”.
Prontosurtei. Putaquepariusurtei. Putaquepariuesseputoquerterminar. “Que isso, gatinho, fala logo...”
         “Eu andei pensando... é.... acho que... ah, não sei... eu acho que tô um pouco confuso e... talvez seja melhor...”
         “Cara! Que bom que você falou isso! Ai! Vim a viagem toda pensando nisso, pensando se eu quero um namorado ou se eu quero você, sabe? Pensando se vale a pena, pensando que eu nem sei direito o que eu sinto por você... Quer dizer, nem preciso te dizer que eu só não te traí porque tá foda, não encontra homem que  preste, nem pruma transa... te contar que a vida não ta fácil... hahahahaha O que foi?!! Que cara é essa?!”
          “Só achei que sua reação seria outra...”
          “Mas me conta, você tá comendo alguém?”
          “(...)”
          “Fala! (risos)”
          “Não.”
         “Ah, você achou que eu fosse chorar? Hahahahahahahahahaha. Ai ai... enfim, bom resolvermos tudo assim, tudo numa boa!”
       Ah, Dr. Lacerda, que isso foi uma demonstração de imaturidade emocional eu já sabia. Quero entender porque eu sempre saio de um relacionamento trocando farpas, ou aos berros, ou aos prantos ou... hahahahahaha Mais 5 anos de análise?! Tá. Então, depois eu fui beber, óbvio, com o C. em Copacabana. No caminho pro bar, quem eu encontro na rua? Ferreira Gullar! Claro que eu não o conheço... Mas ele sempre circula pelo Lido, cansei de vê-lo por ali. Enfim... achei que seria bacana escrever um poema pro Homem H. É, tive a ideia lá pela sexta dose. Achei um post-it na bolsa e fui escrevendo no táxi e... ah, o C. ficou pouco tempo, tinha que ir pro ensaio da peça, aliás, estreia hoje! Enfim... acabou que eu resolvi visitar meu tarólogo na galeria Ritz. Acabou que ele não tava lá e eu achei meu bilhete muito brega, deixei pregado na porta dele...
      Como assim acabou meu tempo?! Você não quer mais me ouvir?! Mas eu nem falei das coisas importantes, nem falei sobre como me sinto muito melhor agora, solteira. Na verdade acho que é mais um alívio por não estar em compromisso com alguém que eu nem sabia o que sentia s... É claro que a gente sempre sabe quando ama uma pessoa... mas... ah, para, esse lance de que amor é uma coisa complexa é mui... tá, entendi. Só mais uma pergunta... esse tempo todo que eu venho aqui, contando as férias que você chama de “ausências”, eu tenho te chamado de Dr. e talz... Então, Lacerda, você tem doutorado, quer dizer, defendeu uma tese e coisa e tal, ou a gente aqui só tá corroborando um senso comum de tempos passados?