sábado, 2 de novembro de 2013

DENTRO DA CANÇÃO SELVAGEM

Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Ricardo repetia essas palavras a si como um mantra para a salvação eterna, para a danação eterna. As cartas do baralho cigano tinham mostrado um homem de negócios em seu caminho, sucesso na carreira, uma viagem, dinheiro, paz e até mesmo um novo amor, tudo isso “num futuro próximo”.
E não importa o tamanho ou intensidade do ceticismo nosso de cada dia. Acredito piamente que previsões feitas por pessoas fantasiadas, e fantasiosas, sempre embutem um tanto de esperança nos frágeis corações que se deixam passar pelo minucioso processo investigativo-divinatório de tarólogos, astrólogos e afins. Digo frágil porque pessoas como Ricardo, que se encontram em alguma das inúmeras encruzilhadas da vida, constantemente acompanhadas por incertezas trabalhistas e amorosas, costumam carregar um semblante débil, dispostas a tomar para si respostas metafísicas para questões de ordem pragmática.
            Ricardo havia feito de tudo para conseguir aquela vaga, que lhe salvaria a vida, as finanças, as hemorroidas, os hematomas, os ossos quebrantados, a pele curtida. Havia feito de tudo para fugir da existência miserável que perseguia sua sombra, sem sombras de dúvida. E agora José? Drummond não viria para redimir as coisas, ou para explicar as moscas que rodeavam suas ideias.
Quando se candidatou à vaga, Ricardo estava de mudança, ainda que não soubesse ao certo onde iria morar. Tinha uma semana para se livrar de um apartamento cheio de mobília, lembranças e a sensação de uma vida interrompida. Espalhou suas tralhas nas casas dos amigos mais próximos, jogou um bocado de coisa fora; desmontou-se. Resumia-se, então, todo ele, a uma mochila, um vasinho de espada-de-são-jorge, uma estante vermelha e um quadro com um pôster do Magritte em preto e branco. Inscreveu-se no site da empresa numa lan house, com o mochilão apoiado no balcão, minutos antes de fechar um contrato informal para alugar um quarto em uma casa de hippies anacrônicos, bem no centro da cidade. Na sequência, digitou um sms para Renata: ainda n terminei o cap 2, mas pelo avanço d ontem acho q até o final do dia rola. E aí? Com todas as merdas que estavam acontecendo, gostava da ideia de ter uma namorada, mesmo que de maneira casual.
Leu a resposta enquanto comia um joelho com refresco de caju: Pois é.... eu tenho uma sugestão: a Ju vai comemorar o aniversário dela hj "Casarão 70", na Bento Lisboa. Pelo q entendi vai ser uma festinha tranks, tipo música ao vivo, de graça. Partiu? Bjssss. Leu a resposta e quase perdeu a fome pensando por que, meus deus, por que as mulheres escrevem tanto?... Como dizer que eu só quero tomar uma cerveja, abraça-la a assistir um filme explosivo? Melhor não dizer nada. E não disse.
A casa dos hippies era imunda, tinha quinze cachorros, um cágado, dois gatos, e nenhuma faxineira ou diarista, pelo que lhe informou Tomás, o gerente pancado que o recebeu e o acompanhou ao tal quarto. Em poucos dias Ricardo descobriria que Tomás fechava o registro da água para economizar, deixando os banheiros intransitáveis com todo o tipo de odor que o corpo humano pode produzir, que além das pulgas a casa era enfestada de baratas, que passeavam tranquilamente por toda cozinha, que o casal do quarto ao lado protagonizava agoniantes cenas de violência doméstica, que metade dos moradores passava o dia inteiro no sofá da sala fumando um e bebendo um chá. Era o único lugar que ele tinha, o único que podia pagar, o único que conseguira em uma semana.
Uma vez instalado, tratou de mandar notícias aos amigos fiéis que nunca lhe perdiam de vista, por mais que ele se escondesse. O e-mail foi rápido e honesto: A vida anda boa, uma vez que ainda não me matei... as novidades são: não tenho um emprego para o próximo ano, minha tese insiste em se mostrar cada vez mais complexa e, ao mesmo tempo, incompleta, além disso, só a perspectiva de morar com meus pais em Vassouras me causa ânsia de vômito, estou enclausurado em três metros quadrados de paz e ar-condicionado, tendo por companhia minha insana consciência que martela as mais absurdas verdades e os mais dolorosos delírios e, assim, no caos, vou tentando escrever e não enlouquecer por completo. Releu o texto algumas vezes antes de enviar e decidiu que era melhor jogar limpo mesmo.
Na terceira vez que sua mãe ligou ele resolveu atender. Estava aos prantos porque ele não dava noticias, porque o celular dele vive desligado e dizendo que ele nem sabia que a avó centenária estava internada e que seu pai... e que... e que... já não ouvia mais. Saiu de casa em direção à biblioteca e, porque sua vida não fazia sentido mesmo, pegou um papelzinho que dançava no ar, exibindo-se pela Presidente Vargas como que por encanto. Ele achou bonito o papelzinho rosa-enjoativo rodando no ar, na hora lhe pareceu muito semelhante à sua própria vida. Era o anúncio de uma cartomante que atendia ali perto.
Aquilo pareceu tão bizarro que pensou a respeito. Sua vida estava tão bizarra, que ousou consultar a pseudo pitonisa do Saara. Afinal, que mal faria? Que mal faria a uma alma aflita, o conforto de incensos e pequenas sementes de esperança? Pode parecer exagero meu, mas acho que aquele foi o maior erro de Ricardo. Contudo, se apostar sua perspectiva de vida nas palavras de uma desconhecida lhe pareceu razoável, que acerto poderia obter aquela cabecinha em meio à sonoridade carioca, sob a luz aturdida e paralisante de dezembro?
            Ricardo voltou ao lar hiporonga impactado pelas previsões de vitória. Tanto que nem mesmo estranhou quando o gerente declarou em alto e bom som que era michê e recebia senhoras (ditas “patrocinadoras”) naquela casa nojenta – dizia aquilo porque precisava montar um esquema com os outros moradores da casa para as próximas visitas. Ricardo consultou diversos oráculos através do oráculo-mor, Google, e confirmou que seu mapa astral era digno de um grande estadista, que seu horóscopo chinês ressaltava suas inúmeras qualidades de bom guerreiro, e que sua numerologia para o apocalíptico 2012 era extremamente favorável.
De alguma maneira, aquilo gerou uma sensação de bem estar explicável apenas através de algum complexo aparato teórico da psicanálise. De uma hora para outra Ricardo era um cara de sorte, que exercia sua anima de maneira saudável, tinha boas perspectivas de terminar sua tese em paz e conseguir um bom emprego, como uma espécie de recompensa por todos os perrengues enfrentados ao longo daqueles quase trinta anos.
Sob tal estado de espírito respondeu aos amigos queridos: Hoje acordei melhor... pensando que essa existência de merda é, com ou sem gozo, passageira, e que com ou sem vontade de existir, com ou sem "vontade de potência", the show must go on, e assim que eu defender a tese vou sair do Brasil, devo ir para Buenos Aires, Madrid, Dubai, sei lá, mas tenho certeza de que Pangloss estava certo e tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis... risos. Devo trabalhar em alguma coisa na minha área mesmo, mudar de ares... que sabe me casar?
            Talvez pela infelicidade da citação no e-mail, ou por capricho do universo, ou pela canalhice que rege alguns processos seletivos, ou simplesmente pelo fato de Ricardo não ser bom o bastante, ele não conseguiu aquela vaga. Nem a outra que tentou na semana seguinte, nem foi classificado no concurso público que tentou alguns meses antes e que só agora saia o resultado, nem aquela outra para o qual havia sido indicado pelo doutor fulano de tal. Nada. Nem havia no quarto infestado de pulgas sua amada guitarra com a qual gritaria uma canção desesperada, uma canção vinda de dentro da canção selvagem que vibrava e regurgitava em cada célula do seu corpo estendido no chão feito detrito.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Repetia a si como um mantra para a salvação eterna, para a danação eterna. As paredes do quarto tão pobremente mobilhado careciam de sentido, as sacolas no chão, espalhadas como praga, tão pouco tinham razão de ser; com os livros deveria limpar o rabo, com as roupas deveria fazer as velas do barco, que teria como base a madeira da estante vermelha e o armário da loja vagabunda. Por onde andaria Renata àquela hora? Por que fazia sol ao redor da praça? Por que as outras pessoas conseguiam sorrir? Por que as outras pessoas pareciam confortáveis em sua condição humana? Ao menos pareciam...
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Era só uma vaga no mercado de trabalho... Crianças continuavam sendo escravizadas em Dubai, o preço do café continuava a disparar no Rio de Janeiro, bolivianos continuavam a invadir São Paulo, pessoas continuavam a ocupar Wall Street, velhos barrigudos continuavam a peidar, mulheres barrigudas continuavam a parir. Não havia conseguido a vaga, mas e daí? Deveria, por isso, matar Madame Rigoletta? Deveria, por isso, se matar? Deveria, por isso, o mundo acabar?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Arranjaria outra, melhor ou pior, mais ou menos digna, e o mundo não se alteraria por isso, a ordem das coisas continuaria a mesma. Por que então o desespero? Por que a sensação de que a vida, num átimo, havia perdido o sentido, total e completamente, com todas as redundâncias que isso pode suscitar? Uma pessoa a mais desempregada, uma pessoa a mais fudida, uma pessoa a mais deprimida e concordando com cada vírgula de Sartre. E daí, Ricardo?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Tinha um enorme relógio na parede que não parava de tiquetaquear de demonstrar que a vida seguia ininterruptamente com ou sem a maldita vaga com ou sem a porra de um colo de um consolo de uma droga anestésica qualquer com ou sem mim com ou sem Renata ou seja lá qual for o nome dela com ou sem um ou vários deuses e assim os ponteiros despregaram dos números e ficaram içados girando como se dizendo-se onipresentes como se o tempo em si fosse o único deus existente como se as mazelas daquela forma de vida encolhida humilhada e ofendida por causa de uma merdinha de vaga significassem poeira estrelar lixo espacial prestes a se perder e a vagar pela eternidade a esmo como uma marca de Caim amaldiçoando cada tentativa futura cada tentativa furtiva de progresso como se aquela vaga imbecil não fosse a coisa mais importante na vida daquele ser humano desprezível e assim os ponteiros seguiam zombando daquilo tudo zumbindo com os acordes de metal que tentavam aclamar o ambiente tenso pesado estéril
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Sentia uma dor física em algum lugar entre o pulmão e o estômago, entre algum ponto que ia da sola dos pés até o couro cabeludo, queria que não houvesse ninguém por perto, mas o quarto estava cheio de ponteiros abusivos, de pessoas queridas, de fantasmas, de inimigos, de familiares, de amigos que te dão tapas na cara, de amigos que te expulsam de casa, tudo sem mais nem por que.
Resolveu que seria melhor ler alguma coisa para se acalmar, mas toda aquela água no rosto deixava a visão turva, e as palavras na tela do computador pareciam símbolos místicos, códigos extraterrestres. Saiu, então, para caminhar, ainda que fosse preciso fazer uso da velha bengala, guardada nos mais profundos baús de sua  memória. Pela rua havia tanta gente... tanta gente feliz... tanta gente vivendo com ou sem uma importante vaga... Como era possível aquelas pessoas não reconhecerem uma alma aflita? Como era possível ninguém distinguir a angústia insuportável, explícita nas chagas sangrentas que pululavam dos braços frouxos? Como ninguém deteve aquele anjo caído?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... sussurrou essa ladainha enquanto caminhava da Biblioteca Nacional até o Bar do Adão, enquanto passava por rostos conhecidos até reconhecer o meu, sentada, sozinha, revisando um artigo e tomando uma cerveja. Parei de ler. Ele parou de falar. Bebemos um pouco. Suas mãos tremiam e eu não sabia o que fazer, embora não soubesse o que estava acontecendo. Eu não queria saber, não queria fazer parte daquilo, não queria sentir pena, medo, raiva, não queria sentir nada. Ricardo via uma chuva fina de meteoros rasgando o toldo, sentia cheiro de enxofre, sucumbia a calafrios por conta do furacão que se anunciava, repetia em portunhol chinfrim as profecias maias e, por fim, pediu uma Nega Fulô.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Essa auto piedade exacerbada, essa ideia fixa de que o mundo estava realmente se acabando por causa um único revés (ou pelo apanhado de uns poucos reveses) me deixava louca, conforme Ricardo a apresentava, paulatinamente. Eu não queria aquela realidade... não daquela forma, goela abaixo, sem atenuantes, justificativas prévias ou apenas luzes florescentes que lhes conferissem algum sentido. Sim... a eterna e inútil busca por sentido qualquer... Eu ouvia aquele conjunto de mínimas catástrofes, de acontecimentos ordinários e simplesmente não decidia o que pensar sobre eles. A vaga, a cartomante, os ponteiros... Suas falas eram entrecortadas por suas alucinações, que por sua vez, me pareciam tão verídicas que eu me sentia em uma superprodução estadunidense. Por dois segundos considerei segurar suas mãos e fugir do tsunami, procurar o bunker mais próximo, encontrar o messias mais adequado e esperar pelo pior ou pelo melhor dos mundos possíveis, candidamente.
Também quis berrar um foda-se, quis compor uma melodia atenuante para meter bem dentro da canção selvagem, que ele persistia em destilar entredentes. Paguei nossa conta e ofereci carona, abrigo. Ricardo me sorriu com impressionante lucidez, disse que passaria na tal casa caótica, pegaria suas coisas e passaria uns tempos comigo. Fiquei observando enquanto ele caminhava em direção ao ponto de ônibus. Era impressionante como daquele modo, de costas com uma mão no bolso, ele era exatamente o garoto que conheci no colégio, tantos anos antes. Tive vontade de correr e abraça-lo, mas contive o estranho e súbito instinto maternal.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... sei que repetiria essas mesmas palavras até o fim dos tempos. Até que parasse de doer, até que sua cabeça parasse de chover e trovejar, até que elas também perdessem o sentido na hecatombe psicodélica que se afigurava na fumaça da metrópole, até que tivesse início uma existência automática, até que lhe dessem a pílula lilás, até que novamente encontrasse o coelho branco idiota para lhe cuspir na cara.


Nunca mais tive notícias de Ricardo, ou de sua canção selvagem, ou do mundo que se acabou com ele dentro. 2011 foi um ano estranho e nublado, mas 2012 seria muito pior.