Tava lá, escrito na caixa de spam: “João, é sempre
verão em algum lugar do mundo”. Certamente a cabeça dele não fazia parte do
mundo, porque ali só havia inverno, o frio rascante como na muralha da ficção
na tv. A propaganda da agência de viagens era bastante tentadora, claro que
sairia bem caro, mas isso de pagar passagem e hospedagem em finte vezes num cartão que você nem
precisa pagar de verdade bem podia ser a solução pro tedio e solidão perenes. Mas
mesmo a remota possibilidade de ir pro outro lado do mundo e continuar sendo perseguido
por essa agonia e.... solidão é algo tão filho da puta que nem tem sinônimo,
solidão, se essa solidão persistisse e o perseguisse... bom. Era só um spam,
porra.
Um spam que paralisou seu dia, fazendo-o pensar sobre
solidão e saudade, como se estivesse num exílio. E estava, de certa forma. Acabo
de consultar um dicionário, parece que “exílio” pode ser considerado um estado
de espírito e também um sinônimo pra solidão. Isso não importa. Duvido que João
tenha aberto um dicionário sequer fora das aulas da tia Teteca. Ele saiu de sua
cidade natal para trabalhar numa metrópole que tem toda pinta de cidade
provinciana. Uma vez ao ano visitava os parentes e poucos amigos no Rio, numa
dessas, encontrou uma caixa cheia de fotos, bilhetes e sonhos de valsa que
colecionou até a adolescência tardia (embora suspeite que esse tempo nunca
acabe).
Segurou pensativo uma imagem na qual apareciam suas
pernas, dois gatos que odiava e uns quantos discos de música de gosto duvidoso,
espalhados pelo chão de sinteco. A caligrafia feia, de letras escritas com
caneta para CD, gravadas nas coxas lisas de João, aquele pedacinho de
Drummond... de quem era? E que foto era aquela? Parecia letra de homem, mas não
a dele, mas quem teria escrito aquilo? Quando e Porquê? “Mais vasto é o meu
coração”: digitou no google e viu que era mesmo Drummond, que era mesmo super
famoso, super citado. Ficou relendo algum tempo: “mundo mundo vasto mundo...” Daquela
mesma caixa meio escondida no armário da casa da vó Lu, João recuperou um jeans
com respingos de tinta acrílica que surpreendentemente ainda servia, e no bolso
dele um poema mal feito:
PG
(ainda inverno, 2008)
Idealizações do
Passado
Um pretérito
que não funciona mais
Algo que foge
das sortes
De um amor
qualquer
A incerteza de
sua presença
Será que
locomove
Emociona e
Tenciona o ar
frigido
Entre as cordas
do nosso instrumento
Me sinto
abalado
A figura que
pinto não pode ser manchada
Por quem quer
que seja
E no fundo
Minha temperança
Não permite
nossa
Temperatura
E o que, ou
quem era PG? Paulo Gustavo? Abreviatura de “pago”? Aquela letra era dele,
definitivamente. Aos poucos foi lembrando de quando escreveu aquilo: um bar
perto da São Salvador, matando aula de História da Arte I. Mas, naquela época,
o único cara que merecia sua atenção era o Pedro Henrique... PG? No fim das
contas ele deve ter trocado o H pelo G just
in case alguém achasse os rabiscos e tirasse onda com sua paixonite. João
deitou-se no chão, feliz vestindo o jeans das primeiras aulas de pintura, a
fitar o lento movimento do ventilador de teto e colocou um punhado dos papéis da
caixa sobre o peito e, depois, ao redor de si. Imaginou que uma foto tirada da
perspectiva da lâmpada que lhe encarava certamente o transformaria numa espécie de Ofélia pós-moderna,
afogada em lembranças inúteis, morta diante de um amor impossível.
Pensava nas memórias dentro daquela caixa, nas tralhas que guardava. Mas o que torna
uma experiência memorável? Uma estadia no exterior, um restaurante famoso,
caminhar de mãos dadas na praia... o que faz desses pequenos cenários-elementos
realmente importantes? A pergunta não é como aproveita-los, mas sim como
reconhecer momentos realmente incríveis. João não tinha resposta para nada
disso, naturalmente... Ele apenas respeitava o devir do mundo que o tornava
nômade por terras ficcionais, como se realmente
fosse uma personagem minha.
Códigos
culturais, idiossincrasia... como aprender tudo isso de novo, e mais, o tempo
todo? Porque parecia que a cada lugar por onde passava, a fim de expor sua nova
fase de trabalho, o escultor, João sentia-se deslocado e exposto ele mesmo,
como um bloco de mármore talhado em tamanho real e forçado a pronunciar
palavras domesticadas, rompendo assim sua natureza mineral... Por isso evitava
qualquer tipo de interação social. Por isso passava tantas horas olhando o
teto, o pôr do sol, o caminho que uma formiga fazia do chão até a torneira da
cozinha, uma árvore dançando com o vento. Por isso sentia essa solidão
patológica. De um lado não suportava a obrigação de se relacionar com gente
desconhecida, só pra vender seu trabalho. De outro, seus amigos queridos,
conquistados na escola e nos primeiros anos de graduação, estavam cada um em
uma parte do mundo. O remédio pra tudo isso tava o bolso interno da mochila e
era vendido sob prescrição médica. E foi o que o salvou aquela noite, o que o
tirou mais cedo da última vernissage do ano, na véspera de visitar os avós.
Agora João tava no conforto da casa da
vó Lu, no seu antigo quarto, esperando o telefone tocar com alguma novidade,
algum convite. Havia um peso em seu peito, como se aqueles papéis de passado
fossem de ferro. Havia uma sensação muito estranha no ar, e respirar era difícil.
O celular ao lado suspirou, indicando atividade na sua rede social (a única que
realmente tinha então); e nem pensou em verificar do que se tratava. Começava a
pensar que seus amigos, todos eles, os virtuais e os reais (mas o que era
realidade ali naquela pose shakespeariana?), estavam tendo experiências de vida
maravilhosas e inesquecíveis, enquanto sua própria vida se resumia a observar o
movimento da luz que vinha da rua, manchada pela amendoeira, a formar pop art em slow motion na parede do quarto.
Com um estalo
no peito levantou-se e se deu conta do que era aquele peso todo. Lembrou de
quando a amiga Clarisse falou que invejava a vida dele. Naquele momento João
sentia inveja sem nem saber de quem ou do que. Sentia sua vida tão infeliz e
vazia que só a possibilidade de haver alguém no mundo que estivesse sendo feliz já o incomodava. E por que ninguém ligava? Por que ninguém tocava a campainha? Por
que ele chorava? E qual era o problema em ser carente? Era seu gênero? Era porque
ele era homem? Por que isso parecia um clichê que o tornava ainda mais frágil,
mais viado, na frente “dos outros”? E por que seus amigos superhéteros podiam se
abrir com ele e falar sobre isso, sobre suas próprias carências e afetividades?
Por que ele tinha que ser, o tempo todo, homem maduro e bem resolvido com a
própria sexualidade e vida sexual-afetiva, do tipo que não precisa de nada nem
ninguém nem cafuné...?
Pegou o comprimido; jogou fora. Pegou um caderno e
começou a escrever. Chorava diante de seus sentimentos mais mesquinhos, mais
humanos. Rezou um pouco. Entrava em conformidade com a solidão perene. Voltou à caixa de spam; escolheu um pacote pro Caribe.
Agora respirava como nas aulas de yoga, deixando o peso voltar aos papéis da
memória. Então tava tudo bem; tudo bem ser carente, tudo bem ter sentir alguma
coisa terna e querer partilhar isso. Ainda fazia um pouco de frio na cabeça,
mas isso ia passar e, enquanto não passava, ele sentia, refletia, escrevia,
esculpia. Guardou a caixa no armário, mas manteve o jeans. Olhou-me através do
espelho e eu sabia que tava tudo bem. Saiu de casa carregando um livro e
mexendo no telefone, como se fosse fazer uma ligação.
João... pra quem você vai ligar nessa hora, nessa quase madrugada...?