quarta-feira, 15 de abril de 2015

O peso da leveza


Mariza teve um sonho terrível. Estava morta. No sonho, despertava de um outro sonho e acordava num lugar muito iluminado, cercado de pessoas que não conhecia. Quando perguntou onde estava, disseram: “você morreu”. Ela não acreditou, então entregaram a ela algo que era como um espelho mágico, mas parecia um tablete distorcido, e nele ela podia ver o mundo dos vivos, com pessoas chorando a morte dela. E num instante lá estava ela, vagando entre os vivos, observando cada detalhe de seu universo, com uma impressionante clareza. Não podia ser verdade, mas era. E o que ela faria? Porque entre os outros mortos (que também transitavam entre os vivos), ela se sentia mesmo muito viva, muito disposta, com energia para movimentar-se e expandir sua mente, com uma vivacidade eletrizante que até então desconhecia.
         Acordou com um barulho de trovão ensurdecedor. Chuva de verão. Estava em Buenos Aires há três meses e ainda não sabia muito bem o que fazer da vida. Ela, que sempre soube que jamais deveria se preocupar com essas coisas de “o que fazer da vida, etc e tal”. Na madrugada de relâmpagos, sentou-se na cama, com muito medo. Não da água ou do som, mas de estar sozinha; não naquele momento, mas na vida; não na vida como um todo, talvez apenas naquela cidade. No dia seguinte, apesar de “não ser de igreja, cê sabe”, passou na Catedral Metropolitana e, uma vez lá, sentou e chorou, “igual criança, por uma hora inteirinha”. Agora acho até graça, porque para mim Mariza, sem nem se dar conta, tem uns traços de marxista, especialmente no que diz respeito à religião, que para ela “só confunde a cabeça das pessoas, principalmente as mais humildes... é um tal de entregar na mão de deus, que chega uma hora que a pessoa nem sabe mais que quem manda na vida dela é ela mesma”.
         Claro que não tem graça nenhuma. Mariza é a pessoa mais leve que já conheci. Foi uma tristeza imensa encontra-la tão frágil e assustada, tão “gente como a gente”. Vejam, Mariza, sobre quem já escrevi antes, é uma das minhas grandes inspirações e aspirações: admiro-a tanto que gostaria de ser como ela. Enfim... Marcamos uma pizza na Güerrin, quando estive na capital argentina para cobrir uma matéria sobre Fórmula E. No meio daquele salão barulhento e cheiroso ela foi me contando o tal sonho e como estava no trabalho, como se sentia, como se virava no portunhol.
         Ela não leva nada ao pé da letra, se você quer falar sério com ela, tem que dizer com todas as letras: “Mariza, agora eu estou falando sério”. E assim perguntei como ela foi parar naquela cidade linda, mas que carrega qualquer coisa de paulista – e acaba ficando estranha. Então ela começou a contar que foi demitida do último emprego, uma creche no Jardim Botânico onde trabalhava, meio expediente, cuidando das crianças, há 5 anos – tive ganas de perguntar como eu nunca tinha ouvido falar disso, mas. Não. Com a grana do FGTS pensou em dar entrada numa casinha, aquietar, deixar crescer raízes... Não. Resolveu visitar Buenos Aires porque era o que estava em promoção num site de viagens famoso; simples assim. Sem se despedir de ninguém, distribuiu suas coisas entre seus amigos e disse que estava de mudança, que quando soubesse o endereço mandava pra gente. Acho que não fiquei realmente surpreso quando vi um postal com a Casa Rosada.
         Agora Mariza estava aqui, respirando bons ares e, uma vez mais, se reinventando. Um mês de aulas de yoga, duas semanas de curso de alemão, um affaire na esquina da San Martín com a Calle Reconquista (sempre acho que ela escolhe esses cenários de propósito). “Mas é assim, sabe?, às vezes eu fico tristinha e chorosa, lembro das doideras que fiz, sóbria ou bêbada, tanto faz. Lembro das merdas que falei, dos micos que paguei e sempre acabo rindo sozinha. Sozinha, mas risonha. Tem que ter alguma vantagem, ne?!quédizer?!...”. E nisso, tinha sempre uma letra do Zezé di Camargo & Luciano (ou seria Xitãozinho e Xororó? Sempre confundo) ou mesmo um bom samba para ilustrar qualquer argumento. Cantarolou: “Se eu for pensar muito na vida / Morro cedo, amor / Meu peito é forte, / Nele tenho acumulado tanta dor”.
E para mim soava absurdo, vindo de alguém que já morou em Paracambi, vendeu Avon, serviu mesa, foi babá, professora de informática para a 3ª idade na Rocinha, trabalhou em posto de gasolina, morou nos lugares mais loucos e inóspitos que se possa ter ideia e ainda sempre tinha uma piada para contar, um pedacinho de otimismo para dividir com pessoas como eu, sempre infelizes por não conseguirmos passar aquele final de semana em Búzios, comprar um Iphone mais atual ou um ingresso para o novo show do Caetano. Parece que só agora, depois de ter vivido tudo isso, ela, finalmente, estava cansada e solitária.
         Caminhamos pela Avenida de Mayo – e ela insiste em dizer que se parece com a Rio Branco... – enquanto tomávamos um sorvete e sentíamos aquele pôr do sol depois das 20h. Ali sim, naquele sorriso e bochechas sujas de chocolate, eu vi Mariza. Ao mesmo tempo em que finalmente a vi, sabia que o sonho com a própria morte e as angústias que ela compartilhou comigo (e autorizou publicar, desde que eu usasse as “mesmas palavrinhas” dela) foram apenas momentos isolados, exceções que confirmavam a regra: toda leveza tem seu peso, seu fardo. Nos despedimos na porta do meu hotel e ela se foi, um pouco apressada, dizendo que tinha uma cidade a conquistar. Fiquei ali vendo o caminhar dela, a tempo de ouvir aquela gargalhada inesquecível.


sábado, 3 de janeiro de 2015

Narrativa – parte I



Joguei fora os desenhos que fiz quando adolescente. Agora eles existem apenas na minha memória, claro está. O que me inquieta nessa obviedade é que, com o passar das experiências que vivencio, a memória deles muda. Às vezes passo num museu e vejo obras muito parecidas com eles, o que me deixa bastante deprimido com esse talento suposto e perdido. Em outros momentos, pele mesma linha tortuosa da memória, com outros estímulos, como um outdoor clichê ou os desenhos do meu próprio filho, penso que eram rabiscos nada notáveis. Jamais terei acesso a eles. Jamais saberei como eram, de fato. Por mais que minha memória deles seja perfeita, por mais que os tenha revisando tanto, refeito tanto a ponto de sabe-los de cor, ainda assim sinto que não os conheço, e sei que em algum outro ponto da vida eles me parecerão ainda mais distintos, ora geniais ora banais.
         Hoje ela comentou que não sabia se realmente havia amado alguém na vida, assim, num sentido sexual-afetivo. Disse que às vezes lhe parece ter amado a muitos, às vezes a ninguém. Lembrei de meus desenhos e de como a memória é sempre fugidia. Lembrei de alguém citando aquele Paul Ricoeur para parecer mais inteligente e culto e bacaninha. E então minha inquietação, tão íntima, nunca antes partilhada, tomou outras proporções. Foi aí que começou. Se por um lado nós nos constituímos a partir da memória do que temos aprendido e visto e experimentado ao longo de nossas vidas, por outro não temos pleno acesso a nada disso; somos desprovidos de um banco de dados de nós mesmos; somos dependentes de uma memória que muda em cada tempo presente, que nos apresenta diferentes versões de nós mesmos conforme passamos por novos “aprendizados” e visões e experiências.
         Aquela era a terceira xícara de café que ela tomava na manhã de imenso calor tropical e eu sempre acho que aquilo deve faze-la delirar de alguma forma... claro, parte de mim simplesmente não consegue dar crédito às coisas que ela faz assim tão naturalmente. A conversa sobre a incerteza de seus sentimentos me remeteu à minha própria querela existencialista com os desenhos e também a tudo mais que formava meu imaginário. Ela já não acredita que pode viver uma relação saudável, acha que está envolta em “karma”, que precisa voltar a seu terapeuta (mas agora... “um dia, quem sabe”) e eu, ouvindo aquilo tudo, silenciosamente indagava de que maneira ocorreria essa mudança de perspectiva dentro de nossas lembranças... Sim, porque lembro perfeitamente das juras de amor que ela fez a cada namorado, desde a adolescência. Nos conhecemos há tempo demais.
Assim que comecei a faculdade de direito me gabava das habilidades artísticas, dizia que teria um escritório em Ipanema e um ateliê em Santa Tereza. Só rindo. Ao final do primeiro semestre larguei o curso e tinha plena certeza de que não era capaz de pintar ou desenhar nada que prestasse. Minhas memórias daquele tempo me dizem que eu acreditava que a carreira artística seria um fracasso e que o direito nada tinha de direito; e só as tenho hoje pela mania que tinha de imprimir e-mails enviados e recebidos. Outro dia estive relendo aquelas coisas. Hoje, agora, vejo naquele momento decisivo um garoto que simplesmente não queria estudar Direito Romano e conversava sobre isso com uma capivara no Campo de Santana.
Voltando à hora do almoço... Segurando meu braço qual personagem do Eça, ela falava sobre como gostava de caminhar pela praia quando era criança, mas agora o sol já a incomodava muito. Será que ela realmente gostava dos passeios? Até que ponto esse sentimento de memória não foi tão somente construído com o passar dos anos e das propagandas de cerveja? Não conseguia mais deixar de me perguntar isso. Seria redundante afirmar que nossa opinião muda, mas talvez, para além disso, em cada nova opinião forjamos uma nova memória do passado de nós mesmos.
Hoje mais cedo, Wilma, a prima do Carlos me mandou uma mensagem dizendo que ouviu uma música e lembrou de mim. Eu sequer reconheci seu número e só parei para ampliar a foto que apareceu nos contatos do whatsapp porque estava entediado no trabalho; de toda forma me lembrei e sorri com isso; faz uns seis anos que não nos vemos. Lembrei não apenas dela, mas do apartamento onde eu morava no Méier e daquele momento específico da minha vida, da festa onde a conheci, da namorada que eu tinha na época, da recém chutada faculdade no centro da cidade. A música, visualizei logo após essas primeiras divagações, era Samba e Amor, do Chico.
Nada mais lugar comum, pensei na hora. Logo me veio a cena: vinho vagabundo (mas não tão barato) comprado na lojinha do posto, meia luz na casa bagunçada, um disco do Chico, um doritos talvez, e ela deitada de bruços no colchão azul inflável do meu quarto. Parecia muito plausível. Passei muitos minutos no banheiro contemplando a cena e me sentindo um perfeito canalha, conforme a história se desenrolava, paralelamente, em minha memória e em minha fantasia. Não sei bem em qual momento das dezenas de mensagens no zap me dei conta de que Wilma tinha lançado aquela coisa de música só para puxar papo.
Mas então não teve Chico ou vinho? Foi cerveja e Paulinho? Ou o que? O que foi? Lembro perfeitamente da tal noite. A verdade é que poderia ter tocado quase qualquer música e não faria a menor diferença. A menos que eu estivesse obcecado com a ideia de que involuntariamente alteramos nossas memorias. Contei isso a ela, para insistir na memória da praia, para atenuar o peso de minhas interrogações, mas ela só se interessou, e cheia de risos, por saber quem era a tal prima do Carlos, se era gostosa, hetero, se eu queria transar novamente, etc. Minha obsessão pela memória não fazia o menor sentido para ela.
Voltando para casa de carro, não podia deixar de pensar em como mobilizamos nossos passados a fim de construir argumentos não somente para moldar o presente, mas especialmente para projetar nossos futuros, todos lindos e pouco plausíveis. Não apenas mobilizamos; inventamos. Falamos de uma música que nunca tocou, mas poderia ter tocado, para chamar atenção e de repente marcar um chopp qualquer dia desses. A praia da infância... não importa muito como realmente foi, apenas como nos lembramos que talvez tenha sido, queremos compartilhar um sentimento qualquer em relação ao passado, a qualquer custo. Aquilo tudo, aquela doidera toda de pensar sobre passado e cantadas virtuais me deixou tonto; achei por bem passar na academia, puxar um ferro e tentar manter uma imagem digna do meu instagran. Pelo espelho gigante, na sala iluminada via meus músculos saltando na pele humedecida.
Gosto disso. Gosto de ver que, ao menos minha aparência está de acordo com o mundo no qual vivemos. E sempre foi assim. Não se iluda achando que vivemos numa geração que se preocupa demasiadamente com a beleza estética (e estática), a diferença é que agora compartilhamos isso excessivamente. Claro, se por um lado o fato de eu me encaixar numa “capa de revista” me deixa reconfortado, por outro, não afasta uma insegurança intermitente: será que está bom o bastante? Será que vou conseguir manter isso? Será que isso me basta? Quando comecei a ser esse cara marrento no espelho? Nem mesmo a série mais hard de leg me impedia de pensar sobre a tal história da memória, desse constante e mutável substantivo, e me levou a outro caminho, paralelo: as memórias têm relação com as tradições? Termos controle sobre isso? Naquela hora, todo controle do mundo residia naquela extensora.
As tradições também não vão se alterando com o tempo? Como se percebesse sutilmente as novas formas que a memória coletiva de uma família vai tomando, chega-se num ponto onde, ninguém sabe explicar muito bem como, mas passar o natal em Cabo-Frio torna-se uma tradição, dando o exemplo da minha própria família. Tudo isso, sempre em disputa, claro. Porque um primo de segundo grau vai dizer que começou naquele insuportável calor do verão de 1985, enquanto aquela cunhada que você nem sabe o nome jura que foi por conta da biza que morreu em 1983. O fato é, para meus parentes mais próximos, o natal se passa em Cabo-Frio. É tradição. Até que alguém, ou algum evento, mude essa história. Talvez, daqui há 20 anos meu filho conte aos seus que nossos natais eram numa casona em Búzios, com uma parrilla feita pelo vizinho de porta argentino. Quem poderia contestar? E não somos todos constituídos por essa trajetória de tradições cambiantes?
Aí eu deixei o carro no estacionamento da academia e vim correr na praia. Estava angustiado com todas essas questões e outras. Porque frequento academia se eu posso correr na orla e nadar no mar? Porque uso carro se meu trabalho é tão perto da minha casa? Sim, eu sei todas as respostas, mas desde que me lembro, as perguntas, mesmo devidamente respondidas, sempre me inquietaram. E naquele momento me tomavam de maneira tão intensa que sem dar por isso comecei a chorar, enquanto corria alucinadamente. Então me veio o medo. Medo de ser assaltado (veja você), de levar uma dura da PM, de perder a cabeça, de matar alguém, de me prostituir. Medo. Um aperto no peito e uma angústia na cabeça, num ponto em que eu não sabia se era meu corpo que doía ou algo além da minha pele, mas que refletia em mim de maneira muito intensa. Meu relampejo de lucidez foi ligar para ela.
Ela me atendeu muito calma e recomendou uma consulta com o Dr. Lacerda. Eu não queria médico, não queria psicotrópicos. Queria a voz de um anjo. Queria ser cristão para acreditar que de alguma forma, se cumprisse uma meia dúzia de rituais, seria absolvido da vida, da minha condição de ser humano. Catei umas pedras do chão e comecei a fazer os desenhos da infância e da memória, riscando o mais forte que podia. Fui construindo uma espécie de história privada, ora sendo fiel às lembranças vívidas, ora aos sentimentos que envolviam tais lembranças. Como uma tapeçaria medieval, fui riscando o asfalto da ciclovia, arrastando os joelhos no chão para colori-la de sangue e pele; para tornar física – e assim amenizar – a dor do espírito.

Fiquei fazendo aquilo até apagar, não sei bem quando. Está bem ali, pode ver. E então você me encontrou. Parecia o tal anjo que eu queira ver, com a luz do holofote assim cobrindo seu rosto. Mas agora eu estou bem. Agora eu não vou mais pensar sobre as memórias; elas estão bem ali; não preciso mais senti-las movediças dentro de cada decisão que tomo. Posso apenas sentir a dor em minhas pernas e mãos. E peito. Fisicamente. Agora eu sei que você é como eu. A diferença é que você, aparentemente, vive nas ruas e eu num apartamento bacana. Bom, já contei minha história. Agora é a sua vez. Só não vale me dizer que se chama Hilda Furacão; por esses dias li que ela morreu em Buenos Aires. Você já esteve lá?