Joguei
fora os desenhos que fiz quando adolescente. Agora eles existem apenas na minha
memória, claro está. O que me inquieta nessa obviedade é que, com o passar das
experiências que vivencio, a memória deles muda. Às vezes passo num museu e
vejo obras muito parecidas com eles, o que me deixa bastante deprimido com esse
talento suposto e perdido. Em outros momentos, pele mesma linha tortuosa da
memória, com outros estímulos, como um outdoor clichê ou os desenhos do meu
próprio filho, penso que eram rabiscos nada notáveis. Jamais terei acesso a
eles. Jamais saberei como eram, de fato. Por mais que minha memória deles seja
perfeita, por mais que os tenha revisando tanto, refeito tanto a ponto de
sabe-los de cor, ainda assim sinto que não os conheço, e sei que em algum outro
ponto da vida eles me parecerão ainda mais distintos, ora geniais ora banais.
Hoje ela comentou que não sabia se
realmente havia amado alguém na vida, assim, num sentido sexual-afetivo. Disse
que às vezes lhe parece ter amado a muitos, às vezes a ninguém. Lembrei de meus
desenhos e de como a memória é sempre fugidia. Lembrei de alguém citando aquele
Paul Ricoeur para parecer mais
inteligente e culto e bacaninha. E então minha inquietação, tão íntima, nunca
antes partilhada, tomou outras proporções. Foi aí que começou. Se por um lado
nós nos constituímos a partir da memória do que temos aprendido e visto e
experimentado ao longo de nossas vidas, por outro não temos pleno acesso a nada
disso; somos desprovidos de um banco de dados de nós mesmos; somos dependentes
de uma memória que muda em cada tempo presente, que nos apresenta diferentes
versões de nós mesmos conforme passamos por novos “aprendizados” e visões e
experiências.
Aquela era a terceira xícara de café
que ela tomava na manhã de imenso calor tropical e eu sempre acho que aquilo deve
faze-la delirar de alguma forma... claro, parte de mim simplesmente não
consegue dar crédito às coisas que ela faz assim tão naturalmente. A conversa
sobre a incerteza de seus sentimentos me remeteu à minha própria querela
existencialista com os desenhos e também a tudo mais que formava meu imaginário.
Ela já não acredita que pode viver uma relação saudável, acha que está envolta
em “karma”, que precisa voltar a seu
terapeuta (mas agora... “um dia, quem sabe”) e eu, ouvindo aquilo tudo, silenciosamente
indagava de que maneira ocorreria essa mudança de perspectiva dentro de nossas
lembranças... Sim, porque lembro perfeitamente das juras de amor que ela fez a
cada namorado, desde a adolescência. Nos conhecemos há tempo demais.
Assim
que comecei a faculdade de direito me gabava das habilidades artísticas, dizia
que teria um escritório em Ipanema e um ateliê em Santa Tereza. Só rindo. Ao
final do primeiro semestre larguei o curso e tinha plena certeza de que não era
capaz de pintar ou desenhar nada que prestasse. Minhas memórias daquele tempo me
dizem que eu acreditava que a carreira artística seria um fracasso e que o
direito nada tinha de direito; e só as tenho hoje pela mania que tinha de
imprimir e-mails enviados e recebidos. Outro dia estive relendo aquelas coisas.
Hoje, agora, vejo naquele momento decisivo um garoto que simplesmente não
queria estudar Direito Romano e conversava sobre isso com uma capivara no Campo
de Santana.
Voltando
à hora do almoço... Segurando meu braço qual personagem do Eça, ela falava
sobre como gostava de caminhar pela praia quando era criança, mas agora o sol
já a incomodava muito. Será que ela realmente gostava dos passeios? Até que
ponto esse sentimento de memória não foi tão somente construído com o passar
dos anos e das propagandas de cerveja? Não conseguia mais deixar de me
perguntar isso. Seria redundante afirmar que nossa opinião muda, mas talvez,
para além disso, em cada nova opinião forjamos uma nova memória do passado de
nós mesmos.
Hoje
mais cedo, Wilma, a prima do Carlos me mandou uma mensagem dizendo que ouviu
uma música e lembrou de mim. Eu sequer reconheci seu número e só parei para
ampliar a foto que apareceu nos contatos do whatsapp porque estava entediado no
trabalho; de toda forma me lembrei e sorri com isso; faz uns seis anos que não
nos vemos. Lembrei não apenas dela, mas do apartamento onde eu morava no Méier
e daquele momento específico da minha vida, da festa onde a conheci, da
namorada que eu tinha na época, da recém chutada faculdade no centro da cidade.
A música, visualizei logo após essas primeiras divagações, era Samba e Amor, do
Chico.
Nada
mais lugar comum, pensei na hora. Logo me veio a cena: vinho vagabundo (mas não
tão barato) comprado na lojinha do posto, meia luz na casa bagunçada, um disco
do Chico, um doritos talvez, e ela deitada de bruços no colchão azul inflável
do meu quarto. Parecia muito plausível. Passei muitos minutos no banheiro
contemplando a cena e me sentindo um perfeito canalha, conforme a história se
desenrolava, paralelamente, em minha memória e em minha fantasia. Não sei bem
em qual momento das dezenas de mensagens no zap me dei conta de que Wilma tinha
lançado aquela coisa de música só para puxar papo.
Mas
então não teve Chico ou vinho? Foi cerveja e Paulinho? Ou o que? O que foi?
Lembro perfeitamente da tal noite. A verdade é que poderia ter tocado quase
qualquer música e não faria a menor diferença. A menos que eu estivesse obcecado
com a ideia de que involuntariamente alteramos nossas memorias. Contei isso a
ela, para insistir na memória da praia, para atenuar o peso de minhas
interrogações, mas ela só se interessou, e cheia de risos, por saber quem era a
tal prima do Carlos, se era gostosa, hetero, se eu queria transar novamente,
etc. Minha obsessão pela memória não fazia o menor sentido para ela.
Voltando
para casa de carro, não podia deixar de pensar em como mobilizamos nossos
passados a fim de construir argumentos não somente para moldar o presente, mas
especialmente para projetar nossos futuros, todos lindos e pouco plausíveis. Não
apenas mobilizamos; inventamos. Falamos de uma música que nunca tocou, mas
poderia ter tocado, para chamar atenção e de repente marcar um chopp qualquer
dia desses. A praia da infância... não importa muito como realmente foi, apenas
como nos lembramos que talvez tenha sido, queremos compartilhar um sentimento
qualquer em relação ao passado, a qualquer custo. Aquilo tudo, aquela doidera
toda de pensar sobre passado e cantadas virtuais me deixou tonto; achei por bem
passar na academia, puxar um ferro e tentar manter uma imagem digna do meu
instagran. Pelo espelho gigante, na sala iluminada via meus músculos saltando
na pele humedecida.
Gosto
disso. Gosto de ver que, ao menos minha aparência está de acordo com o mundo no
qual vivemos. E sempre foi assim. Não se iluda achando que vivemos numa geração
que se preocupa demasiadamente com a beleza estética (e estática), a diferença é
que agora compartilhamos isso
excessivamente. Claro, se por um lado o fato de eu me encaixar numa “capa de
revista” me deixa reconfortado, por outro, não afasta uma insegurança
intermitente: será que está bom o bastante? Será que vou conseguir manter isso?
Será que isso me basta? Quando comecei a ser esse cara marrento no espelho? Nem
mesmo a série mais hard de leg me impedia de pensar sobre a tal
história da memória, desse constante e mutável substantivo, e me levou a outro
caminho, paralelo: as memórias têm relação com as tradições? Termos controle
sobre isso? Naquela hora, todo controle do mundo residia naquela extensora.
As
tradições também não vão se alterando com o tempo? Como se percebesse sutilmente
as novas formas que a memória coletiva de uma família vai tomando, chega-se num
ponto onde, ninguém sabe explicar muito bem como, mas passar o natal em Cabo-Frio
torna-se uma tradição, dando o exemplo da minha própria família. Tudo isso, sempre
em disputa, claro. Porque um primo de segundo grau vai dizer que começou
naquele insuportável calor do verão de 1985, enquanto aquela cunhada que você
nem sabe o nome jura que foi por conta da biza que morreu em 1983. O fato é,
para meus parentes mais próximos, o natal se passa em Cabo-Frio. É tradição. Até
que alguém, ou algum evento, mude essa história. Talvez, daqui há 20 anos meu
filho conte aos seus que nossos natais eram numa casona em Búzios, com uma parrilla feita pelo vizinho de porta
argentino. Quem poderia contestar? E não somos todos constituídos por essa
trajetória de tradições cambiantes?
Aí
eu deixei o carro no estacionamento da academia e vim correr na praia. Estava
angustiado com todas essas questões e outras. Porque frequento academia se eu
posso correr na orla e nadar no mar? Porque uso carro se meu trabalho é tão
perto da minha casa? Sim, eu sei todas as respostas, mas desde que me lembro,
as perguntas, mesmo devidamente respondidas, sempre me inquietaram. E naquele
momento me tomavam de maneira tão intensa que sem dar por isso comecei a
chorar, enquanto corria alucinadamente. Então me veio o medo. Medo de ser
assaltado (veja você), de levar uma dura da PM, de perder a cabeça, de matar
alguém, de me prostituir. Medo. Um aperto no peito e uma angústia na cabeça,
num ponto em que eu não sabia se era meu corpo que doía ou algo além da minha
pele, mas que refletia em mim de maneira muito intensa. Meu relampejo de
lucidez foi ligar para ela.
Ela
me atendeu muito calma e recomendou uma consulta com o Dr. Lacerda. Eu não
queria médico, não queria psicotrópicos. Queria a voz de um anjo. Queria ser
cristão para acreditar que de alguma forma, se cumprisse uma meia dúzia de
rituais, seria absolvido da vida, da minha condição de ser humano. Catei umas
pedras do chão e comecei a fazer os desenhos da infância e da memória, riscando
o mais forte que podia. Fui construindo uma espécie de história privada, ora
sendo fiel às lembranças vívidas, ora aos sentimentos que envolviam tais
lembranças. Como uma tapeçaria medieval, fui riscando o asfalto da ciclovia,
arrastando os joelhos no chão para colori-la de sangue e pele; para tornar física
– e assim amenizar – a dor do espírito.
Fiquei
fazendo aquilo até apagar, não sei bem quando. Está bem ali, pode ver. E então você
me encontrou. Parecia o tal anjo que eu queira ver, com a luz do holofote assim
cobrindo seu rosto. Mas agora eu estou bem. Agora eu não vou mais pensar sobre
as memórias; elas estão bem ali; não preciso mais senti-las movediças dentro de
cada decisão que tomo. Posso apenas sentir a dor em minhas pernas e mãos. E peito.
Fisicamente. Agora eu sei que você é como eu. A diferença é que você,
aparentemente, vive nas ruas e eu num apartamento bacana. Bom, já contei minha
história. Agora é a sua vez. Só não vale me dizer que se chama Hilda Furacão;
por esses dias li que ela morreu em Buenos Aires. Você já esteve lá?