Cheguei a Salvador pra ficar umas
semanas, pra visitar minha amiga Melissa, pra não pensar na cidade maravilhosa argh
e seus homens incognoscíveis. Sempre quis usar essa palavra. Fiz check-in no
albergue mais barato, nos arredores da Rua São Francisco, bem no Pelourinho. Meu
primeiro drink foi um pouco longe de lá, no Bar das Ricotas – e achei o nome
tão engraçado. Ali mesmo consegui um emprego. Relações Públicas, mas daquelas
que tem que servir mesa, às vezes. As semanas se transformaram em meses,
anos... larguei o bar, casei, separei, abri negócio, fali, descolei pensão, e
vou levando a vida – pq num tá fácil pra ninguém. Dez anos de Bahia. E vc me
pergunta e dai¿ Bom, tenho mesmo uma coisa pra contar.
Conheço uma menina que tem um
blog, esse aqui que vcs tão lendo, ela é do Rio e topou me ajudar. Ela até já
escreveu umas histórias minhas, dos tempos de carioquice. Mas eu, eu encontrei
uma história, umas risadas e uns poemas baratos num bloquinho de notas. Sei não
porque, mas me bateu uma baita vontade não de voltar pro Rio, mas de devolver
essas páginas. Aí minha nêga linda, escritora do blog, disse que era pra eu
contar como achei e o que achei, que aí ela divulgava e via se alguém se
pronunciava. Disse também que não ia cortar nada do que eu escrevesse, nem meus
erros. Ai! Eu que já trabalhei em livraria, que já gostei de brincar com as
palavras... eu... podendo escrever do jeito que quisesse, com todas as falhas
gramaticais que sempre me perseguiram. Eu to aqui, meu povo, me economizando
uma vida em análise.
E como foi¿ Olhe, o dia tava
lindo demais pra ser desperdiçado no mercado municipal, mas... como anfitriã de
gringos que não conheciam Salvador, tive que largar meu camarãozinho na praia e
bater perna – pq num tá fácil pra ninguém. Praticamente cruzamos a cidade pra
inauguração do Brechó de La Borges, da Neusa, na Barra. Um evento. Uma coisa.
Eis que vejo uma bolsa de couro, usada, triste num canto. Apaixonei. Levei pra
casa e quando tava dando aquela faxina básica dei conta de um buracão no forro
e, dentro dele, um bloquinho pequenininho de notas. Comece a ler. Comecei a
chorar. Lembrei do apartamento da vovó, da minha gata chamada Raposa, do
Juvenal (e de tantos outros) e das viagens que fiz com minhas amigas. Pensei
que queria conhecer essas meninas da história, que só aparecem com as iniciais
dos nomes, ou apelidos, sei lá. Então tá aqui, copiadinha, toda a trajetória.
Copiei do jeito que achei. Se vc que tá lendo isso, souber quem são elas, pfv,
entre em contato. Eu pago a vinda delas pra cá, dou casa e comida. Só não
adianto o príncipe pq num tá fácil pra ning.
* * *
Julho e gelo em São João Del
Rei em 2008. Tenho uma péssima caneta, um balaio de ideias inexpressivas (ou
seriam inexpressáveis¿¿) bem no meio da cabeça, + um início de viajem agradável
e meia dúzia de sorrisos no estado de espírito. Minha expectativa com grandes
emoções é praticamente nula, assim, vou degustando o movimento das horas, sem
afeições ou pontadas de angústia. Na verdade, me sinto como queria: “em
férias”, sem pensar na avalanche de coisas a resolver no Rio e plena de
sensações de gata ronronando na grama de manhã, com cócegas de sol. Ligar pra
velha. Trocar sapato – Zara.
Estar sozinha, tomando café na
cantina da UFSJ, torna essa coisa de observar o comportamento humano muito
engraçada; acabo sempre com a mesma pergunta: como nós podemos ser tão
ridículos¿ e isso não tem nada a ver com o rapaz que passou se gabando do
futebol. Mas às vezes tenho preguiça de mim mesma. Ouro Preto. Bruno da
República Xananã de S.J.delR. Recruta Zero. Lunático. Procurar. Saudade da
Mamãe. TX. Rep. Guapo. Em frente post gas. Mixuruca. Barra bairro. Próximo a
estação. Fernanda. Vanessuda. Priscila. Rod. B. Horizonte.
Tudo começou com o estímulo do
rapaz de Viçosa. O ENEH é lugar pra muitas coisas, menos pra confiar num cara
que vc conheceu bêbado num fim de festa, pouco antes da tubulação de esgoto
estourar e... nem preciso continuar. Sim, não confiei. Mas. Pensei que não
custava nada conferir as informações. E assim, eu, M., J., G., F., Mb., e V.
partimos em busca da tal estrada -poeira no lugar dos tijolos amarelos- pra
pegar a tal carona até Ouro Preto. As demais letras do alfabeto não gostaram da
ideia, acharam perigoso, que éramos malucas, etc. etc. Claro que estavam todos
certos. Claro que fomos de todo modo. P. e Mll foram radicalmente contra. Bom,
Mll. estava mt bem ocupada em sua barraca, e P., deveria ter ido com a gente. Como
não sabíamos o que enfrentaríamos, paramos no mercado, abastecemos uma bolsa
com suplementos necessários -absorventes, cachaça e biscoitos-, tomamos um bom
café da manhã, às 2 da tarde e, depois de quase uma hora andando, chegamos à
rodovia e à primeira baixa: F não seguiria viagem.
Na estrada tinha uma fila com
uns meninos paulistas (e seus dedinhos), também pegando carona. Mas, poxa,
ninguém parava pra eles. Então, nós, moças-protagonistas, fizemos sinal e
embarcamos todos. Todos. Até umas outras meninas que foram surgindo. Até a
noite começar a querer cair. V. e Mb. conseguiram ir antes de começar a
questionar. Eu, J., M., e G., começamos a pensar em desistir pq 1º teríamos que
ir em dupla. É, tem isso, não entraríamos na boleia de um caminhoneiro
sozinhas. 2º ninguém mais estava parando, até aquele gol azul, mais velho que
eu, encostar: Bruno, nosso redentor. Rapaz do bem, indo sozinho pra Congonhas,
disse que levaria as quatro até lá, de boa, que era tranquilo ir de lá pra Ouro
Preto, pertinho, ele disse.
Mas, espera, o que estamos
indo fazer em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿¿¿
Bruno, fofo, nos indicou uma
república pra passarmos a noite, e confirmou que era muito tranquilo voltar de
carona pra São João. [NOTA MENTAL: nunca, nunca, nunca, nunca mais confiar em
algum gatinho-gente-boa que vc conhece há 10 minutos. NUNCA] Claro que nós não confiamos.
Mas também não sabíamos da distância, não só entre intenção e gesto, mas entre
as duas cidades, nem que não tinha ônibus direto, nem que teríamos que parar em
Ouro Branco, nem que eram quase meia noite. [A BOA É NUNCA, NUNCA, CONFIAR EM
NINGUÉM, a menos que o Espírito Santo aparece e diga “tá ok”, ou algo do tipo].
O fato é: confiávamos uma na outra, confiávamos que acontecesse o que for,
estaríamos juntas, pra gritar, ou pra rir.
Bruno nos deixou na rodoviária
de Congonhas, uma da manhã. Como faz p pegar carona na estrada¿ Como faz pra
pagar a passagem se todas estavam duras¿ A ideia era pegar um Bus baratinho,
descer no tal do trevo e pegar o tal do outro bus, NO MEIO DA ESTRADA, q tava
saindo de Ouro Branco em direção ao Preto (quase poético). Como faz pra ficar
de madrugada na estrada esperando busss¿ Nesse conflito, com todo mundo da
rodoviária ciente de nossa situação, porque é claro que ficamos melhores amigas
de todos que esperavam bus ou carona, eis que um cara se apresenta. “Oi, eu sou
o Egg, sou policial, e posso levar vcs em segurança”. Egg não tinha cara de
bons amigos. Como faz¿
Uma hora depois, descemos no
tal trevo, na total treva da noite, passando por uma mata (ou grama, talvez),
sem qualquer iluminação. Lembro de andar olhando sempre pro chão, pra ver se
achava uma pedra, pro caso do Egg fritar. Passado o susto, pegamos o bus certo,
Egg era, de fato, um bom amigo-de-emergência e chegamos bem em Ouro Preto. Mas
espera, o que é que é que é que é que a gente tá fazendo em Ouro Preto, se o
ENEH é em São João Del Rei¿¿¿
Saímos da rodoviária, na
madrugada, num frio da porra, em busca da tal república que Bruno indicou: a TX,
república federal masculina (será mesmo¿). O segurança tinha explicado o
caminho e de fato foi tranquilo chegar. Acontece que o tal Recruta Zero, amigo
do nosso amigo, já tinha se formado há mais de um ano, e ninguém conhecia
nenhum Bruno, e nenhum rapaz de Viçosa. Mas, não sei se pela nossa cara de
fome-frio, ou se porque era assim mesmo a vida na cidade das ladeiras, os meninos
da TX nos derem abrigo. Nos deram também bebidas, na esperança de que déssemos
alguma coisa a eles, mas no fim da noite dormimos super agasalhadas, as quatro,
no mesmo quarto, cada uma em uma cama que parecia divina. Nos despedimos e agradecemos
na manhã seguinte, porque daríamos uma volta na cidade e voltaríamos pra São
João. [qual o nome deles]
Pra economizar no almoço,
comemos um pão de queijo e fomos bater perna. Antes, ligamos pros nossos pais,
no Rio, pq somos malucas, mas nem tanto, só que não conseguimos falar com o
restante de alfabeto que ficou no ENEH de verdade, seus celulares não
funcionavam de modo algum. Na rua Direita (caraaaaa toda cidade tem uma rua
direitaaa), bem no meio, encontramos V e Mb, que tinham pagado hospedagem numa
república particular feminina, na tal da Barra. Elas estavam indo de trem pra
Mariana, cidade aqui perto, mas o trem era caro. Seguimos descendo a Direita
até que eu vejo uma plaquinha “TATOO” e digo: “partiu fazer uma tatuagem¿”. G e
M toparam na hora, J, com alguma sensatez, hesitou, mas acabou indo. Como
pagamos a tatuagem¿ Negociamos! Preço mínimo: de R$70,00 pra R$40,00, em cada.
Descobrimos que G. tinha um cartão de crédito. G: nós te amamos muito, a gente
jura que paga depois. Pedimos um PF num restaurante, pra ver se conseguíamos
dividir, economizar; acabamos passando horas no tal restaurante, entre
histórias secretas do ifcs e uma tese sobre a coruja da Bruxonilda.
Tatuadas e minimamente
alimentadas, duas ruas semi-percorridas na cidade histórica, o que fazer¿
Procurar o bar mais próximo, claro. Entramos no Barroco (aparentemente um clássico de paredes rabiscadas), onde deu-se a
primeira parte das “Confissões Sexuais”, com revelações surpreendentes. As
imagens são impressionantes. Tem certeza que não doeu¿¿¿ Como faz pra pegar
carona bêbada¿ Já anoiteceu¿ Onde vamos dormir¿ Os rapazes da Diretoria. Os
intrometidos da Antares. No Rio tem puta, pagodeira e funkeira, e nós, NÓS NÃO
SOMOS NADA DISSO. Noite na rep particular masculina, casa amarela, o cão
chamado Bino, medo. VAMOS EMBORA – linguagem labial. Pedrinho, tarado
inconveniente, papo reto. M. pseudo-encoxada. S.
O que a gente tá fazendo em
Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿¿
Aquela noite foi a pior. Não
conseguimos dormir, de frio. De medo dos caras entrarem no quarto. Medo do
bicho papão. Sei lá. Medo da história, incessantemente evocada naquele lugar,
naquele quarto. O quarto a Bruxa de Blair.
Raiou o sol. Saímos correndo.
Decidias a abusar do cartão de crédito de G., fomos pra rodoviária, nada de
carona, nada mais de aventuras. Não tinha ônibus. Comprar calcinha. Bom, vamos
tomar um banho. Era R$5,00. Dissemos que só iríamos fazer xixi. De graça.
Tomamos banho escondidas. Saímos de lá um pouco refeitas e decidimos tentar
mais uma carona. Foi mais por desencargo de consciência, ninguém mais queria
brincar de aventura. Ligamos pra V e Mb, mas elas já estavam voltando, pegaram
o ônibus que a gente perdeu. Ligamos pros nossos pais, poq, somos responsáveis,
mas ainda não conseguíamos contato com o alfabeto, vivendo outra realidade em
São João. Decidimos conhecer Mariana e depois pensar no resto.
Demoramos mais tempo para
chegar lá do que para conhecer a cidade, que só tem uma praça e um PF
baratinho. Comemos, tiramos foto na pracinha com o coreto e voltamos. Nisso, no
caminho de volta, no meio daquela paisagem arrebatadora, no charme que só o
frio das montanhas tem, M. lança a hipótese de que nossa barrinha da sorte
estava acabando. Sim, aparentemente temos uma “barrinha da sorte” que é
renovada a cada evento ou pequena aventura da vida, a nossa, que então contava
a soma das quatro, já deveria estar no fim... Chegamos à rodoviária e a uma “crise
conjugal”: pegar outra carona¿ usar o mágico cartão e ir baldeando, de
cidadezinha em cidadezinha¿ esperar o próximo bus, que sairia na manhã
seguinte¿
O fato é: estávamos (estamos)
presas em Ouro Preto, como os caras naquele filme O Anjo Exterminador. Tiramos
uma foto, na igreja perto da rodoviária, para um dia colocarmos num álbum com a
legenda: Buñuel. Compramos a passagem para o dia seguinte mesmo. Ora o que
fazer. O que fazer¿¿ Então, levando em conta que eram umas 18h, o jeito era procurar
o bar mais próximo. Andamos sem destino, sem querer subir muitas colinas, e encontramos
um barzinho super charmoso, com um preço decente, super quentinho. Resolvemos
ficar. Confissões sexuais pt 2. Momento escatológico. Cerveja enviada pelo
cavalheiro da mesa ao lado. Quem¿¿¿¿ Edmilson, o simpático. A trilha sonora da
máquina. “M. é uma mulher suja”. O cavaleiro se apresenta: é dada a largada. E
os pulinhos de J.¿¿ “Mas, é doce¿”. Seu Jorge. Ele usa aliança. Quem¿¿¿ Qm é
Daniel¿¿
E agora: estamos aqui, ainda
no bar. E nem sei o nome do bar ou da rua. O dono do bar, que achávamos que
fosse só o garçom, ouviu a gente comentar nossa pequena odisseia e ofereceu
abrigo. Disse que podíamos dormir aqui. Aqui dentro, olha que incrível! Claro
que tem um segurança que dorme aqui também, mas tá de boa. As meninas tão dormindo
já. Ou fingindo. Descolaram até uns colchonetes pra gente. Cara lá fora tá
muito frio. To aqui pensando que se eu deveria ter seguido o cara que ofereceu
as cervejas... tinha tempo que eu não ficava com um cara gato assim... Mas
também... largar as meninas aqui e ir desbravar as ruelas de Ouro Preto com um
desconhecido... náaa. Tivemos muita aventura nos últimos dias. Ah, eu podia
escrever algo melhor. No Rio. Depois do Projeto.
O que a gente tá fazendo em
Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿ Tentar resp isso qd voltar pro
Rio.
Escrever roteiro qd voltar pro
Rio.
Escrever projeto de monog. qd
voltar pro Rio.
Trab. Am. III, prova Br I. Merda.
Mandar e-mail pro preto gato
de ouro preto.
* * *
Oi, voltei. Alice, escrevendo
de Salvador, terra mais linda, bem em 2014. A história é essa que vcs leram. Tem umas outras
coisas anotadas no caderno; quer dizer outras histórias. Será que ela e as outras conseguiram voltar pro Rio¿ Tô pensando aqui que se ninguém se manifestar, se
ninguém souber o paradeiro dessas meninas, dessa história, vou mesmo é
transforma-la num roteiro. Escrevi esse pouquinho aqui, copiei essas palavras
todas delas, e me bateu uma baita vontade de escrever também. Gostei dela.
Claro, tadinha, era só um rascunho, sei, mas ela escreve como eu queria
escrever, tadinha. A gente se parece. Sei lá. De repente uso mesmo as ideias do
caderninho. Achado não é roubado. Sabe como é... num tá fácil pra ninguém. E eu
to aqui, bem tentando devolver, ou tentando conhecer, sei lá. Beijos e abraços
a tod@s.