quarta-feira, 15 de abril de 2015

O peso da leveza


Mariza teve um sonho terrível. Estava morta. No sonho, despertava de um outro sonho e acordava num lugar muito iluminado, cercado de pessoas que não conhecia. Quando perguntou onde estava, disseram: “você morreu”. Ela não acreditou, então entregaram a ela algo que era como um espelho mágico, mas parecia um tablete distorcido, e nele ela podia ver o mundo dos vivos, com pessoas chorando a morte dela. E num instante lá estava ela, vagando entre os vivos, observando cada detalhe de seu universo, com uma impressionante clareza. Não podia ser verdade, mas era. E o que ela faria? Porque entre os outros mortos (que também transitavam entre os vivos), ela se sentia mesmo muito viva, muito disposta, com energia para movimentar-se e expandir sua mente, com uma vivacidade eletrizante que até então desconhecia.
         Acordou com um barulho de trovão ensurdecedor. Chuva de verão. Estava em Buenos Aires há três meses e ainda não sabia muito bem o que fazer da vida. Ela, que sempre soube que jamais deveria se preocupar com essas coisas de “o que fazer da vida, etc e tal”. Na madrugada de relâmpagos, sentou-se na cama, com muito medo. Não da água ou do som, mas de estar sozinha; não naquele momento, mas na vida; não na vida como um todo, talvez apenas naquela cidade. No dia seguinte, apesar de “não ser de igreja, cê sabe”, passou na Catedral Metropolitana e, uma vez lá, sentou e chorou, “igual criança, por uma hora inteirinha”. Agora acho até graça, porque para mim Mariza, sem nem se dar conta, tem uns traços de marxista, especialmente no que diz respeito à religião, que para ela “só confunde a cabeça das pessoas, principalmente as mais humildes... é um tal de entregar na mão de deus, que chega uma hora que a pessoa nem sabe mais que quem manda na vida dela é ela mesma”.
         Claro que não tem graça nenhuma. Mariza é a pessoa mais leve que já conheci. Foi uma tristeza imensa encontra-la tão frágil e assustada, tão “gente como a gente”. Vejam, Mariza, sobre quem já escrevi antes, é uma das minhas grandes inspirações e aspirações: admiro-a tanto que gostaria de ser como ela. Enfim... Marcamos uma pizza na Güerrin, quando estive na capital argentina para cobrir uma matéria sobre Fórmula E. No meio daquele salão barulhento e cheiroso ela foi me contando o tal sonho e como estava no trabalho, como se sentia, como se virava no portunhol.
         Ela não leva nada ao pé da letra, se você quer falar sério com ela, tem que dizer com todas as letras: “Mariza, agora eu estou falando sério”. E assim perguntei como ela foi parar naquela cidade linda, mas que carrega qualquer coisa de paulista – e acaba ficando estranha. Então ela começou a contar que foi demitida do último emprego, uma creche no Jardim Botânico onde trabalhava, meio expediente, cuidando das crianças, há 5 anos – tive ganas de perguntar como eu nunca tinha ouvido falar disso, mas. Não. Com a grana do FGTS pensou em dar entrada numa casinha, aquietar, deixar crescer raízes... Não. Resolveu visitar Buenos Aires porque era o que estava em promoção num site de viagens famoso; simples assim. Sem se despedir de ninguém, distribuiu suas coisas entre seus amigos e disse que estava de mudança, que quando soubesse o endereço mandava pra gente. Acho que não fiquei realmente surpreso quando vi um postal com a Casa Rosada.
         Agora Mariza estava aqui, respirando bons ares e, uma vez mais, se reinventando. Um mês de aulas de yoga, duas semanas de curso de alemão, um affaire na esquina da San Martín com a Calle Reconquista (sempre acho que ela escolhe esses cenários de propósito). “Mas é assim, sabe?, às vezes eu fico tristinha e chorosa, lembro das doideras que fiz, sóbria ou bêbada, tanto faz. Lembro das merdas que falei, dos micos que paguei e sempre acabo rindo sozinha. Sozinha, mas risonha. Tem que ter alguma vantagem, ne?!quédizer?!...”. E nisso, tinha sempre uma letra do Zezé di Camargo & Luciano (ou seria Xitãozinho e Xororó? Sempre confundo) ou mesmo um bom samba para ilustrar qualquer argumento. Cantarolou: “Se eu for pensar muito na vida / Morro cedo, amor / Meu peito é forte, / Nele tenho acumulado tanta dor”.
E para mim soava absurdo, vindo de alguém que já morou em Paracambi, vendeu Avon, serviu mesa, foi babá, professora de informática para a 3ª idade na Rocinha, trabalhou em posto de gasolina, morou nos lugares mais loucos e inóspitos que se possa ter ideia e ainda sempre tinha uma piada para contar, um pedacinho de otimismo para dividir com pessoas como eu, sempre infelizes por não conseguirmos passar aquele final de semana em Búzios, comprar um Iphone mais atual ou um ingresso para o novo show do Caetano. Parece que só agora, depois de ter vivido tudo isso, ela, finalmente, estava cansada e solitária.
         Caminhamos pela Avenida de Mayo – e ela insiste em dizer que se parece com a Rio Branco... – enquanto tomávamos um sorvete e sentíamos aquele pôr do sol depois das 20h. Ali sim, naquele sorriso e bochechas sujas de chocolate, eu vi Mariza. Ao mesmo tempo em que finalmente a vi, sabia que o sonho com a própria morte e as angústias que ela compartilhou comigo (e autorizou publicar, desde que eu usasse as “mesmas palavrinhas” dela) foram apenas momentos isolados, exceções que confirmavam a regra: toda leveza tem seu peso, seu fardo. Nos despedimos na porta do meu hotel e ela se foi, um pouco apressada, dizendo que tinha uma cidade a conquistar. Fiquei ali vendo o caminhar dela, a tempo de ouvir aquela gargalhada inesquecível.


sábado, 3 de janeiro de 2015

Narrativa – parte I



Joguei fora os desenhos que fiz quando adolescente. Agora eles existem apenas na minha memória, claro está. O que me inquieta nessa obviedade é que, com o passar das experiências que vivencio, a memória deles muda. Às vezes passo num museu e vejo obras muito parecidas com eles, o que me deixa bastante deprimido com esse talento suposto e perdido. Em outros momentos, pele mesma linha tortuosa da memória, com outros estímulos, como um outdoor clichê ou os desenhos do meu próprio filho, penso que eram rabiscos nada notáveis. Jamais terei acesso a eles. Jamais saberei como eram, de fato. Por mais que minha memória deles seja perfeita, por mais que os tenha revisando tanto, refeito tanto a ponto de sabe-los de cor, ainda assim sinto que não os conheço, e sei que em algum outro ponto da vida eles me parecerão ainda mais distintos, ora geniais ora banais.
         Hoje ela comentou que não sabia se realmente havia amado alguém na vida, assim, num sentido sexual-afetivo. Disse que às vezes lhe parece ter amado a muitos, às vezes a ninguém. Lembrei de meus desenhos e de como a memória é sempre fugidia. Lembrei de alguém citando aquele Paul Ricoeur para parecer mais inteligente e culto e bacaninha. E então minha inquietação, tão íntima, nunca antes partilhada, tomou outras proporções. Foi aí que começou. Se por um lado nós nos constituímos a partir da memória do que temos aprendido e visto e experimentado ao longo de nossas vidas, por outro não temos pleno acesso a nada disso; somos desprovidos de um banco de dados de nós mesmos; somos dependentes de uma memória que muda em cada tempo presente, que nos apresenta diferentes versões de nós mesmos conforme passamos por novos “aprendizados” e visões e experiências.
         Aquela era a terceira xícara de café que ela tomava na manhã de imenso calor tropical e eu sempre acho que aquilo deve faze-la delirar de alguma forma... claro, parte de mim simplesmente não consegue dar crédito às coisas que ela faz assim tão naturalmente. A conversa sobre a incerteza de seus sentimentos me remeteu à minha própria querela existencialista com os desenhos e também a tudo mais que formava meu imaginário. Ela já não acredita que pode viver uma relação saudável, acha que está envolta em “karma”, que precisa voltar a seu terapeuta (mas agora... “um dia, quem sabe”) e eu, ouvindo aquilo tudo, silenciosamente indagava de que maneira ocorreria essa mudança de perspectiva dentro de nossas lembranças... Sim, porque lembro perfeitamente das juras de amor que ela fez a cada namorado, desde a adolescência. Nos conhecemos há tempo demais.
Assim que comecei a faculdade de direito me gabava das habilidades artísticas, dizia que teria um escritório em Ipanema e um ateliê em Santa Tereza. Só rindo. Ao final do primeiro semestre larguei o curso e tinha plena certeza de que não era capaz de pintar ou desenhar nada que prestasse. Minhas memórias daquele tempo me dizem que eu acreditava que a carreira artística seria um fracasso e que o direito nada tinha de direito; e só as tenho hoje pela mania que tinha de imprimir e-mails enviados e recebidos. Outro dia estive relendo aquelas coisas. Hoje, agora, vejo naquele momento decisivo um garoto que simplesmente não queria estudar Direito Romano e conversava sobre isso com uma capivara no Campo de Santana.
Voltando à hora do almoço... Segurando meu braço qual personagem do Eça, ela falava sobre como gostava de caminhar pela praia quando era criança, mas agora o sol já a incomodava muito. Será que ela realmente gostava dos passeios? Até que ponto esse sentimento de memória não foi tão somente construído com o passar dos anos e das propagandas de cerveja? Não conseguia mais deixar de me perguntar isso. Seria redundante afirmar que nossa opinião muda, mas talvez, para além disso, em cada nova opinião forjamos uma nova memória do passado de nós mesmos.
Hoje mais cedo, Wilma, a prima do Carlos me mandou uma mensagem dizendo que ouviu uma música e lembrou de mim. Eu sequer reconheci seu número e só parei para ampliar a foto que apareceu nos contatos do whatsapp porque estava entediado no trabalho; de toda forma me lembrei e sorri com isso; faz uns seis anos que não nos vemos. Lembrei não apenas dela, mas do apartamento onde eu morava no Méier e daquele momento específico da minha vida, da festa onde a conheci, da namorada que eu tinha na época, da recém chutada faculdade no centro da cidade. A música, visualizei logo após essas primeiras divagações, era Samba e Amor, do Chico.
Nada mais lugar comum, pensei na hora. Logo me veio a cena: vinho vagabundo (mas não tão barato) comprado na lojinha do posto, meia luz na casa bagunçada, um disco do Chico, um doritos talvez, e ela deitada de bruços no colchão azul inflável do meu quarto. Parecia muito plausível. Passei muitos minutos no banheiro contemplando a cena e me sentindo um perfeito canalha, conforme a história se desenrolava, paralelamente, em minha memória e em minha fantasia. Não sei bem em qual momento das dezenas de mensagens no zap me dei conta de que Wilma tinha lançado aquela coisa de música só para puxar papo.
Mas então não teve Chico ou vinho? Foi cerveja e Paulinho? Ou o que? O que foi? Lembro perfeitamente da tal noite. A verdade é que poderia ter tocado quase qualquer música e não faria a menor diferença. A menos que eu estivesse obcecado com a ideia de que involuntariamente alteramos nossas memorias. Contei isso a ela, para insistir na memória da praia, para atenuar o peso de minhas interrogações, mas ela só se interessou, e cheia de risos, por saber quem era a tal prima do Carlos, se era gostosa, hetero, se eu queria transar novamente, etc. Minha obsessão pela memória não fazia o menor sentido para ela.
Voltando para casa de carro, não podia deixar de pensar em como mobilizamos nossos passados a fim de construir argumentos não somente para moldar o presente, mas especialmente para projetar nossos futuros, todos lindos e pouco plausíveis. Não apenas mobilizamos; inventamos. Falamos de uma música que nunca tocou, mas poderia ter tocado, para chamar atenção e de repente marcar um chopp qualquer dia desses. A praia da infância... não importa muito como realmente foi, apenas como nos lembramos que talvez tenha sido, queremos compartilhar um sentimento qualquer em relação ao passado, a qualquer custo. Aquilo tudo, aquela doidera toda de pensar sobre passado e cantadas virtuais me deixou tonto; achei por bem passar na academia, puxar um ferro e tentar manter uma imagem digna do meu instagran. Pelo espelho gigante, na sala iluminada via meus músculos saltando na pele humedecida.
Gosto disso. Gosto de ver que, ao menos minha aparência está de acordo com o mundo no qual vivemos. E sempre foi assim. Não se iluda achando que vivemos numa geração que se preocupa demasiadamente com a beleza estética (e estática), a diferença é que agora compartilhamos isso excessivamente. Claro, se por um lado o fato de eu me encaixar numa “capa de revista” me deixa reconfortado, por outro, não afasta uma insegurança intermitente: será que está bom o bastante? Será que vou conseguir manter isso? Será que isso me basta? Quando comecei a ser esse cara marrento no espelho? Nem mesmo a série mais hard de leg me impedia de pensar sobre a tal história da memória, desse constante e mutável substantivo, e me levou a outro caminho, paralelo: as memórias têm relação com as tradições? Termos controle sobre isso? Naquela hora, todo controle do mundo residia naquela extensora.
As tradições também não vão se alterando com o tempo? Como se percebesse sutilmente as novas formas que a memória coletiva de uma família vai tomando, chega-se num ponto onde, ninguém sabe explicar muito bem como, mas passar o natal em Cabo-Frio torna-se uma tradição, dando o exemplo da minha própria família. Tudo isso, sempre em disputa, claro. Porque um primo de segundo grau vai dizer que começou naquele insuportável calor do verão de 1985, enquanto aquela cunhada que você nem sabe o nome jura que foi por conta da biza que morreu em 1983. O fato é, para meus parentes mais próximos, o natal se passa em Cabo-Frio. É tradição. Até que alguém, ou algum evento, mude essa história. Talvez, daqui há 20 anos meu filho conte aos seus que nossos natais eram numa casona em Búzios, com uma parrilla feita pelo vizinho de porta argentino. Quem poderia contestar? E não somos todos constituídos por essa trajetória de tradições cambiantes?
Aí eu deixei o carro no estacionamento da academia e vim correr na praia. Estava angustiado com todas essas questões e outras. Porque frequento academia se eu posso correr na orla e nadar no mar? Porque uso carro se meu trabalho é tão perto da minha casa? Sim, eu sei todas as respostas, mas desde que me lembro, as perguntas, mesmo devidamente respondidas, sempre me inquietaram. E naquele momento me tomavam de maneira tão intensa que sem dar por isso comecei a chorar, enquanto corria alucinadamente. Então me veio o medo. Medo de ser assaltado (veja você), de levar uma dura da PM, de perder a cabeça, de matar alguém, de me prostituir. Medo. Um aperto no peito e uma angústia na cabeça, num ponto em que eu não sabia se era meu corpo que doía ou algo além da minha pele, mas que refletia em mim de maneira muito intensa. Meu relampejo de lucidez foi ligar para ela.
Ela me atendeu muito calma e recomendou uma consulta com o Dr. Lacerda. Eu não queria médico, não queria psicotrópicos. Queria a voz de um anjo. Queria ser cristão para acreditar que de alguma forma, se cumprisse uma meia dúzia de rituais, seria absolvido da vida, da minha condição de ser humano. Catei umas pedras do chão e comecei a fazer os desenhos da infância e da memória, riscando o mais forte que podia. Fui construindo uma espécie de história privada, ora sendo fiel às lembranças vívidas, ora aos sentimentos que envolviam tais lembranças. Como uma tapeçaria medieval, fui riscando o asfalto da ciclovia, arrastando os joelhos no chão para colori-la de sangue e pele; para tornar física – e assim amenizar – a dor do espírito.

Fiquei fazendo aquilo até apagar, não sei bem quando. Está bem ali, pode ver. E então você me encontrou. Parecia o tal anjo que eu queira ver, com a luz do holofote assim cobrindo seu rosto. Mas agora eu estou bem. Agora eu não vou mais pensar sobre as memórias; elas estão bem ali; não preciso mais senti-las movediças dentro de cada decisão que tomo. Posso apenas sentir a dor em minhas pernas e mãos. E peito. Fisicamente. Agora eu sei que você é como eu. A diferença é que você, aparentemente, vive nas ruas e eu num apartamento bacana. Bom, já contei minha história. Agora é a sua vez. Só não vale me dizer que se chama Hilda Furacão; por esses dias li que ela morreu em Buenos Aires. Você já esteve lá? 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Vasto Mundo



Tava lá, escrito na caixa de spam: “João, é sempre verão em algum lugar do mundo”. Certamente a cabeça dele não fazia parte do mundo, porque ali só havia inverno, o frio rascante como na muralha da ficção na tv. A propaganda da agência de viagens era bastante tentadora, claro que sairia bem caro, mas isso de pagar passagem e hospedagem em finte vezes num cartão que você nem precisa pagar de verdade bem podia ser a solução pro tedio e solidão perenes. Mas mesmo a remota possibilidade de ir pro outro lado do mundo e continuar sendo perseguido por essa agonia e.... solidão é algo tão filho da puta que nem tem sinônimo, solidão, se essa solidão persistisse e o perseguisse... bom. Era só um spam, porra.
Um spam que paralisou seu dia, fazendo-o pensar sobre solidão e saudade, como se estivesse num exílio. E estava, de certa forma. Acabo de consultar um dicionário, parece que “exílio” pode ser considerado um estado de espírito e também um sinônimo pra solidão. Isso não importa. Duvido que João tenha aberto um dicionário sequer fora das aulas da tia Teteca. Ele saiu de sua cidade natal para trabalhar numa metrópole que tem toda pinta de cidade provinciana. Uma vez ao ano visitava os parentes e poucos amigos no Rio, numa dessas, encontrou uma caixa cheia de fotos, bilhetes e sonhos de valsa que colecionou até a adolescência tardia (embora suspeite que esse tempo nunca acabe).
Segurou pensativo uma imagem na qual apareciam suas pernas, dois gatos que odiava e uns quantos discos de música de gosto duvidoso, espalhados pelo chão de sinteco. A caligrafia feia, de letras escritas com caneta para CD, gravadas nas coxas lisas de João, aquele pedacinho de Drummond... de quem era? E que foto era aquela? Parecia letra de homem, mas não a dele, mas quem teria escrito aquilo? Quando e Porquê? “Mais vasto é o meu coração”: digitou no google e viu que era mesmo Drummond, que era mesmo super famoso, super citado. Ficou relendo algum tempo: “mundo mundo vasto mundo...” Daquela mesma caixa meio escondida no armário da casa da vó Lu, João recuperou um jeans com respingos de tinta acrílica que surpreendentemente ainda servia, e no bolso dele um poema mal feito:

PG
(ainda inverno, 2008)

Idealizações do Passado
Um pretérito que não funciona mais
Algo que foge das sortes
De um amor qualquer
A incerteza de sua presença
Será que locomove
Emociona e
Tenciona o ar frigido
Entre as cordas do nosso instrumento
Me sinto abalado
A figura que pinto não pode ser manchada
Por quem quer que seja
E no fundo
Minha temperança
Não permite nossa
Temperatura

E o que, ou quem era PG? Paulo Gustavo? Abreviatura de “pago”? Aquela letra era dele, definitivamente. Aos poucos foi lembrando de quando escreveu aquilo: um bar perto da São Salvador, matando aula de História da Arte I. Mas, naquela época, o único cara que merecia sua atenção era o Pedro Henrique... PG? No fim das contas ele deve ter trocado o H pelo G just in case alguém achasse os rabiscos e tirasse onda com sua paixonite. João deitou-se no chão, feliz vestindo o jeans das primeiras aulas de pintura, a fitar o lento movimento do ventilador de teto e colocou um punhado dos papéis da caixa sobre o peito e, depois, ao redor de si. Imaginou que uma foto tirada da perspectiva da lâmpada que lhe encarava certamente o transformaria numa espécie de Ofélia pós-moderna, afogada em lembranças inúteis, morta diante de um amor impossível.
Eu queria poder sair de dentro de um espelho e gritar a João o tempo que ele estava perdendo ali.... a fazer nada, a encarar o teto como se a vida estivesse toda contida naquele silêncio e imobilidade
Pensava nas memórias dentro daquela caixa, nas tralhas que guardava. Mas o que torna uma experiência memorável? Uma estadia no exterior, um restaurante famoso, caminhar de mãos dadas na praia... o que faz desses pequenos cenários-elementos realmente importantes? A pergunta não é como aproveita-los, mas sim como reconhecer momentos realmente incríveis. João não tinha resposta para nada disso, naturalmente... Ele apenas respeitava o devir do mundo que o tornava nômade por terras ficcionais, como se realmente fosse uma personagem minha.
Códigos culturais, idiossincrasia... como aprender tudo isso de novo, e mais, o tempo todo? Porque parecia que a cada lugar por onde passava, a fim de expor sua nova fase de trabalho, o escultor, João sentia-se deslocado e exposto ele mesmo, como um bloco de mármore talhado em tamanho real e forçado a pronunciar palavras domesticadas, rompendo assim sua natureza mineral... Por isso evitava qualquer tipo de interação social. Por isso passava tantas horas olhando o teto, o pôr do sol, o caminho que uma formiga fazia do chão até a torneira da cozinha, uma árvore dançando com o vento. Por isso sentia essa solidão patológica. De um lado não suportava a obrigação de se relacionar com gente desconhecida, só pra vender seu trabalho. De outro, seus amigos queridos, conquistados na escola e nos primeiros anos de graduação, estavam cada um em uma parte do mundo. O remédio pra tudo isso tava o bolso interno da mochila e era vendido sob prescrição médica. E foi o que o salvou aquela noite, o que o tirou mais cedo da última vernissage do ano, na véspera de visitar os avós.
Não sou vidente, apenas um narrador. Mas sei que se João tivesse aceitado aquele convite pruma small talk com aqueles escultores, auto declarados semideuses, sua própria carreira como aspirante de uma semidivindade, teria sido outra. Joãaaaao!! Eu grito, tão somente agora, vá subir seus devidos degraus, sangrando, com dor e dignidade! Aceite a conversa fiada e piadas que você nunca vai entender. Isso também é parte do seu trabalho! E mesmo que eu tivesse gritado isso naquele momento ele não acataria. Creio que ouviria, entenderia e concordaria até, mas por auto sabotagem ou preguiça pura e simples, me ignoraria. Maldito.
Agora João tava no conforto da casa da vó Lu, no seu antigo quarto, esperando o telefone tocar com alguma novidade, algum convite. Havia um peso em seu peito, como se aqueles papéis de passado fossem de ferro. Havia uma sensação muito estranha no ar, e respirar era difícil. O celular ao lado suspirou, indicando atividade na sua rede social (a única que realmente tinha então); e nem pensou em verificar do que se tratava. Começava a pensar que seus amigos, todos eles, os virtuais e os reais (mas o que era realidade ali naquela pose shakespeariana?), estavam tendo experiências de vida maravilhosas e inesquecíveis, enquanto sua própria vida se resumia a observar o movimento da luz que vinha da rua, manchada pela amendoeira, a formar pop art em slow motion na parede do quarto.
Com um estalo no peito levantou-se e se deu conta do que era aquele peso todo. Lembrou de quando a amiga Clarisse falou que invejava a vida dele. Naquele momento João sentia inveja sem nem saber de quem ou do que. Sentia sua vida tão infeliz e vazia que só a possibilidade de haver alguém no mundo que estivesse sendo feliz já o incomodava. E por que ninguém ligava? Por que ninguém tocava a campainha? Por que ele chorava? E qual era o problema em ser carente? Era seu gênero? Era porque ele era homem? Por que isso parecia um clichê que o tornava ainda mais frágil, mais viado, na frente “dos outros”? E por que seus amigos superhéteros podiam se abrir com ele e falar sobre isso, sobre suas próprias carências e afetividades? Por que ele tinha que ser, o tempo todo, homem maduro e bem resolvido com a própria sexualidade e vida sexual-afetiva, do tipo que não precisa de nada nem ninguém nem cafuné...?

Pegou o comprimido; jogou fora. Pegou um caderno e começou a escrever. Chorava diante de seus sentimentos mais mesquinhos, mais humanos. Rezou um pouco. Entrava em conformidade com a solidão perene. Voltou à caixa de spam; escolheu um pacote pro Caribe. Agora respirava como nas aulas de yoga, deixando o peso voltar aos papéis da memória. Então tava tudo bem; tudo bem ser carente, tudo bem ter sentir alguma coisa terna e querer partilhar isso. Ainda fazia um pouco de frio na cabeça, mas isso ia passar e, enquanto não passava, ele sentia, refletia, escrevia, esculpia. Guardou a caixa no armário, mas manteve o jeans. Olhou-me através do espelho e eu sabia que tava tudo bem. Saiu de casa carregando um livro e mexendo no telefone, como se fosse fazer uma ligação.
             João... pra quem você vai ligar nessa hora, nessa quase madrugada...?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Da liberdade-danação


Nossa verdadeira danação está em conviver com nossas escolhas, diariamente. Não importa se estamos realmente bem ou mal... há, de quando em quando, a terrível sombra do “e se...”. Mesmo quando temos a plena noção de que mudada uma frase, desfeito um gesto, então toda nossa vida seria diferente. Sim, se você tivesse sorrido de volta àquela menina que fumava no banco de trás do ônibus, três décadas atrás, você não estaria lendo seu jornal na manhã de hoje. Não estou dizendo que vocês teriam se casado e agora você seria bem sucedido, ou viúvo, ou um fodido, apenas afirmo, categoricamente, que sua vida não seria a mesma. O jornal não seria esse, o café à sua frente teria outro sabor... e por ai vai. Aquele vestibular, aquele doce inofensivo, aquela esquina que você virou distraído. Você tem meio século de uma vida da qual não se arrepende, mas pensa, pensa, pensa como seria se tivesse feito escolhas diferentes. Te vejo daqui. Te vejo agora mesmo. Minha janela da sala dá pra um dos cômodos do seu apartamento (escritório¿ motel¿ santuário¿ quarto de hóspedes¿), já vi de tudo.
Sua vida modorrenta tem efeito catalisador na minha criatividade. Isso porque sua inércia em muito lembra minha própria. Mas também tenho eu quase cinquenta anos e um punhado de coisas a dizer sobre o mundo. Não que algum dia alguém as vá ler. Não que importe, mesmo pra mim. Te vejo agora, fitando o espelho do banheiro pensando que sua escova de dentes custou tão caro, mas talvez seja a hora de troca-la. Preciso me desprender de você e dessa parte de mim que é ser somente uma plateia. Saio de casa, caminho por ruas sem calçada e tento viver minha própria vida, sem pensar em alguém para observar ou em alguém que certamente me observa e lê agora.  
Fumei um baseado. Não muito. Apenas uns tapinhas. Comi um chocolate com coco, fiquei bem, dei uma volta pela estrada Ouro Preto-Mariana e comecei, então, a beber Heineken. Agora me bate uma suave onda de tesão, ouvindo Samba e Amor, sentindo o sol esfriar no anoitecer marianense, com esse céu inexplicavelmente maravilhoso. Penso que se a vida é cheia de oportunidades e possibilidades, elas não figuram nas pedras de cidades históricas e interioranas. Assim, tenho certeza de que, nesse momento, será impossível compartilhar o que sinto. Não há como me aconchegar na companhia de um par. Merda. Agora começa a tocar I`ve got you under my skin, e essa música nunca calhou tão bem, ainda que de modo tão desnecessário.  Se por um lado é frustrante saber que sei tão pouco sobre meus próprios desejos, por outro, o cheiro da liberdade de não pertencer a quem quer que seja me reconforta. Pertenço a mim mesma, ao meu corretor do Microsoft Word, aos meus desejos inconcretos e às minhas escolhas irracionais – ainda sou uma nômade meodeos. Tenho mesmo plena consciência de que pertenço às minhas escolhas; e isso me basta. Talvez, finalmente, eu tenha encontrado algo que realmente me baste. Tchaikovsky, Swan Lake, act II
Retorno ao nosso apartamento – sua presença através da janela impede que este seja apenas meu espaço. Já não o vejo mais, agora posso apenas imaginar o que você está preparando na cozinha. Dr. Lacerda diz que eu projeto minha vida em você e acabo não vivendo minha própria. Às vezes me pergunto porque ainda me sento naquele divã.

Eu realmente gostaria de me concentrar no meu trabalho, terminar as ilustrações pro livro da Lúcia, pagar as contas atrasadas ou simplesmente ter uma boa história pra contar. Mas não consigo. A ideia de que eu e você estamos atados às nossas escolhas me dá a sensação de que, na verdade, não existe liberdade. Se antes sua vida chata de classe média bem sucedida inspirava meus desenhos, agora estou tão estagnada quanto você, esperando mais um capítulo da sua desinteressante rotina passar pela minha janela. Assim eu não preciso escolher mais nada, não preciso me ocupar de pequenas decisões como a cor dos sapatos ou o plano de internet; posso então ser parasita silenciosa e empoeirada de algo que acredito ser a realidade.

segunda-feira, 24 de março de 2014

"Nós não somos nada disso"


Cheguei a Salvador pra ficar umas semanas, pra visitar minha amiga Melissa, pra não pensar na cidade maravilhosa argh e seus homens incognoscíveis. Sempre quis usar essa palavra. Fiz check-in no albergue mais barato, nos arredores da Rua São Francisco, bem no Pelourinho. Meu primeiro drink foi um pouco longe de lá, no Bar das Ricotas – e achei o nome tão engraçado. Ali mesmo consegui um emprego. Relações Públicas, mas daquelas que tem que servir mesa, às vezes. As semanas se transformaram em meses, anos... larguei o bar, casei, separei, abri negócio, fali, descolei pensão, e vou levando a vida – pq num tá fácil pra ninguém. Dez anos de Bahia. E vc me pergunta e dai¿ Bom, tenho mesmo uma coisa pra contar.
Conheço uma menina que tem um blog, esse aqui que vcs tão lendo, ela é do Rio e topou me ajudar. Ela até já escreveu umas histórias minhas, dos tempos de carioquice. Mas eu, eu encontrei uma história, umas risadas e uns poemas baratos num bloquinho de notas. Sei não porque, mas me bateu uma baita vontade não de voltar pro Rio, mas de devolver essas páginas. Aí minha nêga linda, escritora do blog, disse que era pra eu contar como achei e o que achei, que aí ela divulgava e via se alguém se pronunciava. Disse também que não ia cortar nada do que eu escrevesse, nem meus erros. Ai! Eu que já trabalhei em livraria, que já gostei de brincar com as palavras... eu... podendo escrever do jeito que quisesse, com todas as falhas gramaticais que sempre me perseguiram. Eu to aqui, meu povo, me economizando uma vida em análise.
E como foi¿ Olhe, o dia tava lindo demais pra ser desperdiçado no mercado municipal, mas... como anfitriã de gringos que não conheciam Salvador, tive que largar meu camarãozinho na praia e bater perna – pq num tá fácil pra ninguém. Praticamente cruzamos a cidade pra inauguração do Brechó de La Borges, da Neusa, na Barra. Um evento. Uma coisa. Eis que vejo uma bolsa de couro, usada, triste num canto. Apaixonei. Levei pra casa e quando tava dando aquela faxina básica dei conta de um buracão no forro e, dentro dele, um bloquinho pequenininho de notas. Comece a ler. Comecei a chorar. Lembrei do apartamento da vovó, da minha gata chamada Raposa, do Juvenal (e de tantos outros) e das viagens que fiz com minhas amigas. Pensei que queria conhecer essas meninas da história, que só aparecem com as iniciais dos nomes, ou apelidos, sei lá. Então tá aqui, copiadinha, toda a trajetória. Copiei do jeito que achei. Se vc que tá lendo isso, souber quem são elas, pfv, entre em contato. Eu pago a vinda delas pra cá, dou casa e comida. Só não adianto o príncipe pq num tá fácil pra ning.

* * *

Julho e gelo em São João Del Rei em 2008. Tenho uma péssima caneta, um balaio de ideias inexpressivas (ou seriam inexpressáveis¿¿) bem no meio da cabeça, + um início de viajem agradável e meia dúzia de sorrisos no estado de espírito. Minha expectativa com grandes emoções é praticamente nula, assim, vou degustando o movimento das horas, sem afeições ou pontadas de angústia. Na verdade, me sinto como queria: “em férias”, sem pensar na avalanche de coisas a resolver no Rio e plena de sensações de gata ronronando na grama de manhã, com cócegas de sol. Ligar pra velha. Trocar sapato – Zara.
Estar sozinha, tomando café na cantina da UFSJ, torna essa coisa de observar o comportamento humano muito engraçada; acabo sempre com a mesma pergunta: como nós podemos ser tão ridículos¿ e isso não tem nada a ver com o rapaz que passou se gabando do futebol. Mas às vezes tenho preguiça de mim mesma. Ouro Preto. Bruno da República Xananã de S.J.delR. Recruta Zero. Lunático. Procurar. Saudade da Mamãe. TX. Rep. Guapo. Em frente post gas. Mixuruca. Barra bairro. Próximo a estação. Fernanda. Vanessuda. Priscila. Rod. B. Horizonte.
Tudo começou com o estímulo do rapaz de Viçosa. O ENEH é lugar pra muitas coisas, menos pra confiar num cara que vc conheceu bêbado num fim de festa, pouco antes da tubulação de esgoto estourar e... nem preciso continuar. Sim, não confiei. Mas. Pensei que não custava nada conferir as informações. E assim, eu, M., J., G., F., Mb., e V. partimos em busca da tal estrada -poeira no lugar dos tijolos amarelos- pra pegar a tal carona até Ouro Preto. As demais letras do alfabeto não gostaram da ideia, acharam perigoso, que éramos malucas, etc. etc. Claro que estavam todos certos. Claro que fomos de todo modo. P. e Mll foram radicalmente contra. Bom, Mll. estava mt bem ocupada em sua barraca, e P., deveria ter ido com a gente. Como não sabíamos o que enfrentaríamos, paramos no mercado, abastecemos uma bolsa com suplementos necessários -absorventes, cachaça e biscoitos-, tomamos um bom café da manhã, às 2 da tarde e, depois de quase uma hora andando, chegamos à rodovia e à primeira baixa: F não seguiria viagem.
Na estrada tinha uma fila com uns meninos paulistas (e seus dedinhos), também pegando carona. Mas, poxa, ninguém parava pra eles. Então, nós, moças-protagonistas, fizemos sinal e embarcamos todos. Todos. Até umas outras meninas que foram surgindo. Até a noite começar a querer cair. V. e Mb. conseguiram ir antes de começar a questionar. Eu, J., M., e G., começamos a pensar em desistir pq 1º teríamos que ir em dupla. É, tem isso, não entraríamos na boleia de um caminhoneiro sozinhas. 2º ninguém mais estava parando, até aquele gol azul, mais velho que eu, encostar: Bruno, nosso redentor. Rapaz do bem, indo sozinho pra Congonhas, disse que levaria as quatro até lá, de boa, que era tranquilo ir de lá pra Ouro Preto, pertinho, ele disse.
Mas, espera, o que estamos indo fazer em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿¿¿
Bruno, fofo, nos indicou uma república pra passarmos a noite, e confirmou que era muito tranquilo voltar de carona pra São João. [NOTA MENTAL: nunca, nunca, nunca, nunca mais confiar em algum gatinho-gente-boa que vc conhece há 10 minutos. NUNCA] Claro que nós não confiamos. Mas também não sabíamos da distância, não só entre intenção e gesto, mas entre as duas cidades, nem que não tinha ônibus direto, nem que teríamos que parar em Ouro Branco, nem que eram quase meia noite. [A BOA É NUNCA, NUNCA, CONFIAR EM NINGUÉM, a menos que o Espírito Santo aparece e diga “tá ok”, ou algo do tipo]. O fato é: confiávamos uma na outra, confiávamos que acontecesse o que for, estaríamos juntas, pra gritar, ou pra rir.
Bruno nos deixou na rodoviária de Congonhas, uma da manhã. Como faz p pegar carona na estrada¿ Como faz pra pagar a passagem se todas estavam duras¿ A ideia era pegar um Bus baratinho, descer no tal do trevo e pegar o tal do outro bus, NO MEIO DA ESTRADA, q tava saindo de Ouro Branco em direção ao Preto (quase poético). Como faz pra ficar de madrugada na estrada esperando busss¿ Nesse conflito, com todo mundo da rodoviária ciente de nossa situação, porque é claro que ficamos melhores amigas de todos que esperavam bus ou carona, eis que um cara se apresenta. “Oi, eu sou o Egg, sou policial, e posso levar vcs em segurança”. Egg não tinha cara de bons amigos. Como faz¿
Uma hora depois, descemos no tal trevo, na total treva da noite, passando por uma mata (ou grama, talvez), sem qualquer iluminação. Lembro de andar olhando sempre pro chão, pra ver se achava uma pedra, pro caso do Egg fritar. Passado o susto, pegamos o bus certo, Egg era, de fato, um bom amigo-de-emergência e chegamos bem em Ouro Preto. Mas espera, o que é que é que é que é que a gente tá fazendo em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿¿¿
Saímos da rodoviária, na madrugada, num frio da porra, em busca da tal república que Bruno indicou: a TX, república federal masculina (será mesmo¿). O segurança tinha explicado o caminho e de fato foi tranquilo chegar. Acontece que o tal Recruta Zero, amigo do nosso amigo, já tinha se formado há mais de um ano, e ninguém conhecia nenhum Bruno, e nenhum rapaz de Viçosa. Mas, não sei se pela nossa cara de fome-frio, ou se porque era assim mesmo a vida na cidade das ladeiras, os meninos da TX nos derem abrigo. Nos deram também bebidas, na esperança de que déssemos alguma coisa a eles, mas no fim da noite dormimos super agasalhadas, as quatro, no mesmo quarto, cada uma em uma cama que parecia divina. Nos despedimos e agradecemos na manhã seguinte, porque daríamos uma volta na cidade e voltaríamos pra São João. [qual o nome deles]
Pra economizar no almoço, comemos um pão de queijo e fomos bater perna. Antes, ligamos pros nossos pais, no Rio, pq somos malucas, mas nem tanto, só que não conseguimos falar com o restante de alfabeto que ficou no ENEH de verdade, seus celulares não funcionavam de modo algum. Na rua Direita (caraaaaa toda cidade tem uma rua direitaaa), bem no meio, encontramos V e Mb, que tinham pagado hospedagem numa república particular feminina, na tal da Barra. Elas estavam indo de trem pra Mariana, cidade aqui perto, mas o trem era caro. Seguimos descendo a Direita até que eu vejo uma plaquinha “TATOO” e digo: “partiu fazer uma tatuagem¿”. G e M toparam na hora, J, com alguma sensatez, hesitou, mas acabou indo. Como pagamos a tatuagem¿ Negociamos! Preço mínimo: de R$70,00 pra R$40,00, em cada. Descobrimos que G. tinha um cartão de crédito. G: nós te amamos muito, a gente jura que paga depois. Pedimos um PF num restaurante, pra ver se conseguíamos dividir, economizar; acabamos passando horas no tal restaurante, entre histórias secretas do ifcs e uma tese sobre a coruja da Bruxonilda.
Tatuadas e minimamente alimentadas, duas ruas semi-percorridas na cidade histórica, o que fazer¿ Procurar o bar mais próximo, claro. Entramos no Barroco (aparentemente um clássico de paredes rabiscadas), onde deu-se a primeira parte das “Confissões Sexuais”, com revelações surpreendentes. As imagens são impressionantes. Tem certeza que não doeu¿¿¿ Como faz pra pegar carona bêbada¿ Já anoiteceu¿ Onde vamos dormir¿ Os rapazes da Diretoria. Os intrometidos da Antares. No Rio tem puta, pagodeira e funkeira, e nós, NÓS NÃO SOMOS NADA DISSO. Noite na rep particular masculina, casa amarela, o cão chamado Bino, medo. VAMOS EMBORA – linguagem labial. Pedrinho, tarado inconveniente, papo reto. M. pseudo-encoxada. S.
O que a gente tá fazendo em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿¿
Aquela noite foi a pior. Não conseguimos dormir, de frio. De medo dos caras entrarem no quarto. Medo do bicho papão. Sei lá. Medo da história, incessantemente evocada naquele lugar, naquele quarto. O quarto a Bruxa de Blair.
Raiou o sol. Saímos correndo. Decidias a abusar do cartão de crédito de G., fomos pra rodoviária, nada de carona, nada mais de aventuras. Não tinha ônibus. Comprar calcinha. Bom, vamos tomar um banho. Era R$5,00. Dissemos que só iríamos fazer xixi. De graça. Tomamos banho escondidas. Saímos de lá um pouco refeitas e decidimos tentar mais uma carona. Foi mais por desencargo de consciência, ninguém mais queria brincar de aventura. Ligamos pra V e Mb, mas elas já estavam voltando, pegaram o ônibus que a gente perdeu. Ligamos pros nossos pais, poq, somos responsáveis, mas ainda não conseguíamos contato com o alfabeto, vivendo outra realidade em São João. Decidimos conhecer Mariana e depois pensar no resto.
Demoramos mais tempo para chegar lá do que para conhecer a cidade, que só tem uma praça e um PF baratinho. Comemos, tiramos foto na pracinha com o coreto e voltamos. Nisso, no caminho de volta, no meio daquela paisagem arrebatadora, no charme que só o frio das montanhas tem, M. lança a hipótese de que nossa barrinha da sorte estava acabando. Sim, aparentemente temos uma “barrinha da sorte” que é renovada a cada evento ou pequena aventura da vida, a nossa, que então contava a soma das quatro, já deveria estar no fim... Chegamos à rodoviária e a uma “crise conjugal”: pegar outra carona¿ usar o mágico cartão e ir baldeando, de cidadezinha em cidadezinha¿ esperar o próximo bus, que sairia na manhã seguinte¿
O fato é: estávamos (estamos) presas em Ouro Preto, como os caras naquele filme O Anjo Exterminador. Tiramos uma foto, na igreja perto da rodoviária, para um dia colocarmos num álbum com a legenda: Buñuel. Compramos a passagem para o dia seguinte mesmo. Ora o que fazer. O que fazer¿¿ Então, levando em conta que eram umas 18h, o jeito era procurar o bar mais próximo. Andamos sem destino, sem querer subir muitas colinas, e encontramos um barzinho super charmoso, com um preço decente, super quentinho. Resolvemos ficar. Confissões sexuais pt 2. Momento escatológico. Cerveja enviada pelo cavalheiro da mesa ao lado. Quem¿¿¿¿ Edmilson, o simpático. A trilha sonora da máquina. “M. é uma mulher suja”. O cavaleiro se apresenta: é dada a largada. E os pulinhos de J.¿¿ “Mas, é doce¿”. Seu Jorge. Ele usa aliança. Quem¿¿¿ Qm é Daniel¿¿
E agora: estamos aqui, ainda no bar. E nem sei o nome do bar ou da rua. O dono do bar, que achávamos que fosse só o garçom, ouviu a gente comentar nossa pequena odisseia e ofereceu abrigo. Disse que podíamos dormir aqui. Aqui dentro, olha que incrível! Claro que tem um segurança que dorme aqui também, mas tá de boa. As meninas tão dormindo já. Ou fingindo. Descolaram até uns colchonetes pra gente. Cara lá fora tá muito frio. To aqui pensando que se eu deveria ter seguido o cara que ofereceu as cervejas... tinha tempo que eu não ficava com um cara gato assim... Mas também... largar as meninas aqui e ir desbravar as ruelas de Ouro Preto com um desconhecido... náaa. Tivemos muita aventura nos últimos dias. Ah, eu podia escrever algo melhor. No Rio. Depois do Projeto.
O que a gente tá fazendo em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿ Tentar resp isso qd voltar pro Rio.
Escrever roteiro qd voltar pro Rio.
Escrever projeto de monog. qd voltar pro Rio.
Trab. Am. III, prova Br I. Merda.
Mandar e-mail pro preto gato de ouro preto.

* * *



Oi, voltei. Alice, escrevendo de Salvador, terra mais linda, bem em 2014. A história é essa que vcs leram. Tem umas outras coisas anotadas no caderno; quer dizer outras histórias. Será que ela e as outras conseguiram voltar pro Rio¿ Tô pensando aqui que se ninguém se manifestar, se ninguém souber o paradeiro dessas meninas, dessa história, vou mesmo é transforma-la num roteiro. Escrevi esse pouquinho aqui, copiei essas palavras todas delas, e me bateu uma baita vontade de escrever também. Gostei dela. Claro, tadinha, era só um rascunho, sei, mas ela escreve como eu queria escrever, tadinha. A gente se parece. Sei lá. De repente uso mesmo as ideias do caderninho. Achado não é roubado. Sabe como é... num tá fácil pra ninguém. E eu to aqui, bem tentando devolver, ou tentando conhecer, sei lá. Beijos e abraços a tod@s.

sábado, 2 de novembro de 2013

DENTRO DA CANÇÃO SELVAGEM

Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Ricardo repetia essas palavras a si como um mantra para a salvação eterna, para a danação eterna. As cartas do baralho cigano tinham mostrado um homem de negócios em seu caminho, sucesso na carreira, uma viagem, dinheiro, paz e até mesmo um novo amor, tudo isso “num futuro próximo”.
E não importa o tamanho ou intensidade do ceticismo nosso de cada dia. Acredito piamente que previsões feitas por pessoas fantasiadas, e fantasiosas, sempre embutem um tanto de esperança nos frágeis corações que se deixam passar pelo minucioso processo investigativo-divinatório de tarólogos, astrólogos e afins. Digo frágil porque pessoas como Ricardo, que se encontram em alguma das inúmeras encruzilhadas da vida, constantemente acompanhadas por incertezas trabalhistas e amorosas, costumam carregar um semblante débil, dispostas a tomar para si respostas metafísicas para questões de ordem pragmática.
            Ricardo havia feito de tudo para conseguir aquela vaga, que lhe salvaria a vida, as finanças, as hemorroidas, os hematomas, os ossos quebrantados, a pele curtida. Havia feito de tudo para fugir da existência miserável que perseguia sua sombra, sem sombras de dúvida. E agora José? Drummond não viria para redimir as coisas, ou para explicar as moscas que rodeavam suas ideias.
Quando se candidatou à vaga, Ricardo estava de mudança, ainda que não soubesse ao certo onde iria morar. Tinha uma semana para se livrar de um apartamento cheio de mobília, lembranças e a sensação de uma vida interrompida. Espalhou suas tralhas nas casas dos amigos mais próximos, jogou um bocado de coisa fora; desmontou-se. Resumia-se, então, todo ele, a uma mochila, um vasinho de espada-de-são-jorge, uma estante vermelha e um quadro com um pôster do Magritte em preto e branco. Inscreveu-se no site da empresa numa lan house, com o mochilão apoiado no balcão, minutos antes de fechar um contrato informal para alugar um quarto em uma casa de hippies anacrônicos, bem no centro da cidade. Na sequência, digitou um sms para Renata: ainda n terminei o cap 2, mas pelo avanço d ontem acho q até o final do dia rola. E aí? Com todas as merdas que estavam acontecendo, gostava da ideia de ter uma namorada, mesmo que de maneira casual.
Leu a resposta enquanto comia um joelho com refresco de caju: Pois é.... eu tenho uma sugestão: a Ju vai comemorar o aniversário dela hj "Casarão 70", na Bento Lisboa. Pelo q entendi vai ser uma festinha tranks, tipo música ao vivo, de graça. Partiu? Bjssss. Leu a resposta e quase perdeu a fome pensando por que, meus deus, por que as mulheres escrevem tanto?... Como dizer que eu só quero tomar uma cerveja, abraça-la a assistir um filme explosivo? Melhor não dizer nada. E não disse.
A casa dos hippies era imunda, tinha quinze cachorros, um cágado, dois gatos, e nenhuma faxineira ou diarista, pelo que lhe informou Tomás, o gerente pancado que o recebeu e o acompanhou ao tal quarto. Em poucos dias Ricardo descobriria que Tomás fechava o registro da água para economizar, deixando os banheiros intransitáveis com todo o tipo de odor que o corpo humano pode produzir, que além das pulgas a casa era enfestada de baratas, que passeavam tranquilamente por toda cozinha, que o casal do quarto ao lado protagonizava agoniantes cenas de violência doméstica, que metade dos moradores passava o dia inteiro no sofá da sala fumando um e bebendo um chá. Era o único lugar que ele tinha, o único que podia pagar, o único que conseguira em uma semana.
Uma vez instalado, tratou de mandar notícias aos amigos fiéis que nunca lhe perdiam de vista, por mais que ele se escondesse. O e-mail foi rápido e honesto: A vida anda boa, uma vez que ainda não me matei... as novidades são: não tenho um emprego para o próximo ano, minha tese insiste em se mostrar cada vez mais complexa e, ao mesmo tempo, incompleta, além disso, só a perspectiva de morar com meus pais em Vassouras me causa ânsia de vômito, estou enclausurado em três metros quadrados de paz e ar-condicionado, tendo por companhia minha insana consciência que martela as mais absurdas verdades e os mais dolorosos delírios e, assim, no caos, vou tentando escrever e não enlouquecer por completo. Releu o texto algumas vezes antes de enviar e decidiu que era melhor jogar limpo mesmo.
Na terceira vez que sua mãe ligou ele resolveu atender. Estava aos prantos porque ele não dava noticias, porque o celular dele vive desligado e dizendo que ele nem sabia que a avó centenária estava internada e que seu pai... e que... e que... já não ouvia mais. Saiu de casa em direção à biblioteca e, porque sua vida não fazia sentido mesmo, pegou um papelzinho que dançava no ar, exibindo-se pela Presidente Vargas como que por encanto. Ele achou bonito o papelzinho rosa-enjoativo rodando no ar, na hora lhe pareceu muito semelhante à sua própria vida. Era o anúncio de uma cartomante que atendia ali perto.
Aquilo pareceu tão bizarro que pensou a respeito. Sua vida estava tão bizarra, que ousou consultar a pseudo pitonisa do Saara. Afinal, que mal faria? Que mal faria a uma alma aflita, o conforto de incensos e pequenas sementes de esperança? Pode parecer exagero meu, mas acho que aquele foi o maior erro de Ricardo. Contudo, se apostar sua perspectiva de vida nas palavras de uma desconhecida lhe pareceu razoável, que acerto poderia obter aquela cabecinha em meio à sonoridade carioca, sob a luz aturdida e paralisante de dezembro?
            Ricardo voltou ao lar hiporonga impactado pelas previsões de vitória. Tanto que nem mesmo estranhou quando o gerente declarou em alto e bom som que era michê e recebia senhoras (ditas “patrocinadoras”) naquela casa nojenta – dizia aquilo porque precisava montar um esquema com os outros moradores da casa para as próximas visitas. Ricardo consultou diversos oráculos através do oráculo-mor, Google, e confirmou que seu mapa astral era digno de um grande estadista, que seu horóscopo chinês ressaltava suas inúmeras qualidades de bom guerreiro, e que sua numerologia para o apocalíptico 2012 era extremamente favorável.
De alguma maneira, aquilo gerou uma sensação de bem estar explicável apenas através de algum complexo aparato teórico da psicanálise. De uma hora para outra Ricardo era um cara de sorte, que exercia sua anima de maneira saudável, tinha boas perspectivas de terminar sua tese em paz e conseguir um bom emprego, como uma espécie de recompensa por todos os perrengues enfrentados ao longo daqueles quase trinta anos.
Sob tal estado de espírito respondeu aos amigos queridos: Hoje acordei melhor... pensando que essa existência de merda é, com ou sem gozo, passageira, e que com ou sem vontade de existir, com ou sem "vontade de potência", the show must go on, e assim que eu defender a tese vou sair do Brasil, devo ir para Buenos Aires, Madrid, Dubai, sei lá, mas tenho certeza de que Pangloss estava certo e tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis... risos. Devo trabalhar em alguma coisa na minha área mesmo, mudar de ares... que sabe me casar?
            Talvez pela infelicidade da citação no e-mail, ou por capricho do universo, ou pela canalhice que rege alguns processos seletivos, ou simplesmente pelo fato de Ricardo não ser bom o bastante, ele não conseguiu aquela vaga. Nem a outra que tentou na semana seguinte, nem foi classificado no concurso público que tentou alguns meses antes e que só agora saia o resultado, nem aquela outra para o qual havia sido indicado pelo doutor fulano de tal. Nada. Nem havia no quarto infestado de pulgas sua amada guitarra com a qual gritaria uma canção desesperada, uma canção vinda de dentro da canção selvagem que vibrava e regurgitava em cada célula do seu corpo estendido no chão feito detrito.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Repetia a si como um mantra para a salvação eterna, para a danação eterna. As paredes do quarto tão pobremente mobilhado careciam de sentido, as sacolas no chão, espalhadas como praga, tão pouco tinham razão de ser; com os livros deveria limpar o rabo, com as roupas deveria fazer as velas do barco, que teria como base a madeira da estante vermelha e o armário da loja vagabunda. Por onde andaria Renata àquela hora? Por que fazia sol ao redor da praça? Por que as outras pessoas conseguiam sorrir? Por que as outras pessoas pareciam confortáveis em sua condição humana? Ao menos pareciam...
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Era só uma vaga no mercado de trabalho... Crianças continuavam sendo escravizadas em Dubai, o preço do café continuava a disparar no Rio de Janeiro, bolivianos continuavam a invadir São Paulo, pessoas continuavam a ocupar Wall Street, velhos barrigudos continuavam a peidar, mulheres barrigudas continuavam a parir. Não havia conseguido a vaga, mas e daí? Deveria, por isso, matar Madame Rigoletta? Deveria, por isso, se matar? Deveria, por isso, o mundo acabar?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Arranjaria outra, melhor ou pior, mais ou menos digna, e o mundo não se alteraria por isso, a ordem das coisas continuaria a mesma. Por que então o desespero? Por que a sensação de que a vida, num átimo, havia perdido o sentido, total e completamente, com todas as redundâncias que isso pode suscitar? Uma pessoa a mais desempregada, uma pessoa a mais fudida, uma pessoa a mais deprimida e concordando com cada vírgula de Sartre. E daí, Ricardo?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Tinha um enorme relógio na parede que não parava de tiquetaquear de demonstrar que a vida seguia ininterruptamente com ou sem a maldita vaga com ou sem a porra de um colo de um consolo de uma droga anestésica qualquer com ou sem mim com ou sem Renata ou seja lá qual for o nome dela com ou sem um ou vários deuses e assim os ponteiros despregaram dos números e ficaram içados girando como se dizendo-se onipresentes como se o tempo em si fosse o único deus existente como se as mazelas daquela forma de vida encolhida humilhada e ofendida por causa de uma merdinha de vaga significassem poeira estrelar lixo espacial prestes a se perder e a vagar pela eternidade a esmo como uma marca de Caim amaldiçoando cada tentativa futura cada tentativa furtiva de progresso como se aquela vaga imbecil não fosse a coisa mais importante na vida daquele ser humano desprezível e assim os ponteiros seguiam zombando daquilo tudo zumbindo com os acordes de metal que tentavam aclamar o ambiente tenso pesado estéril
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Sentia uma dor física em algum lugar entre o pulmão e o estômago, entre algum ponto que ia da sola dos pés até o couro cabeludo, queria que não houvesse ninguém por perto, mas o quarto estava cheio de ponteiros abusivos, de pessoas queridas, de fantasmas, de inimigos, de familiares, de amigos que te dão tapas na cara, de amigos que te expulsam de casa, tudo sem mais nem por que.
Resolveu que seria melhor ler alguma coisa para se acalmar, mas toda aquela água no rosto deixava a visão turva, e as palavras na tela do computador pareciam símbolos místicos, códigos extraterrestres. Saiu, então, para caminhar, ainda que fosse preciso fazer uso da velha bengala, guardada nos mais profundos baús de sua  memória. Pela rua havia tanta gente... tanta gente feliz... tanta gente vivendo com ou sem uma importante vaga... Como era possível aquelas pessoas não reconhecerem uma alma aflita? Como era possível ninguém distinguir a angústia insuportável, explícita nas chagas sangrentas que pululavam dos braços frouxos? Como ninguém deteve aquele anjo caído?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... sussurrou essa ladainha enquanto caminhava da Biblioteca Nacional até o Bar do Adão, enquanto passava por rostos conhecidos até reconhecer o meu, sentada, sozinha, revisando um artigo e tomando uma cerveja. Parei de ler. Ele parou de falar. Bebemos um pouco. Suas mãos tremiam e eu não sabia o que fazer, embora não soubesse o que estava acontecendo. Eu não queria saber, não queria fazer parte daquilo, não queria sentir pena, medo, raiva, não queria sentir nada. Ricardo via uma chuva fina de meteoros rasgando o toldo, sentia cheiro de enxofre, sucumbia a calafrios por conta do furacão que se anunciava, repetia em portunhol chinfrim as profecias maias e, por fim, pediu uma Nega Fulô.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Essa auto piedade exacerbada, essa ideia fixa de que o mundo estava realmente se acabando por causa um único revés (ou pelo apanhado de uns poucos reveses) me deixava louca, conforme Ricardo a apresentava, paulatinamente. Eu não queria aquela realidade... não daquela forma, goela abaixo, sem atenuantes, justificativas prévias ou apenas luzes florescentes que lhes conferissem algum sentido. Sim... a eterna e inútil busca por sentido qualquer... Eu ouvia aquele conjunto de mínimas catástrofes, de acontecimentos ordinários e simplesmente não decidia o que pensar sobre eles. A vaga, a cartomante, os ponteiros... Suas falas eram entrecortadas por suas alucinações, que por sua vez, me pareciam tão verídicas que eu me sentia em uma superprodução estadunidense. Por dois segundos considerei segurar suas mãos e fugir do tsunami, procurar o bunker mais próximo, encontrar o messias mais adequado e esperar pelo pior ou pelo melhor dos mundos possíveis, candidamente.
Também quis berrar um foda-se, quis compor uma melodia atenuante para meter bem dentro da canção selvagem, que ele persistia em destilar entredentes. Paguei nossa conta e ofereci carona, abrigo. Ricardo me sorriu com impressionante lucidez, disse que passaria na tal casa caótica, pegaria suas coisas e passaria uns tempos comigo. Fiquei observando enquanto ele caminhava em direção ao ponto de ônibus. Era impressionante como daquele modo, de costas com uma mão no bolso, ele era exatamente o garoto que conheci no colégio, tantos anos antes. Tive vontade de correr e abraça-lo, mas contive o estranho e súbito instinto maternal.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... sei que repetiria essas mesmas palavras até o fim dos tempos. Até que parasse de doer, até que sua cabeça parasse de chover e trovejar, até que elas também perdessem o sentido na hecatombe psicodélica que se afigurava na fumaça da metrópole, até que tivesse início uma existência automática, até que lhe dessem a pílula lilás, até que novamente encontrasse o coelho branco idiota para lhe cuspir na cara.


Nunca mais tive notícias de Ricardo, ou de sua canção selvagem, ou do mundo que se acabou com ele dentro. 2011 foi um ano estranho e nublado, mas 2012 seria muito pior.

domingo, 27 de outubro de 2013

A história do gozo


          É incrível como a Baía de Guanabara é ainda mais bonita vista de Niterói, né?! Quer dizer, daqui também é lindo, mas sei lá... Mas esse não é o ponto. Não, eu não vou ficar falando daqui da janela. É que tem um tempo que eu não vinha aqui... tinha esquecido como é bonito. Bom, pouco importa a paisagem quando o gozo da transa matinal escorre pelas suas pernas e você só pensa em como começar a conversa que vai vetar aquele sêmen àquela e qualquer outra parte do seu corpo. Né?! Quer dizer... especialmente se foi uma boa transa. Tô aqui falando em paisagem, pensado na vista da varanda da casa dele, mas podia ter sido em Bangu, Botafogo, Paris, daria no mesmo. Mentira. Passada em Paris, a história teria esse charme que a gente gosta de dar ao estrangeiro. Ah, Dr. Lacerda, você me pediu pra ir direto ao ponto e agora quer preâmbulos.
          Eu queria terminar, então terminamos. Tá. Eu queria só conversar, terminar, ganhar uma declaração de amor beeeeeem brega e aí, de repente reatar, isso num espaço de duas horas, com direito a cachaça. Não, Dr. Lacerda, não se trata de projetar minhas ficções... eu só fiz um plano... todo mundo faz planos, milhares deles, cotidianamente. Mas então, eu tava segura em relação a isso, à minha decisão de terminar o namoro. Como assim eu não queria terminar?! Pois se eu tinha preparado a roupa pra ocasião, o rímel, o delineador, o discurso “te-amo-mas-tô-confusa”, tudo! Eu não crio “uma realidade paralela na qual as coisas são resolvidas através de conflito e drama”! Eu hein. Achei que seus “diagnósticos” vinham depois do meu relato. Eu não estou sendo sarcástica, nem tô negando porra nenhuma. Ok... continuando.
         É...
         Eu...
        Ah, sei lá se eu ainda quero falar disso, dele, da vida. Tenho uma infinidade de trabalho atrasado... e.... Num sei. Pois é, né, eu deveria gastar a grana dessa hora fazendo o cabelo. E porque te parece importante que eu fale sobre isso? Sério, Dr. Lacerda! Engraçado que eu nunca reparei que fico suspirando quando tô preocupada... Será? Tá.
Quando eu saí da casa dele só pensava que eu tinha levado meu primeiro pé na bunda, que eu tinha sido, de certa forma, humilhada, que eu tinha dito um monte de desaforos descabidos de mulher recalcada e que o Rio fica tão lindo nublado. Agora que já passou um tempo, vejo que os desaforos não eram tão descabidos, que de fato eu queria manter um namorado, não ele, especificamente ele, o Homem H.
         É sério. Tá.
        Eu levei umas 13 horas pra chegar na casa dele. Ah, carro quebrado, mecânico gato, divagações sobre uma geração que não consegue se encaixar profissionalmente nem se engajar politicamente, uma queimadura na mão e muita revisão dos argumentos pró e contra o namoro. Mas porra, é só um namoro... Dr. Lacerda, você acha isso mesmo...? Ah, isso não deveria tomar tanto tempo na minha vida, na vida de ninguém... O marcante mesmo, o impacto da coisa tava no gozo que escorria. Quer dizer, de repente eu nem estaria aqui dando tanta atenção a isso se... Ah... Tá.
     Aí... aí eu cheguei lá. Puta da vida com a viagem, cansada, genuinamente confusa em relação à importância que eu dou aos meus sentimentos, querendo uma cerveja, um cigarro e um cafuné. Não queria pensar em nada, decidir nada. Aí conversamos. Sentamos na varanda e, olhando sempre pra Baía, nunca nos olhos, conversamos como dois bons amigos. Falamos da viagem, das divagações profissionais, do Flamengo, do Fluminense, da Copa, do Cabral, da menstruação. Falamos até às 5 da manhã. Até a gente ir dormir. Não, ele parecia normal... quer dizer... agora acho que ele já parecia querer conversar, que nem eu. Acordamos, transamos. Foi bom. Pensei de novo se eu queria mesmo terminar; pensei que eu queria encontrar uma resposta pronta dentro de mim; queria fechar os olhos e acessar um arquivo interno com respostas precisas pras minhas dúvidas; queria não ser humana.
        Ele arrumou a bagunça da madrugada anterior enquanto eu pegava minha caneca de café. Nessa hora, vigiando o trajeto de um barco, sentindo o gozo escorrer pelas minhas coxas, sentindo o calor da atividade sexual ainda percorrer minhas veias, bebendo o café devagar, eu pensava que não dava pra terminar ali naquela mesa de café da manhã fofa que ele tinha preparado. Não dava. Comecei a voltar atrás, a pensar que na verdade tava tudo bem. Foi então que ele me chamou pra sentar na rede com ele, no colo dele. Com os olhos marejados ele me olhava e formava uma ruga na testa e suava e desviava o olhar pro chão e me olhava de novo e gaguejava e suspirava e derretia sob o sol de inverno e procurava alguma coisa ao redor de si e angustiava com mais rugas e suspiros.
           “Não é fácil pra mim te dizer isso...”.
Prontosurtei. Putaquepariusurtei. Putaquepariuesseputoquerterminar. “Que isso, gatinho, fala logo...”
         “Eu andei pensando... é.... acho que... ah, não sei... eu acho que tô um pouco confuso e... talvez seja melhor...”
         “Cara! Que bom que você falou isso! Ai! Vim a viagem toda pensando nisso, pensando se eu quero um namorado ou se eu quero você, sabe? Pensando se vale a pena, pensando que eu nem sei direito o que eu sinto por você... Quer dizer, nem preciso te dizer que eu só não te traí porque tá foda, não encontra homem que  preste, nem pruma transa... te contar que a vida não ta fácil... hahahahaha O que foi?!! Que cara é essa?!”
          “Só achei que sua reação seria outra...”
          “Mas me conta, você tá comendo alguém?”
          “(...)”
          “Fala! (risos)”
          “Não.”
         “Ah, você achou que eu fosse chorar? Hahahahahahahahahaha. Ai ai... enfim, bom resolvermos tudo assim, tudo numa boa!”
       Ah, Dr. Lacerda, que isso foi uma demonstração de imaturidade emocional eu já sabia. Quero entender porque eu sempre saio de um relacionamento trocando farpas, ou aos berros, ou aos prantos ou... hahahahahaha Mais 5 anos de análise?! Tá. Então, depois eu fui beber, óbvio, com o C. em Copacabana. No caminho pro bar, quem eu encontro na rua? Ferreira Gullar! Claro que eu não o conheço... Mas ele sempre circula pelo Lido, cansei de vê-lo por ali. Enfim... achei que seria bacana escrever um poema pro Homem H. É, tive a ideia lá pela sexta dose. Achei um post-it na bolsa e fui escrevendo no táxi e... ah, o C. ficou pouco tempo, tinha que ir pro ensaio da peça, aliás, estreia hoje! Enfim... acabou que eu resolvi visitar meu tarólogo na galeria Ritz. Acabou que ele não tava lá e eu achei meu bilhete muito brega, deixei pregado na porta dele...
      Como assim acabou meu tempo?! Você não quer mais me ouvir?! Mas eu nem falei das coisas importantes, nem falei sobre como me sinto muito melhor agora, solteira. Na verdade acho que é mais um alívio por não estar em compromisso com alguém que eu nem sabia o que sentia s... É claro que a gente sempre sabe quando ama uma pessoa... mas... ah, para, esse lance de que amor é uma coisa complexa é mui... tá, entendi. Só mais uma pergunta... esse tempo todo que eu venho aqui, contando as férias que você chama de “ausências”, eu tenho te chamado de Dr. e talz... Então, Lacerda, você tem doutorado, quer dizer, defendeu uma tese e coisa e tal, ou a gente aqui só tá corroborando um senso comum de tempos passados?