Nossa verdadeira danação está em
conviver com nossas escolhas, diariamente. Não importa se estamos realmente bem
ou mal... há, de quando em quando, a terrível sombra do “e se...”. Mesmo quando
temos a plena noção de que mudada uma frase, desfeito um gesto, então toda
nossa vida seria diferente. Sim, se você tivesse sorrido de volta àquela menina
que fumava no banco de trás do ônibus, três décadas atrás, você não estaria
lendo seu jornal na manhã de hoje. Não estou dizendo que vocês teriam se casado
e agora você seria bem sucedido, ou viúvo, ou um fodido, apenas afirmo,
categoricamente, que sua vida não seria a mesma. O jornal não seria esse, o
café à sua frente teria outro sabor... e por ai vai. Aquele vestibular, aquele
doce inofensivo, aquela esquina que você virou distraído. Você tem meio século
de uma vida da qual não se arrepende, mas pensa, pensa, pensa como seria se
tivesse feito escolhas diferentes. Te vejo daqui. Te vejo agora mesmo. Minha
janela da sala dá pra um dos cômodos do seu apartamento (escritório¿ motel¿
santuário¿ quarto de hóspedes¿), já vi de tudo.
Sua vida modorrenta tem efeito
catalisador na minha criatividade. Isso porque sua inércia em muito lembra
minha própria. Mas também tenho eu quase cinquenta anos e um punhado de coisas
a dizer sobre o mundo. Não que algum dia alguém as vá ler. Não que importe,
mesmo pra mim. Te vejo agora, fitando o espelho do banheiro pensando que sua
escova de dentes custou tão caro, mas talvez seja a hora de troca-la. Preciso
me desprender de você e dessa parte de mim que é ser somente uma plateia. Saio
de casa, caminho por ruas sem calçada e tento viver minha própria vida, sem
pensar em alguém para observar ou em alguém que certamente me observa e lê
agora.
Fumei um baseado. Não muito. Apenas
uns tapinhas. Comi um chocolate com coco, fiquei bem, dei uma volta pela
estrada Ouro Preto-Mariana e comecei, então, a beber Heineken. Agora me bate
uma suave onda de tesão, ouvindo Samba e
Amor, sentindo o sol esfriar no anoitecer marianense, com esse céu
inexplicavelmente maravilhoso. Penso que se a vida é cheia de oportunidades e
possibilidades, elas não figuram nas pedras de cidades históricas e
interioranas. Assim, tenho certeza de que, nesse momento, será impossível
compartilhar o que sinto. Não há como me aconchegar na companhia de um par.
Merda. Agora começa a tocar I`ve got you
under my skin, e essa música nunca calhou tão bem, ainda que de modo tão
desnecessário. Se por um lado é
frustrante saber que sei tão pouco sobre meus próprios desejos, por outro, o
cheiro da liberdade de não pertencer a quem quer que seja me reconforta.
Pertenço a mim mesma, ao meu corretor do Microsoft Word, aos meus desejos
inconcretos e às minhas escolhas irracionais – ainda sou uma nômade meodeos. Tenho mesmo plena consciência
de que pertenço às minhas escolhas; e isso me basta. Talvez, finalmente, eu
tenha encontrado algo que realmente me baste. Tchaikovsky, Swan Lake, act II.
Retorno ao nosso apartamento – sua presença
através da janela impede que este seja apenas meu espaço. Já não o vejo mais,
agora posso apenas imaginar o que você está preparando na cozinha. Dr. Lacerda
diz que eu projeto minha vida em você e acabo não vivendo minha própria. Às vezes
me pergunto porque ainda me sento naquele divã.
Eu realmente gostaria de me
concentrar no meu trabalho, terminar as ilustrações pro livro da Lúcia, pagar
as contas atrasadas ou simplesmente ter uma boa história pra contar. Mas não consigo.
A ideia de que eu e você estamos atados às nossas escolhas me dá a sensação de
que, na verdade, não existe liberdade. Se antes sua vida chata de classe média
bem sucedida inspirava meus desenhos, agora estou tão estagnada quanto você,
esperando mais um capítulo da sua desinteressante rotina passar pela minha
janela. Assim eu não preciso escolher mais nada, não preciso me ocupar de
pequenas decisões como a cor dos sapatos ou o plano de internet; posso então
ser parasita silenciosa e empoeirada de algo que acredito ser a realidade.
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