segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Alex



           Para o bem, ou para o mal, nada acontecia. O cimento das paredes ia esfarelando com o tempo, caindo feito uma minúscula tempestade de areia vertical que só eu enxergava. Já era tarde pra sair carregando tanto peso, as ruas desertas de beleza me inibiam a fazê-lo, mas era preciso ir vê-lo. Devolver os malditos livros, falar sobre nada e tomar um café. Um calor da porra, mas ainda bem. O trajeto até a Central do Brasil leva quase duas horas, partindo do exílio, e envolve caminhar alguns quilômetros de poeira esbranquiçada, enfrentar matilhas que dançam em círculos, cruzar a Ponte de Cristal, escalar um pequeno morro e manter-se de pé, mesmo com toda dor, desespero, choro e Ego. Manter-se de pé até a Central e tentar sorrir depois dessa experiência antropológica.
            Imaginação. Seleciono Buddy Guy, fecho os olhos e creio que nada disso é real. Porque não pode ser. Barracos, casas pela metade, extensos varais de roupas multicoloridas, uma senhora lavando panos de chão numa bacia prateada, terra amarronzada não batida, línguas de esgoto, craks, laranjeiras magricelas, aqui e acolá o pedaço de alguma serra, alguns morros de Mata Atlântica desmatada: todos esses elementos se intensificam sob os acordes da guitarra; e é quase como se meu mp3 funcionasse tal qual um photoshop, um instangran em tempo real, bem na retina dos meus olhos.
    [O ramal Japeri era uma das coisas mais impactantes que já vivi, até conhecer aquele que passa por Manguinhos. Mas essa é outra história]
     O peso que eu carregava não era só o dos tenebrosos livros, era também o das minhas expectativas frustradas, o das reflexões sociológicas inevitáveis àquelas paragens, o da crise existencial cotidiana e chinfrim, mas principalmente, o das perguntas sem resposta. O que eu vou sentir quando ele abrir a porta. O que vai significar meu sorriso se abrindo no compasso de um profundo suspiro, antes do costumeiro abraço fraterno. O que eu vou responder ao “como estão as coisas”. O que eu vou querer quando ele se sentar na minha poltrona favorita, voltejado por pequenas estantes pretas, acender um cigarro e me olhar através daqueles óculos que sempre me fazem lembrar do Mário de Andrade.
     Não nos víamos há uns 5 anos. Eu havia me casado, separado, namorado e viajado o mundo, enquanto ele... ele... não sei. Nunca soube realmente da sua vida, a despeito dos e-mails que trocávamos de quando em quando. Uma vez, numa estação de trem em Barcelona (Francia, talvez), com uma estrutura cinza escuro, abóboda em vidro, pé direito impressionantemente alto – construção que me remetia à modernidade do início do século passado –, eu tentava me perder no entra e sai de trens hodiernos enquanto segurava um postal. Ele estava em Bariloche e eu pensava que não poderia ser mais perto. 
      O cartão era o mais óbvio possível: Gaudí. Rabisquei saudades e sugestões, comentei seu novo emprego (geógrafo?) e perguntei sobre futebol. Fiquei um tempo sentada lendo nossos nomes, cuidadosamente desenhados com minha letra, ouvindo o burburinho animado no espanhol que eu pouco entendo, a pensar como pareciam ridículas aquelas palavras todas minhas. Joguei o postal numa enorme lata para reciclagem de papel, segundos antes de Pierre arrematar um beijo no meu pescoço. Olhando nossos nomes no cartão agora sujo de molho (não tratava-se de um cesto só para papéis? eu li errado?), pensei que, de um jeito ou de outro, estávamos fadados a acabar sempre assim: no lixo. 
      Pierre, Paris, Patê, tudo isso era agora um universo distante ou paralelo, quem sabe não fora em uma outra vida... Olhei para a estação de Marechal Hermes e, através de uma brecha no vidro ultra-arranhado, não pude não acha-la charmosa, não pude evitar a imagem de uma estaçãozinha com os mesmos retângulos e metais de uma cidadezinha do interior da Alemanha – e então Pierre mais uma vez. Outra vida. Sou empurrada e realocada, ouvindo o burburinho animado no português que eu pouco entendo, entre um e outro acorde mais baixo (Celso Blues Boy e um monte de cerveja). Sentia outro cheiro, interagia com outra estética, mas lá estava eu novamente em uma estação de trem a pensar nele. No fim das contas, acredito que saí do exílio não para devolver insuportáveis livros, mas, e apenas, para me livrar de um ostracismo mental contínuo.
         Ele nunca conseguiu me contar muito bem o que estava fazendo da vida; suas mensagens eram sempre sobre como ele estava se sentido, e não sobre o trabalho novo (cinema?) ou sobre quem e o que ele estava comendo. De modo que me acometia a sensação de dialogar com um personagem, com uma ficção, com um homem não de carne e osso, mas constituído todo de emoções e sensações. Sim, eu achava isso um tanto charmoso.
         Manter-me de pé, respirar e resistir ao transporte público urbano era o máximo que eu podia e queria exigir de mim mesma. Eu queria mesmo era fugir, mudar de exílio, chegar na casa dele e ficar, sem hora para sair, sem pressa em ler todas as centenas de livros incríveis que ele colecionava naqueles pequenas estantes pretas, sem nuca desligar a cafeteira. Já que a pauta eram os desnecessários livros – sim, porque certamente ele não precisava deles naquele momento, não tanto quanto eu – resolvi levar também uns contos meus, recitar qualquer coisa e prolongar minha existência ao lado dele, por mais algumas horas antes do fim.
          Mas eu ainda não sabia que aquela seria a última vez.
      Cheguei à Central suada, cansada, pesada, infeliz. Um calor da porra, mas ainda bem. No trajeto até a casa dele, passando pela Marechal Floriano, ia cabisbaixa e taciturna, remoendo meus objetivos naquela viagem. Por que insistir em fazer planos que eu mesma nem sabia se queria cumprir? Na esquina da rua dele parei e observei os bordéis que dormiam. Observei o bicheiro que cochichava. Respirei fundo oitenta vezes e tentei me livrar de toda expectativa pulsante.
           Não conheço mais os porteiros. Lembro que na primeira vez que entrei naquele elevador modernoso também carregava expectativas, outras... Estava vestida para ir a uma festa na qual meu ex ia tocar, verificava se a maquiagem ficara ok, pensava em aplausos e cenas, imaginava quem iria à Gafieira, quem eu iria encontrar. Até andar procurando pelo apartamento 714 eu não pensava nele e em como seria aquele café inaugurador, até que ele abriu a porta e me esperou passar pelo, então infinito, corredor. Quando a porta fechou atrás de mim, já não havia bandinha, rímel, ou qualquer outro homem, além daquele que me sorria.
       Aquele rosto talhado pelos anos e pelos pecados... pecados redimidos a cada abraço, a cada risada... ele nunca teria entendido que seus pecados eram redimidos a cada encontro e respiração? Nunca teria entendido que ele era meu anjo-redentor-pecador-amador? Fundamental. Nunca?
          Logo de cara, joguei os livros em uma cadeira e pedi que ele conferisse se faltava algum. Fiz questão de ser indelicada, de mostrar-me desconfortável, de parecer meio maluca. Que porra foi aquela? E a ideia de ser perfeita e ficar para sempre? Começamos com Jorge Drexler e, no terceiro café, sentamos no chão, agora com o disco novo da Gal; ele deitou a cabeça no meu colo e pediu que eu lesse meus escritos. Mas era sempre assim: de alguma forma misteriosa, ele fazia com que eu me sentisse completamente despida de meus cinismos e discursos cuidadosamente construídos, por isso o desconforto, a indelicadeza. Eu não queria mais me sentir tão despida de mim mesma, de um ‘eu’ que eu formulava e reformulava diariamente.
             Lembrei de um ano novo que passamos em sobriedade e silêncio, naquele apartamento, sobre um lençol azul. E então era tudo novo, tudo encantador.
        Eu queria parar de ler, que ele me jogasse, de novo, naquela cama e decretasse que eu nunca mais sairia, queria sair dali correndo louca pelos bordéis já acordados, queria gritar e chorar da dor que eu estava sentido por estar exilada, e exila-me nos braços dele, e derrubar tudo que havia em cima da mesa, e queimar os inúteis livros, e parar de me confessar a ele, e morrer mais um pouquinho analisando o percurso de uma formiga na parede.
          Não tenho ideia de quanto tempo fiquei divagando sobre essas coisas, até ele me chamar atenção. Entretanto, eu não conseguia mais ouvir o que ele dizia, os convites (?!) que fazia, as sensações que tinha. Minha presença ali, com a dele, já não tinha sentido para mim: roteiro errado, diretor errado, iluminação errada, falas mudas. Murmurei desculpas, o caminho de volta ao exílio era longo. Ao sair, deixei-lhe um beijo casto, colhi um último abraço apertado e voltei pelos bordéis e pela Marechal Floriano, a pensar o que teria feito de errado com ele, comigo, com minha vida.
       Terminei aquela noite ligando para ele de uma festinha nada a ver, em Laranjeiras, pedindo a porra do abrigo, a porra do exílio.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

DIA*



            Sim; o livro estava sobre a mesa. Suspirou ao perceber que já havia verificado isso pelo menos umas 4 vezes. Terminou de organizar sua mochila e foi até o armário procurar algum dinheiro no emaranhado de roupas ali jogadas “como se fosse o cesto de roupa suja lá da lavanderia”, tal qual resmungava sua mãe. Mães sempre resmungam, pesou com um sorriso triste.
            Duas notas de R$1,00 e uma centena de moedas a contar. Começou com as grandes: tinham que ser de R$0,50! Hum... a primeira não, e a segunda também não, nem a terceira ou quarta... Merda. No somatório R$3,85. É, dava para comprar um sanduíche ou um maço de cigarros e uma coca-cola. Perfeito.
            No rádio tocava um rock cheio de poesia sobre dor, perdas e uma doença bizarra. Otávio calçou suas sandálias que, aliadas ao jeans da década anterior e ao cabelo mal cortado por ele mesmo, lhe conferiam qualquer coisa de hippie, qualquer coisa de anacrônico, qualquer coisa que ele não sabia o quê. A música acabou e o locutor gritou “BOM DIA pra você que está sintonizado na rádio do rock!!! São exatamente 06:07 da manhã no Rio de Janeiro! Está entrando no ar mais um....”, um dos 12 gatos que a mãe criava pulou na mesa de desplugou a tomada. Melhor assim.
            Enquanto bebia sua caneca de café forte pensava nas tolices sobre amor que seu pai havia dito na noite passada. Por que tolices? Tinha 20 anos a mais de experiência de vida, sobrevivera à rebeldia pseudo-punk-rock dos anos 1980, usou maconha e meia dúzia de ácidos e, depois disso tudo (ou bem no meio do processo) se amarrou à uma garota CDF com ideias pervertidas, com quem teria dois filhos. Então, porque alguém bem sucedido, que passou por tanta coisa na vida, diria tolices? “Tolices de psicólogo”, pensava Otávio ao bater a porta.
            Mas, para ele, o que era aquela coisa toda de ‘amor’? Certamente, não era o que sentia pela namoradinha, Alice. O melhor mesmo era não “problematizar a questão do eu interior inserido num relacionamento dito estável e maduro”. Tolices. O ônibus veio rápido, juntamente com a sensação de que ele poderia descer no ponto perto do aeroporto, ir para Assunção (tia Deise jurava que, às vezes, eles operam voos ao Uruguai e Paraguai) e de lá começar uma viagem solo pela América do Sul, subindo até o México, ora de trem, ora de carona. Assistiu o sol nascer na Praia de Botafogo ao som de Confortably Numb, pensando porque diabos sempre se imaginava sozinho numa viagem assim. Não havia ninguém com gostaria de compartilhar essa loucura. Ninguém.
            Quando avistou o Santos Dumond começava Breath - na seleção aleatória do Discman, fiel companheiro. Achou que era uma espécie de sinal divino e, por isso, fechou os olhos se afundando mais no banco. Saltou na já então movimentada Presidente Vargas e foi andando sem pressa para a faculdade, sem pressa para as aulas da manhã, sem pressa para os textos não lidos.
            Depois do almoço, conseguiu mais uns trocados com Carlos – o grande amigo – e, mais uma vez sem pressa, caminhou pela já então lotada Rio Branco, em direção à Livraria da Travessa (quem sabe tomar um café?). De repente, alguma coisa chamou-lhe a atenção: havia um mendigo absurdamente esfarrapado, sentado à porta de um banco, com óculos de grau que reluziam ao fraco sol de inverno, lendo o jornal daquele dia (e que dia era mesmo? Certamente uma quinta-feira...). O mendigo, então e imediatamente batizado por Otávio como ‘Orlando’, fez uma careta e fixou-se na página de economia.
            O que Orlando lia? O que acontecia no mundo que ele, Orlando, poderia saber ou entender? O que estava escrito, Otávio? Otávio, que não sabia nem em qual dia do mês estavam, ficou profundamente tocado por aquela imagem: Orlando, o personagem urbano invisível, interagia, de um jeito ou de outro, com uma enxurrada de informações contemporâneas quase completamente desconhecidas por Otávio, o universitário burguês pensante.
Teve vontade de sentar ao lado dele e perguntar qual era a cotação do dólar. Tolices. E de que serviria, a ambos, àquela tarde, a cotação do dólar, ou do ouro. Quem era Orlando? O que Orlando lia? A morte (assassinato?) de Celso Daniel? Um peti vermelho da prefeita de São Paulo (Marta Suplicy?)? Mas era a seção de economia! Especulações sobre as novas medidas do novo presidente (Lula?)? Merda.
Otávio quis guardar Orlando em uma daquelas pequenas redomas de vidro com neve de mentira e coloca-lo em seu quarto, para olha-lo de quando em quando com assombro. A cena era perturbadora e, para dissipa-la, começou a caminhar muito rápido, entre empurrões e esbarrões. Queria sair dali, daquele quadro bizarro que ele não conseguia parar de desenhar mentalmente. Parou na vitrine da Travessa e ficou observando cada centímetro dos livros expostos sem, contudo, enxergar qualquer coisa.
Pensava nas “tolices” de seu pai, tentava lembrar qual era o livro que deveria ler para a próxima aula, queria lembrar de ligar para o Pedro quando chegasse em casa (buscar seu violão!). Qual era o problema de Orlando ler jornal? Por que não deixar o homem em paz? Por que aquela visão o incomodava e exasperava tanto? Talvez aquele fosse o melhor momento para conhecer o Chile, ou parar de tomar aspirina. Quiçá pensar sobre as “tolices” e sobre 'amor' não afastasse da cabeça a intuição nervosa que teve com Orlando.
Não se sabe quanto tempo ficou ali, pensando em nada, tentando não pensar em Orlando. Lentamente levantou os olhos angustiados, e viu uma menina de olhos brilhantes, que lhe acenava e sorria de dentro da Livraria. Uma das coisas que mais admirava em Alice era que ela sempre sabia onde e quando o encontrar.

* Escrito em 2002 (ou final de 2001) e levemente editado em 2012. O texto é cópia fiel do original, salvo algumas correções de pontuação.