Para o
bem, ou para o mal, nada acontecia. O cimento das paredes ia esfarelando com o tempo, caindo feito uma minúscula tempestade de areia vertical que só eu
enxergava. Já era tarde pra sair carregando tanto peso, as ruas desertas de
beleza me inibiam a fazê-lo, mas era preciso ir vê-lo. Devolver os malditos
livros, falar sobre nada e tomar um café. Um calor da porra, mas ainda bem. O
trajeto até a Central do Brasil leva quase duas horas, partindo do exílio, e
envolve caminhar alguns quilômetros de poeira esbranquiçada, enfrentar matilhas
que dançam em círculos, cruzar a Ponte de Cristal, escalar um pequeno morro e
manter-se de pé, mesmo com toda dor, desespero, choro e Ego. Manter-se de pé
até a Central e tentar sorrir depois dessa experiência antropológica.
Imaginação. Seleciono Buddy Guy, fecho os olhos e creio que nada disso é real. Porque não pode ser. Barracos, casas pela metade, extensos varais de roupas multicoloridas, uma senhora lavando panos de chão numa bacia prateada, terra amarronzada não batida, línguas de esgoto, craks, laranjeiras magricelas, aqui e acolá o pedaço de alguma serra, alguns morros de Mata Atlântica desmatada: todos esses elementos se intensificam sob os acordes da guitarra; e é quase como se meu mp3 funcionasse tal qual um photoshop, um instangran em tempo real, bem na retina dos meus olhos.
Imaginação. Seleciono Buddy Guy, fecho os olhos e creio que nada disso é real. Porque não pode ser. Barracos, casas pela metade, extensos varais de roupas multicoloridas, uma senhora lavando panos de chão numa bacia prateada, terra amarronzada não batida, línguas de esgoto, craks, laranjeiras magricelas, aqui e acolá o pedaço de alguma serra, alguns morros de Mata Atlântica desmatada: todos esses elementos se intensificam sob os acordes da guitarra; e é quase como se meu mp3 funcionasse tal qual um photoshop, um instangran em tempo real, bem na retina dos meus olhos.
[O ramal Japeri era uma das coisas mais
impactantes que já vivi, até conhecer aquele que passa por Manguinhos. Mas essa
é outra história]
O peso que eu carregava não era só o dos
tenebrosos livros, era também o das minhas expectativas frustradas, o das
reflexões sociológicas inevitáveis àquelas paragens, o da crise existencial
cotidiana e chinfrim, mas principalmente, o das perguntas sem resposta. O que
eu vou sentir quando ele abrir a porta. O que vai significar meu sorriso se
abrindo no compasso de um profundo suspiro, antes do costumeiro abraço fraterno.
O que eu vou responder ao “como estão as coisas”. O que eu vou querer quando
ele se sentar na minha poltrona favorita, voltejado por pequenas estantes
pretas, acender um cigarro e me olhar através daqueles óculos que sempre me fazem
lembrar do Mário de Andrade.
Não nos víamos há uns 5 anos. Eu havia me casado, separado, namorado e viajado o mundo, enquanto ele... ele... não sei. Nunca soube realmente da sua vida, a despeito dos e-mails que trocávamos de quando em quando. Uma vez, numa estação de trem em Barcelona (Francia, talvez), com uma estrutura cinza escuro, abóboda em vidro, pé direito impressionantemente alto – construção que me remetia à modernidade do início do século passado –, eu tentava me perder no entra e sai de trens hodiernos enquanto segurava um postal. Ele estava em Bariloche e eu pensava que não poderia ser mais perto.
O cartão era o mais óbvio possível: Gaudí. Rabisquei saudades e sugestões, comentei seu novo emprego (geógrafo?) e perguntei sobre futebol. Fiquei um tempo sentada lendo nossos nomes, cuidadosamente desenhados com minha letra, ouvindo o burburinho animado no espanhol que eu pouco entendo, a pensar como pareciam ridículas aquelas palavras todas minhas. Joguei o postal numa enorme lata para reciclagem de papel, segundos antes de Pierre arrematar um beijo no meu pescoço. Olhando nossos nomes no cartão agora sujo de molho (não tratava-se de um cesto só para papéis? eu li errado?), pensei que, de um jeito ou de outro, estávamos fadados a acabar sempre assim: no lixo.
Pierre, Paris, Patê, tudo isso era agora um universo distante ou paralelo, quem sabe não fora em uma outra vida... Olhei para a estação de Marechal Hermes e, através de uma brecha no vidro ultra-arranhado, não pude não acha-la charmosa, não pude evitar a imagem de uma estaçãozinha com os mesmos retângulos e metais de uma cidadezinha do interior da Alemanha – e então Pierre mais uma vez. Outra vida. Sou empurrada e realocada, ouvindo o burburinho animado no português que eu pouco entendo, entre um e outro acorde mais baixo (Celso Blues Boy e um monte de cerveja). Sentia outro cheiro, interagia com outra estética, mas lá estava eu novamente em uma estação de trem a pensar nele. No fim das contas, acredito que saí do exílio não para devolver insuportáveis livros, mas, e apenas, para me livrar de um ostracismo mental contínuo.
Ele nunca conseguiu me contar muito bem o que estava fazendo da vida; suas mensagens eram sempre sobre como ele estava se sentido, e não sobre o trabalho novo (cinema?) ou sobre quem e o que ele estava comendo. De modo que me acometia a sensação de dialogar com um personagem, com uma ficção, com um homem não de carne e osso, mas constituído todo de emoções e sensações. Sim, eu achava isso um tanto charmoso.
Manter-me de pé, respirar e resistir ao transporte público urbano era o máximo que eu podia e queria exigir de mim mesma. Eu queria mesmo era fugir, mudar de exílio, chegar na casa dele e ficar, sem hora para sair, sem pressa em ler todas as centenas de livros incríveis que ele colecionava naqueles pequenas estantes pretas, sem nuca desligar a cafeteira. Já que a pauta eram os desnecessários livros – sim, porque certamente ele não precisava deles naquele momento, não tanto quanto eu – resolvi levar também uns contos meus, recitar qualquer coisa e prolongar minha existência ao lado dele, por mais algumas horas antes do fim.
Mas eu ainda não sabia que aquela seria a última vez.
Cheguei à Central suada, cansada, pesada, infeliz. Um calor da porra, mas ainda bem. No trajeto até a casa dele, passando pela Marechal Floriano, ia cabisbaixa e taciturna, remoendo meus objetivos naquela viagem. Por que insistir em fazer planos que eu mesma nem sabia se queria cumprir? Na esquina da rua dele parei e observei os bordéis que dormiam. Observei o bicheiro que cochichava. Respirei fundo oitenta vezes e tentei me livrar de toda expectativa pulsante.
Não conheço mais os porteiros. Lembro que na primeira vez que entrei naquele elevador modernoso também carregava expectativas, outras... Estava vestida para ir a uma festa na qual meu ex ia tocar, verificava se a maquiagem ficara ok, pensava em aplausos e cenas, imaginava quem iria à Gafieira, quem eu iria encontrar. Até andar procurando pelo apartamento 714 eu não pensava nele e em como seria aquele café inaugurador, até que ele abriu a porta e me esperou passar pelo, então infinito, corredor. Quando a porta fechou atrás de mim, já não havia bandinha, rímel, ou qualquer outro homem, além daquele que me sorria.
Aquele rosto talhado pelos anos e pelos pecados... pecados redimidos a cada abraço, a cada risada... ele nunca teria entendido que seus pecados eram redimidos a cada encontro e respiração? Nunca teria entendido que ele era meu anjo-redentor-pecador-amador? Fundamental. Nunca?
Logo de cara, joguei os livros em uma cadeira e pedi que ele conferisse se faltava algum. Fiz questão de ser indelicada, de mostrar-me desconfortável, de parecer meio maluca. Que porra foi aquela? E a ideia de ser perfeita e ficar para sempre? Começamos com Jorge Drexler e, no terceiro café, sentamos no chão, agora com o disco novo da Gal; ele deitou a cabeça no meu colo e pediu que eu lesse meus escritos. Mas era sempre assim: de alguma forma misteriosa, ele fazia com que eu me sentisse completamente despida de meus cinismos e discursos cuidadosamente construídos, por isso o desconforto, a indelicadeza. Eu não queria mais me sentir tão despida de mim mesma, de um ‘eu’ que eu formulava e reformulava diariamente.
Lembrei de um ano novo que passamos em sobriedade e silêncio, naquele apartamento, sobre um lençol azul. E então era tudo novo, tudo encantador.
Eu queria parar de ler, que ele me jogasse, de novo, naquela cama e decretasse que eu nunca mais sairia, queria sair dali correndo louca pelos bordéis já acordados, queria gritar e chorar da dor que eu estava sentido por estar exilada, e exila-me nos braços dele, e derrubar tudo que havia em cima da mesa, e queimar os inúteis livros, e parar de me confessar a ele, e morrer mais um pouquinho analisando o percurso de uma formiga na parede.
Não tenho ideia de quanto tempo fiquei divagando sobre essas coisas, até ele me chamar atenção. Entretanto, eu não conseguia mais ouvir o que ele dizia, os convites (?!) que fazia, as sensações que tinha. Minha presença ali, com a dele, já não tinha sentido para mim: roteiro errado, diretor errado, iluminação errada, falas mudas. Murmurei desculpas, o caminho de volta ao exílio era longo. Ao sair, deixei-lhe um beijo casto, colhi um último abraço apertado e voltei pelos bordéis e pela Marechal Floriano, a pensar o que teria feito de errado com ele, comigo, com minha vida.
Terminei aquela noite ligando para ele de uma festinha nada a ver, em Laranjeiras, pedindo a porra do abrigo, a porra do exílio.
Não nos víamos há uns 5 anos. Eu havia me casado, separado, namorado e viajado o mundo, enquanto ele... ele... não sei. Nunca soube realmente da sua vida, a despeito dos e-mails que trocávamos de quando em quando. Uma vez, numa estação de trem em Barcelona (Francia, talvez), com uma estrutura cinza escuro, abóboda em vidro, pé direito impressionantemente alto – construção que me remetia à modernidade do início do século passado –, eu tentava me perder no entra e sai de trens hodiernos enquanto segurava um postal. Ele estava em Bariloche e eu pensava que não poderia ser mais perto.
O cartão era o mais óbvio possível: Gaudí. Rabisquei saudades e sugestões, comentei seu novo emprego (geógrafo?) e perguntei sobre futebol. Fiquei um tempo sentada lendo nossos nomes, cuidadosamente desenhados com minha letra, ouvindo o burburinho animado no espanhol que eu pouco entendo, a pensar como pareciam ridículas aquelas palavras todas minhas. Joguei o postal numa enorme lata para reciclagem de papel, segundos antes de Pierre arrematar um beijo no meu pescoço. Olhando nossos nomes no cartão agora sujo de molho (não tratava-se de um cesto só para papéis? eu li errado?), pensei que, de um jeito ou de outro, estávamos fadados a acabar sempre assim: no lixo.
Pierre, Paris, Patê, tudo isso era agora um universo distante ou paralelo, quem sabe não fora em uma outra vida... Olhei para a estação de Marechal Hermes e, através de uma brecha no vidro ultra-arranhado, não pude não acha-la charmosa, não pude evitar a imagem de uma estaçãozinha com os mesmos retângulos e metais de uma cidadezinha do interior da Alemanha – e então Pierre mais uma vez. Outra vida. Sou empurrada e realocada, ouvindo o burburinho animado no português que eu pouco entendo, entre um e outro acorde mais baixo (Celso Blues Boy e um monte de cerveja). Sentia outro cheiro, interagia com outra estética, mas lá estava eu novamente em uma estação de trem a pensar nele. No fim das contas, acredito que saí do exílio não para devolver insuportáveis livros, mas, e apenas, para me livrar de um ostracismo mental contínuo.
Ele nunca conseguiu me contar muito bem o que estava fazendo da vida; suas mensagens eram sempre sobre como ele estava se sentido, e não sobre o trabalho novo (cinema?) ou sobre quem e o que ele estava comendo. De modo que me acometia a sensação de dialogar com um personagem, com uma ficção, com um homem não de carne e osso, mas constituído todo de emoções e sensações. Sim, eu achava isso um tanto charmoso.
Manter-me de pé, respirar e resistir ao transporte público urbano era o máximo que eu podia e queria exigir de mim mesma. Eu queria mesmo era fugir, mudar de exílio, chegar na casa dele e ficar, sem hora para sair, sem pressa em ler todas as centenas de livros incríveis que ele colecionava naqueles pequenas estantes pretas, sem nuca desligar a cafeteira. Já que a pauta eram os desnecessários livros – sim, porque certamente ele não precisava deles naquele momento, não tanto quanto eu – resolvi levar também uns contos meus, recitar qualquer coisa e prolongar minha existência ao lado dele, por mais algumas horas antes do fim.
Mas eu ainda não sabia que aquela seria a última vez.
Cheguei à Central suada, cansada, pesada, infeliz. Um calor da porra, mas ainda bem. No trajeto até a casa dele, passando pela Marechal Floriano, ia cabisbaixa e taciturna, remoendo meus objetivos naquela viagem. Por que insistir em fazer planos que eu mesma nem sabia se queria cumprir? Na esquina da rua dele parei e observei os bordéis que dormiam. Observei o bicheiro que cochichava. Respirei fundo oitenta vezes e tentei me livrar de toda expectativa pulsante.
Não conheço mais os porteiros. Lembro que na primeira vez que entrei naquele elevador modernoso também carregava expectativas, outras... Estava vestida para ir a uma festa na qual meu ex ia tocar, verificava se a maquiagem ficara ok, pensava em aplausos e cenas, imaginava quem iria à Gafieira, quem eu iria encontrar. Até andar procurando pelo apartamento 714 eu não pensava nele e em como seria aquele café inaugurador, até que ele abriu a porta e me esperou passar pelo, então infinito, corredor. Quando a porta fechou atrás de mim, já não havia bandinha, rímel, ou qualquer outro homem, além daquele que me sorria.
Aquele rosto talhado pelos anos e pelos pecados... pecados redimidos a cada abraço, a cada risada... ele nunca teria entendido que seus pecados eram redimidos a cada encontro e respiração? Nunca teria entendido que ele era meu anjo-redentor-pecador-amador? Fundamental. Nunca?
Logo de cara, joguei os livros em uma cadeira e pedi que ele conferisse se faltava algum. Fiz questão de ser indelicada, de mostrar-me desconfortável, de parecer meio maluca. Que porra foi aquela? E a ideia de ser perfeita e ficar para sempre? Começamos com Jorge Drexler e, no terceiro café, sentamos no chão, agora com o disco novo da Gal; ele deitou a cabeça no meu colo e pediu que eu lesse meus escritos. Mas era sempre assim: de alguma forma misteriosa, ele fazia com que eu me sentisse completamente despida de meus cinismos e discursos cuidadosamente construídos, por isso o desconforto, a indelicadeza. Eu não queria mais me sentir tão despida de mim mesma, de um ‘eu’ que eu formulava e reformulava diariamente.
Lembrei de um ano novo que passamos em sobriedade e silêncio, naquele apartamento, sobre um lençol azul. E então era tudo novo, tudo encantador.
Eu queria parar de ler, que ele me jogasse, de novo, naquela cama e decretasse que eu nunca mais sairia, queria sair dali correndo louca pelos bordéis já acordados, queria gritar e chorar da dor que eu estava sentido por estar exilada, e exila-me nos braços dele, e derrubar tudo que havia em cima da mesa, e queimar os inúteis livros, e parar de me confessar a ele, e morrer mais um pouquinho analisando o percurso de uma formiga na parede.
Não tenho ideia de quanto tempo fiquei divagando sobre essas coisas, até ele me chamar atenção. Entretanto, eu não conseguia mais ouvir o que ele dizia, os convites (?!) que fazia, as sensações que tinha. Minha presença ali, com a dele, já não tinha sentido para mim: roteiro errado, diretor errado, iluminação errada, falas mudas. Murmurei desculpas, o caminho de volta ao exílio era longo. Ao sair, deixei-lhe um beijo casto, colhi um último abraço apertado e voltei pelos bordéis e pela Marechal Floriano, a pensar o que teria feito de errado com ele, comigo, com minha vida.
Terminei aquela noite ligando para ele de uma festinha nada a ver, em Laranjeiras, pedindo a porra do abrigo, a porra do exílio.