quarta-feira, 22 de agosto de 2012

DIA*



            Sim; o livro estava sobre a mesa. Suspirou ao perceber que já havia verificado isso pelo menos umas 4 vezes. Terminou de organizar sua mochila e foi até o armário procurar algum dinheiro no emaranhado de roupas ali jogadas “como se fosse o cesto de roupa suja lá da lavanderia”, tal qual resmungava sua mãe. Mães sempre resmungam, pesou com um sorriso triste.
            Duas notas de R$1,00 e uma centena de moedas a contar. Começou com as grandes: tinham que ser de R$0,50! Hum... a primeira não, e a segunda também não, nem a terceira ou quarta... Merda. No somatório R$3,85. É, dava para comprar um sanduíche ou um maço de cigarros e uma coca-cola. Perfeito.
            No rádio tocava um rock cheio de poesia sobre dor, perdas e uma doença bizarra. Otávio calçou suas sandálias que, aliadas ao jeans da década anterior e ao cabelo mal cortado por ele mesmo, lhe conferiam qualquer coisa de hippie, qualquer coisa de anacrônico, qualquer coisa que ele não sabia o quê. A música acabou e o locutor gritou “BOM DIA pra você que está sintonizado na rádio do rock!!! São exatamente 06:07 da manhã no Rio de Janeiro! Está entrando no ar mais um....”, um dos 12 gatos que a mãe criava pulou na mesa de desplugou a tomada. Melhor assim.
            Enquanto bebia sua caneca de café forte pensava nas tolices sobre amor que seu pai havia dito na noite passada. Por que tolices? Tinha 20 anos a mais de experiência de vida, sobrevivera à rebeldia pseudo-punk-rock dos anos 1980, usou maconha e meia dúzia de ácidos e, depois disso tudo (ou bem no meio do processo) se amarrou à uma garota CDF com ideias pervertidas, com quem teria dois filhos. Então, porque alguém bem sucedido, que passou por tanta coisa na vida, diria tolices? “Tolices de psicólogo”, pensava Otávio ao bater a porta.
            Mas, para ele, o que era aquela coisa toda de ‘amor’? Certamente, não era o que sentia pela namoradinha, Alice. O melhor mesmo era não “problematizar a questão do eu interior inserido num relacionamento dito estável e maduro”. Tolices. O ônibus veio rápido, juntamente com a sensação de que ele poderia descer no ponto perto do aeroporto, ir para Assunção (tia Deise jurava que, às vezes, eles operam voos ao Uruguai e Paraguai) e de lá começar uma viagem solo pela América do Sul, subindo até o México, ora de trem, ora de carona. Assistiu o sol nascer na Praia de Botafogo ao som de Confortably Numb, pensando porque diabos sempre se imaginava sozinho numa viagem assim. Não havia ninguém com gostaria de compartilhar essa loucura. Ninguém.
            Quando avistou o Santos Dumond começava Breath - na seleção aleatória do Discman, fiel companheiro. Achou que era uma espécie de sinal divino e, por isso, fechou os olhos se afundando mais no banco. Saltou na já então movimentada Presidente Vargas e foi andando sem pressa para a faculdade, sem pressa para as aulas da manhã, sem pressa para os textos não lidos.
            Depois do almoço, conseguiu mais uns trocados com Carlos – o grande amigo – e, mais uma vez sem pressa, caminhou pela já então lotada Rio Branco, em direção à Livraria da Travessa (quem sabe tomar um café?). De repente, alguma coisa chamou-lhe a atenção: havia um mendigo absurdamente esfarrapado, sentado à porta de um banco, com óculos de grau que reluziam ao fraco sol de inverno, lendo o jornal daquele dia (e que dia era mesmo? Certamente uma quinta-feira...). O mendigo, então e imediatamente batizado por Otávio como ‘Orlando’, fez uma careta e fixou-se na página de economia.
            O que Orlando lia? O que acontecia no mundo que ele, Orlando, poderia saber ou entender? O que estava escrito, Otávio? Otávio, que não sabia nem em qual dia do mês estavam, ficou profundamente tocado por aquela imagem: Orlando, o personagem urbano invisível, interagia, de um jeito ou de outro, com uma enxurrada de informações contemporâneas quase completamente desconhecidas por Otávio, o universitário burguês pensante.
Teve vontade de sentar ao lado dele e perguntar qual era a cotação do dólar. Tolices. E de que serviria, a ambos, àquela tarde, a cotação do dólar, ou do ouro. Quem era Orlando? O que Orlando lia? A morte (assassinato?) de Celso Daniel? Um peti vermelho da prefeita de São Paulo (Marta Suplicy?)? Mas era a seção de economia! Especulações sobre as novas medidas do novo presidente (Lula?)? Merda.
Otávio quis guardar Orlando em uma daquelas pequenas redomas de vidro com neve de mentira e coloca-lo em seu quarto, para olha-lo de quando em quando com assombro. A cena era perturbadora e, para dissipa-la, começou a caminhar muito rápido, entre empurrões e esbarrões. Queria sair dali, daquele quadro bizarro que ele não conseguia parar de desenhar mentalmente. Parou na vitrine da Travessa e ficou observando cada centímetro dos livros expostos sem, contudo, enxergar qualquer coisa.
Pensava nas “tolices” de seu pai, tentava lembrar qual era o livro que deveria ler para a próxima aula, queria lembrar de ligar para o Pedro quando chegasse em casa (buscar seu violão!). Qual era o problema de Orlando ler jornal? Por que não deixar o homem em paz? Por que aquela visão o incomodava e exasperava tanto? Talvez aquele fosse o melhor momento para conhecer o Chile, ou parar de tomar aspirina. Quiçá pensar sobre as “tolices” e sobre 'amor' não afastasse da cabeça a intuição nervosa que teve com Orlando.
Não se sabe quanto tempo ficou ali, pensando em nada, tentando não pensar em Orlando. Lentamente levantou os olhos angustiados, e viu uma menina de olhos brilhantes, que lhe acenava e sorria de dentro da Livraria. Uma das coisas que mais admirava em Alice era que ela sempre sabia onde e quando o encontrar.

* Escrito em 2002 (ou final de 2001) e levemente editado em 2012. O texto é cópia fiel do original, salvo algumas correções de pontuação. 

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