segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Vasto Mundo



Tava lá, escrito na caixa de spam: “João, é sempre verão em algum lugar do mundo”. Certamente a cabeça dele não fazia parte do mundo, porque ali só havia inverno, o frio rascante como na muralha da ficção na tv. A propaganda da agência de viagens era bastante tentadora, claro que sairia bem caro, mas isso de pagar passagem e hospedagem em finte vezes num cartão que você nem precisa pagar de verdade bem podia ser a solução pro tedio e solidão perenes. Mas mesmo a remota possibilidade de ir pro outro lado do mundo e continuar sendo perseguido por essa agonia e.... solidão é algo tão filho da puta que nem tem sinônimo, solidão, se essa solidão persistisse e o perseguisse... bom. Era só um spam, porra.
Um spam que paralisou seu dia, fazendo-o pensar sobre solidão e saudade, como se estivesse num exílio. E estava, de certa forma. Acabo de consultar um dicionário, parece que “exílio” pode ser considerado um estado de espírito e também um sinônimo pra solidão. Isso não importa. Duvido que João tenha aberto um dicionário sequer fora das aulas da tia Teteca. Ele saiu de sua cidade natal para trabalhar numa metrópole que tem toda pinta de cidade provinciana. Uma vez ao ano visitava os parentes e poucos amigos no Rio, numa dessas, encontrou uma caixa cheia de fotos, bilhetes e sonhos de valsa que colecionou até a adolescência tardia (embora suspeite que esse tempo nunca acabe).
Segurou pensativo uma imagem na qual apareciam suas pernas, dois gatos que odiava e uns quantos discos de música de gosto duvidoso, espalhados pelo chão de sinteco. A caligrafia feia, de letras escritas com caneta para CD, gravadas nas coxas lisas de João, aquele pedacinho de Drummond... de quem era? E que foto era aquela? Parecia letra de homem, mas não a dele, mas quem teria escrito aquilo? Quando e Porquê? “Mais vasto é o meu coração”: digitou no google e viu que era mesmo Drummond, que era mesmo super famoso, super citado. Ficou relendo algum tempo: “mundo mundo vasto mundo...” Daquela mesma caixa meio escondida no armário da casa da vó Lu, João recuperou um jeans com respingos de tinta acrílica que surpreendentemente ainda servia, e no bolso dele um poema mal feito:

PG
(ainda inverno, 2008)

Idealizações do Passado
Um pretérito que não funciona mais
Algo que foge das sortes
De um amor qualquer
A incerteza de sua presença
Será que locomove
Emociona e
Tenciona o ar frigido
Entre as cordas do nosso instrumento
Me sinto abalado
A figura que pinto não pode ser manchada
Por quem quer que seja
E no fundo
Minha temperança
Não permite nossa
Temperatura

E o que, ou quem era PG? Paulo Gustavo? Abreviatura de “pago”? Aquela letra era dele, definitivamente. Aos poucos foi lembrando de quando escreveu aquilo: um bar perto da São Salvador, matando aula de História da Arte I. Mas, naquela época, o único cara que merecia sua atenção era o Pedro Henrique... PG? No fim das contas ele deve ter trocado o H pelo G just in case alguém achasse os rabiscos e tirasse onda com sua paixonite. João deitou-se no chão, feliz vestindo o jeans das primeiras aulas de pintura, a fitar o lento movimento do ventilador de teto e colocou um punhado dos papéis da caixa sobre o peito e, depois, ao redor de si. Imaginou que uma foto tirada da perspectiva da lâmpada que lhe encarava certamente o transformaria numa espécie de Ofélia pós-moderna, afogada em lembranças inúteis, morta diante de um amor impossível.
Eu queria poder sair de dentro de um espelho e gritar a João o tempo que ele estava perdendo ali.... a fazer nada, a encarar o teto como se a vida estivesse toda contida naquele silêncio e imobilidade
Pensava nas memórias dentro daquela caixa, nas tralhas que guardava. Mas o que torna uma experiência memorável? Uma estadia no exterior, um restaurante famoso, caminhar de mãos dadas na praia... o que faz desses pequenos cenários-elementos realmente importantes? A pergunta não é como aproveita-los, mas sim como reconhecer momentos realmente incríveis. João não tinha resposta para nada disso, naturalmente... Ele apenas respeitava o devir do mundo que o tornava nômade por terras ficcionais, como se realmente fosse uma personagem minha.
Códigos culturais, idiossincrasia... como aprender tudo isso de novo, e mais, o tempo todo? Porque parecia que a cada lugar por onde passava, a fim de expor sua nova fase de trabalho, o escultor, João sentia-se deslocado e exposto ele mesmo, como um bloco de mármore talhado em tamanho real e forçado a pronunciar palavras domesticadas, rompendo assim sua natureza mineral... Por isso evitava qualquer tipo de interação social. Por isso passava tantas horas olhando o teto, o pôr do sol, o caminho que uma formiga fazia do chão até a torneira da cozinha, uma árvore dançando com o vento. Por isso sentia essa solidão patológica. De um lado não suportava a obrigação de se relacionar com gente desconhecida, só pra vender seu trabalho. De outro, seus amigos queridos, conquistados na escola e nos primeiros anos de graduação, estavam cada um em uma parte do mundo. O remédio pra tudo isso tava o bolso interno da mochila e era vendido sob prescrição médica. E foi o que o salvou aquela noite, o que o tirou mais cedo da última vernissage do ano, na véspera de visitar os avós.
Não sou vidente, apenas um narrador. Mas sei que se João tivesse aceitado aquele convite pruma small talk com aqueles escultores, auto declarados semideuses, sua própria carreira como aspirante de uma semidivindade, teria sido outra. Joãaaaao!! Eu grito, tão somente agora, vá subir seus devidos degraus, sangrando, com dor e dignidade! Aceite a conversa fiada e piadas que você nunca vai entender. Isso também é parte do seu trabalho! E mesmo que eu tivesse gritado isso naquele momento ele não acataria. Creio que ouviria, entenderia e concordaria até, mas por auto sabotagem ou preguiça pura e simples, me ignoraria. Maldito.
Agora João tava no conforto da casa da vó Lu, no seu antigo quarto, esperando o telefone tocar com alguma novidade, algum convite. Havia um peso em seu peito, como se aqueles papéis de passado fossem de ferro. Havia uma sensação muito estranha no ar, e respirar era difícil. O celular ao lado suspirou, indicando atividade na sua rede social (a única que realmente tinha então); e nem pensou em verificar do que se tratava. Começava a pensar que seus amigos, todos eles, os virtuais e os reais (mas o que era realidade ali naquela pose shakespeariana?), estavam tendo experiências de vida maravilhosas e inesquecíveis, enquanto sua própria vida se resumia a observar o movimento da luz que vinha da rua, manchada pela amendoeira, a formar pop art em slow motion na parede do quarto.
Com um estalo no peito levantou-se e se deu conta do que era aquele peso todo. Lembrou de quando a amiga Clarisse falou que invejava a vida dele. Naquele momento João sentia inveja sem nem saber de quem ou do que. Sentia sua vida tão infeliz e vazia que só a possibilidade de haver alguém no mundo que estivesse sendo feliz já o incomodava. E por que ninguém ligava? Por que ninguém tocava a campainha? Por que ele chorava? E qual era o problema em ser carente? Era seu gênero? Era porque ele era homem? Por que isso parecia um clichê que o tornava ainda mais frágil, mais viado, na frente “dos outros”? E por que seus amigos superhéteros podiam se abrir com ele e falar sobre isso, sobre suas próprias carências e afetividades? Por que ele tinha que ser, o tempo todo, homem maduro e bem resolvido com a própria sexualidade e vida sexual-afetiva, do tipo que não precisa de nada nem ninguém nem cafuné...?

Pegou o comprimido; jogou fora. Pegou um caderno e começou a escrever. Chorava diante de seus sentimentos mais mesquinhos, mais humanos. Rezou um pouco. Entrava em conformidade com a solidão perene. Voltou à caixa de spam; escolheu um pacote pro Caribe. Agora respirava como nas aulas de yoga, deixando o peso voltar aos papéis da memória. Então tava tudo bem; tudo bem ser carente, tudo bem ter sentir alguma coisa terna e querer partilhar isso. Ainda fazia um pouco de frio na cabeça, mas isso ia passar e, enquanto não passava, ele sentia, refletia, escrevia, esculpia. Guardou a caixa no armário, mas manteve o jeans. Olhou-me através do espelho e eu sabia que tava tudo bem. Saiu de casa carregando um livro e mexendo no telefone, como se fosse fazer uma ligação.
             João... pra quem você vai ligar nessa hora, nessa quase madrugada...?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Da liberdade-danação


Nossa verdadeira danação está em conviver com nossas escolhas, diariamente. Não importa se estamos realmente bem ou mal... há, de quando em quando, a terrível sombra do “e se...”. Mesmo quando temos a plena noção de que mudada uma frase, desfeito um gesto, então toda nossa vida seria diferente. Sim, se você tivesse sorrido de volta àquela menina que fumava no banco de trás do ônibus, três décadas atrás, você não estaria lendo seu jornal na manhã de hoje. Não estou dizendo que vocês teriam se casado e agora você seria bem sucedido, ou viúvo, ou um fodido, apenas afirmo, categoricamente, que sua vida não seria a mesma. O jornal não seria esse, o café à sua frente teria outro sabor... e por ai vai. Aquele vestibular, aquele doce inofensivo, aquela esquina que você virou distraído. Você tem meio século de uma vida da qual não se arrepende, mas pensa, pensa, pensa como seria se tivesse feito escolhas diferentes. Te vejo daqui. Te vejo agora mesmo. Minha janela da sala dá pra um dos cômodos do seu apartamento (escritório¿ motel¿ santuário¿ quarto de hóspedes¿), já vi de tudo.
Sua vida modorrenta tem efeito catalisador na minha criatividade. Isso porque sua inércia em muito lembra minha própria. Mas também tenho eu quase cinquenta anos e um punhado de coisas a dizer sobre o mundo. Não que algum dia alguém as vá ler. Não que importe, mesmo pra mim. Te vejo agora, fitando o espelho do banheiro pensando que sua escova de dentes custou tão caro, mas talvez seja a hora de troca-la. Preciso me desprender de você e dessa parte de mim que é ser somente uma plateia. Saio de casa, caminho por ruas sem calçada e tento viver minha própria vida, sem pensar em alguém para observar ou em alguém que certamente me observa e lê agora.  
Fumei um baseado. Não muito. Apenas uns tapinhas. Comi um chocolate com coco, fiquei bem, dei uma volta pela estrada Ouro Preto-Mariana e comecei, então, a beber Heineken. Agora me bate uma suave onda de tesão, ouvindo Samba e Amor, sentindo o sol esfriar no anoitecer marianense, com esse céu inexplicavelmente maravilhoso. Penso que se a vida é cheia de oportunidades e possibilidades, elas não figuram nas pedras de cidades históricas e interioranas. Assim, tenho certeza de que, nesse momento, será impossível compartilhar o que sinto. Não há como me aconchegar na companhia de um par. Merda. Agora começa a tocar I`ve got you under my skin, e essa música nunca calhou tão bem, ainda que de modo tão desnecessário.  Se por um lado é frustrante saber que sei tão pouco sobre meus próprios desejos, por outro, o cheiro da liberdade de não pertencer a quem quer que seja me reconforta. Pertenço a mim mesma, ao meu corretor do Microsoft Word, aos meus desejos inconcretos e às minhas escolhas irracionais – ainda sou uma nômade meodeos. Tenho mesmo plena consciência de que pertenço às minhas escolhas; e isso me basta. Talvez, finalmente, eu tenha encontrado algo que realmente me baste. Tchaikovsky, Swan Lake, act II
Retorno ao nosso apartamento – sua presença através da janela impede que este seja apenas meu espaço. Já não o vejo mais, agora posso apenas imaginar o que você está preparando na cozinha. Dr. Lacerda diz que eu projeto minha vida em você e acabo não vivendo minha própria. Às vezes me pergunto porque ainda me sento naquele divã.

Eu realmente gostaria de me concentrar no meu trabalho, terminar as ilustrações pro livro da Lúcia, pagar as contas atrasadas ou simplesmente ter uma boa história pra contar. Mas não consigo. A ideia de que eu e você estamos atados às nossas escolhas me dá a sensação de que, na verdade, não existe liberdade. Se antes sua vida chata de classe média bem sucedida inspirava meus desenhos, agora estou tão estagnada quanto você, esperando mais um capítulo da sua desinteressante rotina passar pela minha janela. Assim eu não preciso escolher mais nada, não preciso me ocupar de pequenas decisões como a cor dos sapatos ou o plano de internet; posso então ser parasita silenciosa e empoeirada de algo que acredito ser a realidade.

segunda-feira, 24 de março de 2014

"Nós não somos nada disso"


Cheguei a Salvador pra ficar umas semanas, pra visitar minha amiga Melissa, pra não pensar na cidade maravilhosa argh e seus homens incognoscíveis. Sempre quis usar essa palavra. Fiz check-in no albergue mais barato, nos arredores da Rua São Francisco, bem no Pelourinho. Meu primeiro drink foi um pouco longe de lá, no Bar das Ricotas – e achei o nome tão engraçado. Ali mesmo consegui um emprego. Relações Públicas, mas daquelas que tem que servir mesa, às vezes. As semanas se transformaram em meses, anos... larguei o bar, casei, separei, abri negócio, fali, descolei pensão, e vou levando a vida – pq num tá fácil pra ninguém. Dez anos de Bahia. E vc me pergunta e dai¿ Bom, tenho mesmo uma coisa pra contar.
Conheço uma menina que tem um blog, esse aqui que vcs tão lendo, ela é do Rio e topou me ajudar. Ela até já escreveu umas histórias minhas, dos tempos de carioquice. Mas eu, eu encontrei uma história, umas risadas e uns poemas baratos num bloquinho de notas. Sei não porque, mas me bateu uma baita vontade não de voltar pro Rio, mas de devolver essas páginas. Aí minha nêga linda, escritora do blog, disse que era pra eu contar como achei e o que achei, que aí ela divulgava e via se alguém se pronunciava. Disse também que não ia cortar nada do que eu escrevesse, nem meus erros. Ai! Eu que já trabalhei em livraria, que já gostei de brincar com as palavras... eu... podendo escrever do jeito que quisesse, com todas as falhas gramaticais que sempre me perseguiram. Eu to aqui, meu povo, me economizando uma vida em análise.
E como foi¿ Olhe, o dia tava lindo demais pra ser desperdiçado no mercado municipal, mas... como anfitriã de gringos que não conheciam Salvador, tive que largar meu camarãozinho na praia e bater perna – pq num tá fácil pra ninguém. Praticamente cruzamos a cidade pra inauguração do Brechó de La Borges, da Neusa, na Barra. Um evento. Uma coisa. Eis que vejo uma bolsa de couro, usada, triste num canto. Apaixonei. Levei pra casa e quando tava dando aquela faxina básica dei conta de um buracão no forro e, dentro dele, um bloquinho pequenininho de notas. Comece a ler. Comecei a chorar. Lembrei do apartamento da vovó, da minha gata chamada Raposa, do Juvenal (e de tantos outros) e das viagens que fiz com minhas amigas. Pensei que queria conhecer essas meninas da história, que só aparecem com as iniciais dos nomes, ou apelidos, sei lá. Então tá aqui, copiadinha, toda a trajetória. Copiei do jeito que achei. Se vc que tá lendo isso, souber quem são elas, pfv, entre em contato. Eu pago a vinda delas pra cá, dou casa e comida. Só não adianto o príncipe pq num tá fácil pra ning.

* * *

Julho e gelo em São João Del Rei em 2008. Tenho uma péssima caneta, um balaio de ideias inexpressivas (ou seriam inexpressáveis¿¿) bem no meio da cabeça, + um início de viajem agradável e meia dúzia de sorrisos no estado de espírito. Minha expectativa com grandes emoções é praticamente nula, assim, vou degustando o movimento das horas, sem afeições ou pontadas de angústia. Na verdade, me sinto como queria: “em férias”, sem pensar na avalanche de coisas a resolver no Rio e plena de sensações de gata ronronando na grama de manhã, com cócegas de sol. Ligar pra velha. Trocar sapato – Zara.
Estar sozinha, tomando café na cantina da UFSJ, torna essa coisa de observar o comportamento humano muito engraçada; acabo sempre com a mesma pergunta: como nós podemos ser tão ridículos¿ e isso não tem nada a ver com o rapaz que passou se gabando do futebol. Mas às vezes tenho preguiça de mim mesma. Ouro Preto. Bruno da República Xananã de S.J.delR. Recruta Zero. Lunático. Procurar. Saudade da Mamãe. TX. Rep. Guapo. Em frente post gas. Mixuruca. Barra bairro. Próximo a estação. Fernanda. Vanessuda. Priscila. Rod. B. Horizonte.
Tudo começou com o estímulo do rapaz de Viçosa. O ENEH é lugar pra muitas coisas, menos pra confiar num cara que vc conheceu bêbado num fim de festa, pouco antes da tubulação de esgoto estourar e... nem preciso continuar. Sim, não confiei. Mas. Pensei que não custava nada conferir as informações. E assim, eu, M., J., G., F., Mb., e V. partimos em busca da tal estrada -poeira no lugar dos tijolos amarelos- pra pegar a tal carona até Ouro Preto. As demais letras do alfabeto não gostaram da ideia, acharam perigoso, que éramos malucas, etc. etc. Claro que estavam todos certos. Claro que fomos de todo modo. P. e Mll foram radicalmente contra. Bom, Mll. estava mt bem ocupada em sua barraca, e P., deveria ter ido com a gente. Como não sabíamos o que enfrentaríamos, paramos no mercado, abastecemos uma bolsa com suplementos necessários -absorventes, cachaça e biscoitos-, tomamos um bom café da manhã, às 2 da tarde e, depois de quase uma hora andando, chegamos à rodovia e à primeira baixa: F não seguiria viagem.
Na estrada tinha uma fila com uns meninos paulistas (e seus dedinhos), também pegando carona. Mas, poxa, ninguém parava pra eles. Então, nós, moças-protagonistas, fizemos sinal e embarcamos todos. Todos. Até umas outras meninas que foram surgindo. Até a noite começar a querer cair. V. e Mb. conseguiram ir antes de começar a questionar. Eu, J., M., e G., começamos a pensar em desistir pq 1º teríamos que ir em dupla. É, tem isso, não entraríamos na boleia de um caminhoneiro sozinhas. 2º ninguém mais estava parando, até aquele gol azul, mais velho que eu, encostar: Bruno, nosso redentor. Rapaz do bem, indo sozinho pra Congonhas, disse que levaria as quatro até lá, de boa, que era tranquilo ir de lá pra Ouro Preto, pertinho, ele disse.
Mas, espera, o que estamos indo fazer em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿¿¿
Bruno, fofo, nos indicou uma república pra passarmos a noite, e confirmou que era muito tranquilo voltar de carona pra São João. [NOTA MENTAL: nunca, nunca, nunca, nunca mais confiar em algum gatinho-gente-boa que vc conhece há 10 minutos. NUNCA] Claro que nós não confiamos. Mas também não sabíamos da distância, não só entre intenção e gesto, mas entre as duas cidades, nem que não tinha ônibus direto, nem que teríamos que parar em Ouro Branco, nem que eram quase meia noite. [A BOA É NUNCA, NUNCA, CONFIAR EM NINGUÉM, a menos que o Espírito Santo aparece e diga “tá ok”, ou algo do tipo]. O fato é: confiávamos uma na outra, confiávamos que acontecesse o que for, estaríamos juntas, pra gritar, ou pra rir.
Bruno nos deixou na rodoviária de Congonhas, uma da manhã. Como faz p pegar carona na estrada¿ Como faz pra pagar a passagem se todas estavam duras¿ A ideia era pegar um Bus baratinho, descer no tal do trevo e pegar o tal do outro bus, NO MEIO DA ESTRADA, q tava saindo de Ouro Branco em direção ao Preto (quase poético). Como faz pra ficar de madrugada na estrada esperando busss¿ Nesse conflito, com todo mundo da rodoviária ciente de nossa situação, porque é claro que ficamos melhores amigas de todos que esperavam bus ou carona, eis que um cara se apresenta. “Oi, eu sou o Egg, sou policial, e posso levar vcs em segurança”. Egg não tinha cara de bons amigos. Como faz¿
Uma hora depois, descemos no tal trevo, na total treva da noite, passando por uma mata (ou grama, talvez), sem qualquer iluminação. Lembro de andar olhando sempre pro chão, pra ver se achava uma pedra, pro caso do Egg fritar. Passado o susto, pegamos o bus certo, Egg era, de fato, um bom amigo-de-emergência e chegamos bem em Ouro Preto. Mas espera, o que é que é que é que é que a gente tá fazendo em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿¿¿
Saímos da rodoviária, na madrugada, num frio da porra, em busca da tal república que Bruno indicou: a TX, república federal masculina (será mesmo¿). O segurança tinha explicado o caminho e de fato foi tranquilo chegar. Acontece que o tal Recruta Zero, amigo do nosso amigo, já tinha se formado há mais de um ano, e ninguém conhecia nenhum Bruno, e nenhum rapaz de Viçosa. Mas, não sei se pela nossa cara de fome-frio, ou se porque era assim mesmo a vida na cidade das ladeiras, os meninos da TX nos derem abrigo. Nos deram também bebidas, na esperança de que déssemos alguma coisa a eles, mas no fim da noite dormimos super agasalhadas, as quatro, no mesmo quarto, cada uma em uma cama que parecia divina. Nos despedimos e agradecemos na manhã seguinte, porque daríamos uma volta na cidade e voltaríamos pra São João. [qual o nome deles]
Pra economizar no almoço, comemos um pão de queijo e fomos bater perna. Antes, ligamos pros nossos pais, no Rio, pq somos malucas, mas nem tanto, só que não conseguimos falar com o restante de alfabeto que ficou no ENEH de verdade, seus celulares não funcionavam de modo algum. Na rua Direita (caraaaaa toda cidade tem uma rua direitaaa), bem no meio, encontramos V e Mb, que tinham pagado hospedagem numa república particular feminina, na tal da Barra. Elas estavam indo de trem pra Mariana, cidade aqui perto, mas o trem era caro. Seguimos descendo a Direita até que eu vejo uma plaquinha “TATOO” e digo: “partiu fazer uma tatuagem¿”. G e M toparam na hora, J, com alguma sensatez, hesitou, mas acabou indo. Como pagamos a tatuagem¿ Negociamos! Preço mínimo: de R$70,00 pra R$40,00, em cada. Descobrimos que G. tinha um cartão de crédito. G: nós te amamos muito, a gente jura que paga depois. Pedimos um PF num restaurante, pra ver se conseguíamos dividir, economizar; acabamos passando horas no tal restaurante, entre histórias secretas do ifcs e uma tese sobre a coruja da Bruxonilda.
Tatuadas e minimamente alimentadas, duas ruas semi-percorridas na cidade histórica, o que fazer¿ Procurar o bar mais próximo, claro. Entramos no Barroco (aparentemente um clássico de paredes rabiscadas), onde deu-se a primeira parte das “Confissões Sexuais”, com revelações surpreendentes. As imagens são impressionantes. Tem certeza que não doeu¿¿¿ Como faz pra pegar carona bêbada¿ Já anoiteceu¿ Onde vamos dormir¿ Os rapazes da Diretoria. Os intrometidos da Antares. No Rio tem puta, pagodeira e funkeira, e nós, NÓS NÃO SOMOS NADA DISSO. Noite na rep particular masculina, casa amarela, o cão chamado Bino, medo. VAMOS EMBORA – linguagem labial. Pedrinho, tarado inconveniente, papo reto. M. pseudo-encoxada. S.
O que a gente tá fazendo em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿¿
Aquela noite foi a pior. Não conseguimos dormir, de frio. De medo dos caras entrarem no quarto. Medo do bicho papão. Sei lá. Medo da história, incessantemente evocada naquele lugar, naquele quarto. O quarto a Bruxa de Blair.
Raiou o sol. Saímos correndo. Decidias a abusar do cartão de crédito de G., fomos pra rodoviária, nada de carona, nada mais de aventuras. Não tinha ônibus. Comprar calcinha. Bom, vamos tomar um banho. Era R$5,00. Dissemos que só iríamos fazer xixi. De graça. Tomamos banho escondidas. Saímos de lá um pouco refeitas e decidimos tentar mais uma carona. Foi mais por desencargo de consciência, ninguém mais queria brincar de aventura. Ligamos pra V e Mb, mas elas já estavam voltando, pegaram o ônibus que a gente perdeu. Ligamos pros nossos pais, poq, somos responsáveis, mas ainda não conseguíamos contato com o alfabeto, vivendo outra realidade em São João. Decidimos conhecer Mariana e depois pensar no resto.
Demoramos mais tempo para chegar lá do que para conhecer a cidade, que só tem uma praça e um PF baratinho. Comemos, tiramos foto na pracinha com o coreto e voltamos. Nisso, no caminho de volta, no meio daquela paisagem arrebatadora, no charme que só o frio das montanhas tem, M. lança a hipótese de que nossa barrinha da sorte estava acabando. Sim, aparentemente temos uma “barrinha da sorte” que é renovada a cada evento ou pequena aventura da vida, a nossa, que então contava a soma das quatro, já deveria estar no fim... Chegamos à rodoviária e a uma “crise conjugal”: pegar outra carona¿ usar o mágico cartão e ir baldeando, de cidadezinha em cidadezinha¿ esperar o próximo bus, que sairia na manhã seguinte¿
O fato é: estávamos (estamos) presas em Ouro Preto, como os caras naquele filme O Anjo Exterminador. Tiramos uma foto, na igreja perto da rodoviária, para um dia colocarmos num álbum com a legenda: Buñuel. Compramos a passagem para o dia seguinte mesmo. Ora o que fazer. O que fazer¿¿ Então, levando em conta que eram umas 18h, o jeito era procurar o bar mais próximo. Andamos sem destino, sem querer subir muitas colinas, e encontramos um barzinho super charmoso, com um preço decente, super quentinho. Resolvemos ficar. Confissões sexuais pt 2. Momento escatológico. Cerveja enviada pelo cavalheiro da mesa ao lado. Quem¿¿¿¿ Edmilson, o simpático. A trilha sonora da máquina. “M. é uma mulher suja”. O cavaleiro se apresenta: é dada a largada. E os pulinhos de J.¿¿ “Mas, é doce¿”. Seu Jorge. Ele usa aliança. Quem¿¿¿ Qm é Daniel¿¿
E agora: estamos aqui, ainda no bar. E nem sei o nome do bar ou da rua. O dono do bar, que achávamos que fosse só o garçom, ouviu a gente comentar nossa pequena odisseia e ofereceu abrigo. Disse que podíamos dormir aqui. Aqui dentro, olha que incrível! Claro que tem um segurança que dorme aqui também, mas tá de boa. As meninas tão dormindo já. Ou fingindo. Descolaram até uns colchonetes pra gente. Cara lá fora tá muito frio. To aqui pensando que se eu deveria ter seguido o cara que ofereceu as cervejas... tinha tempo que eu não ficava com um cara gato assim... Mas também... largar as meninas aqui e ir desbravar as ruelas de Ouro Preto com um desconhecido... náaa. Tivemos muita aventura nos últimos dias. Ah, eu podia escrever algo melhor. No Rio. Depois do Projeto.
O que a gente tá fazendo em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿ Tentar resp isso qd voltar pro Rio.
Escrever roteiro qd voltar pro Rio.
Escrever projeto de monog. qd voltar pro Rio.
Trab. Am. III, prova Br I. Merda.
Mandar e-mail pro preto gato de ouro preto.

* * *



Oi, voltei. Alice, escrevendo de Salvador, terra mais linda, bem em 2014. A história é essa que vcs leram. Tem umas outras coisas anotadas no caderno; quer dizer outras histórias. Será que ela e as outras conseguiram voltar pro Rio¿ Tô pensando aqui que se ninguém se manifestar, se ninguém souber o paradeiro dessas meninas, dessa história, vou mesmo é transforma-la num roteiro. Escrevi esse pouquinho aqui, copiei essas palavras todas delas, e me bateu uma baita vontade de escrever também. Gostei dela. Claro, tadinha, era só um rascunho, sei, mas ela escreve como eu queria escrever, tadinha. A gente se parece. Sei lá. De repente uso mesmo as ideias do caderninho. Achado não é roubado. Sabe como é... num tá fácil pra ninguém. E eu to aqui, bem tentando devolver, ou tentando conhecer, sei lá. Beijos e abraços a tod@s.