segunda-feira, 24 de março de 2014

"Nós não somos nada disso"


Cheguei a Salvador pra ficar umas semanas, pra visitar minha amiga Melissa, pra não pensar na cidade maravilhosa argh e seus homens incognoscíveis. Sempre quis usar essa palavra. Fiz check-in no albergue mais barato, nos arredores da Rua São Francisco, bem no Pelourinho. Meu primeiro drink foi um pouco longe de lá, no Bar das Ricotas – e achei o nome tão engraçado. Ali mesmo consegui um emprego. Relações Públicas, mas daquelas que tem que servir mesa, às vezes. As semanas se transformaram em meses, anos... larguei o bar, casei, separei, abri negócio, fali, descolei pensão, e vou levando a vida – pq num tá fácil pra ninguém. Dez anos de Bahia. E vc me pergunta e dai¿ Bom, tenho mesmo uma coisa pra contar.
Conheço uma menina que tem um blog, esse aqui que vcs tão lendo, ela é do Rio e topou me ajudar. Ela até já escreveu umas histórias minhas, dos tempos de carioquice. Mas eu, eu encontrei uma história, umas risadas e uns poemas baratos num bloquinho de notas. Sei não porque, mas me bateu uma baita vontade não de voltar pro Rio, mas de devolver essas páginas. Aí minha nêga linda, escritora do blog, disse que era pra eu contar como achei e o que achei, que aí ela divulgava e via se alguém se pronunciava. Disse também que não ia cortar nada do que eu escrevesse, nem meus erros. Ai! Eu que já trabalhei em livraria, que já gostei de brincar com as palavras... eu... podendo escrever do jeito que quisesse, com todas as falhas gramaticais que sempre me perseguiram. Eu to aqui, meu povo, me economizando uma vida em análise.
E como foi¿ Olhe, o dia tava lindo demais pra ser desperdiçado no mercado municipal, mas... como anfitriã de gringos que não conheciam Salvador, tive que largar meu camarãozinho na praia e bater perna – pq num tá fácil pra ninguém. Praticamente cruzamos a cidade pra inauguração do Brechó de La Borges, da Neusa, na Barra. Um evento. Uma coisa. Eis que vejo uma bolsa de couro, usada, triste num canto. Apaixonei. Levei pra casa e quando tava dando aquela faxina básica dei conta de um buracão no forro e, dentro dele, um bloquinho pequenininho de notas. Comece a ler. Comecei a chorar. Lembrei do apartamento da vovó, da minha gata chamada Raposa, do Juvenal (e de tantos outros) e das viagens que fiz com minhas amigas. Pensei que queria conhecer essas meninas da história, que só aparecem com as iniciais dos nomes, ou apelidos, sei lá. Então tá aqui, copiadinha, toda a trajetória. Copiei do jeito que achei. Se vc que tá lendo isso, souber quem são elas, pfv, entre em contato. Eu pago a vinda delas pra cá, dou casa e comida. Só não adianto o príncipe pq num tá fácil pra ning.

* * *

Julho e gelo em São João Del Rei em 2008. Tenho uma péssima caneta, um balaio de ideias inexpressivas (ou seriam inexpressáveis¿¿) bem no meio da cabeça, + um início de viajem agradável e meia dúzia de sorrisos no estado de espírito. Minha expectativa com grandes emoções é praticamente nula, assim, vou degustando o movimento das horas, sem afeições ou pontadas de angústia. Na verdade, me sinto como queria: “em férias”, sem pensar na avalanche de coisas a resolver no Rio e plena de sensações de gata ronronando na grama de manhã, com cócegas de sol. Ligar pra velha. Trocar sapato – Zara.
Estar sozinha, tomando café na cantina da UFSJ, torna essa coisa de observar o comportamento humano muito engraçada; acabo sempre com a mesma pergunta: como nós podemos ser tão ridículos¿ e isso não tem nada a ver com o rapaz que passou se gabando do futebol. Mas às vezes tenho preguiça de mim mesma. Ouro Preto. Bruno da República Xananã de S.J.delR. Recruta Zero. Lunático. Procurar. Saudade da Mamãe. TX. Rep. Guapo. Em frente post gas. Mixuruca. Barra bairro. Próximo a estação. Fernanda. Vanessuda. Priscila. Rod. B. Horizonte.
Tudo começou com o estímulo do rapaz de Viçosa. O ENEH é lugar pra muitas coisas, menos pra confiar num cara que vc conheceu bêbado num fim de festa, pouco antes da tubulação de esgoto estourar e... nem preciso continuar. Sim, não confiei. Mas. Pensei que não custava nada conferir as informações. E assim, eu, M., J., G., F., Mb., e V. partimos em busca da tal estrada -poeira no lugar dos tijolos amarelos- pra pegar a tal carona até Ouro Preto. As demais letras do alfabeto não gostaram da ideia, acharam perigoso, que éramos malucas, etc. etc. Claro que estavam todos certos. Claro que fomos de todo modo. P. e Mll foram radicalmente contra. Bom, Mll. estava mt bem ocupada em sua barraca, e P., deveria ter ido com a gente. Como não sabíamos o que enfrentaríamos, paramos no mercado, abastecemos uma bolsa com suplementos necessários -absorventes, cachaça e biscoitos-, tomamos um bom café da manhã, às 2 da tarde e, depois de quase uma hora andando, chegamos à rodovia e à primeira baixa: F não seguiria viagem.
Na estrada tinha uma fila com uns meninos paulistas (e seus dedinhos), também pegando carona. Mas, poxa, ninguém parava pra eles. Então, nós, moças-protagonistas, fizemos sinal e embarcamos todos. Todos. Até umas outras meninas que foram surgindo. Até a noite começar a querer cair. V. e Mb. conseguiram ir antes de começar a questionar. Eu, J., M., e G., começamos a pensar em desistir pq 1º teríamos que ir em dupla. É, tem isso, não entraríamos na boleia de um caminhoneiro sozinhas. 2º ninguém mais estava parando, até aquele gol azul, mais velho que eu, encostar: Bruno, nosso redentor. Rapaz do bem, indo sozinho pra Congonhas, disse que levaria as quatro até lá, de boa, que era tranquilo ir de lá pra Ouro Preto, pertinho, ele disse.
Mas, espera, o que estamos indo fazer em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿¿¿
Bruno, fofo, nos indicou uma república pra passarmos a noite, e confirmou que era muito tranquilo voltar de carona pra São João. [NOTA MENTAL: nunca, nunca, nunca, nunca mais confiar em algum gatinho-gente-boa que vc conhece há 10 minutos. NUNCA] Claro que nós não confiamos. Mas também não sabíamos da distância, não só entre intenção e gesto, mas entre as duas cidades, nem que não tinha ônibus direto, nem que teríamos que parar em Ouro Branco, nem que eram quase meia noite. [A BOA É NUNCA, NUNCA, CONFIAR EM NINGUÉM, a menos que o Espírito Santo aparece e diga “tá ok”, ou algo do tipo]. O fato é: confiávamos uma na outra, confiávamos que acontecesse o que for, estaríamos juntas, pra gritar, ou pra rir.
Bruno nos deixou na rodoviária de Congonhas, uma da manhã. Como faz p pegar carona na estrada¿ Como faz pra pagar a passagem se todas estavam duras¿ A ideia era pegar um Bus baratinho, descer no tal do trevo e pegar o tal do outro bus, NO MEIO DA ESTRADA, q tava saindo de Ouro Branco em direção ao Preto (quase poético). Como faz pra ficar de madrugada na estrada esperando busss¿ Nesse conflito, com todo mundo da rodoviária ciente de nossa situação, porque é claro que ficamos melhores amigas de todos que esperavam bus ou carona, eis que um cara se apresenta. “Oi, eu sou o Egg, sou policial, e posso levar vcs em segurança”. Egg não tinha cara de bons amigos. Como faz¿
Uma hora depois, descemos no tal trevo, na total treva da noite, passando por uma mata (ou grama, talvez), sem qualquer iluminação. Lembro de andar olhando sempre pro chão, pra ver se achava uma pedra, pro caso do Egg fritar. Passado o susto, pegamos o bus certo, Egg era, de fato, um bom amigo-de-emergência e chegamos bem em Ouro Preto. Mas espera, o que é que é que é que é que a gente tá fazendo em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿¿¿
Saímos da rodoviária, na madrugada, num frio da porra, em busca da tal república que Bruno indicou: a TX, república federal masculina (será mesmo¿). O segurança tinha explicado o caminho e de fato foi tranquilo chegar. Acontece que o tal Recruta Zero, amigo do nosso amigo, já tinha se formado há mais de um ano, e ninguém conhecia nenhum Bruno, e nenhum rapaz de Viçosa. Mas, não sei se pela nossa cara de fome-frio, ou se porque era assim mesmo a vida na cidade das ladeiras, os meninos da TX nos derem abrigo. Nos deram também bebidas, na esperança de que déssemos alguma coisa a eles, mas no fim da noite dormimos super agasalhadas, as quatro, no mesmo quarto, cada uma em uma cama que parecia divina. Nos despedimos e agradecemos na manhã seguinte, porque daríamos uma volta na cidade e voltaríamos pra São João. [qual o nome deles]
Pra economizar no almoço, comemos um pão de queijo e fomos bater perna. Antes, ligamos pros nossos pais, no Rio, pq somos malucas, mas nem tanto, só que não conseguimos falar com o restante de alfabeto que ficou no ENEH de verdade, seus celulares não funcionavam de modo algum. Na rua Direita (caraaaaa toda cidade tem uma rua direitaaa), bem no meio, encontramos V e Mb, que tinham pagado hospedagem numa república particular feminina, na tal da Barra. Elas estavam indo de trem pra Mariana, cidade aqui perto, mas o trem era caro. Seguimos descendo a Direita até que eu vejo uma plaquinha “TATOO” e digo: “partiu fazer uma tatuagem¿”. G e M toparam na hora, J, com alguma sensatez, hesitou, mas acabou indo. Como pagamos a tatuagem¿ Negociamos! Preço mínimo: de R$70,00 pra R$40,00, em cada. Descobrimos que G. tinha um cartão de crédito. G: nós te amamos muito, a gente jura que paga depois. Pedimos um PF num restaurante, pra ver se conseguíamos dividir, economizar; acabamos passando horas no tal restaurante, entre histórias secretas do ifcs e uma tese sobre a coruja da Bruxonilda.
Tatuadas e minimamente alimentadas, duas ruas semi-percorridas na cidade histórica, o que fazer¿ Procurar o bar mais próximo, claro. Entramos no Barroco (aparentemente um clássico de paredes rabiscadas), onde deu-se a primeira parte das “Confissões Sexuais”, com revelações surpreendentes. As imagens são impressionantes. Tem certeza que não doeu¿¿¿ Como faz pra pegar carona bêbada¿ Já anoiteceu¿ Onde vamos dormir¿ Os rapazes da Diretoria. Os intrometidos da Antares. No Rio tem puta, pagodeira e funkeira, e nós, NÓS NÃO SOMOS NADA DISSO. Noite na rep particular masculina, casa amarela, o cão chamado Bino, medo. VAMOS EMBORA – linguagem labial. Pedrinho, tarado inconveniente, papo reto. M. pseudo-encoxada. S.
O que a gente tá fazendo em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿¿
Aquela noite foi a pior. Não conseguimos dormir, de frio. De medo dos caras entrarem no quarto. Medo do bicho papão. Sei lá. Medo da história, incessantemente evocada naquele lugar, naquele quarto. O quarto a Bruxa de Blair.
Raiou o sol. Saímos correndo. Decidias a abusar do cartão de crédito de G., fomos pra rodoviária, nada de carona, nada mais de aventuras. Não tinha ônibus. Comprar calcinha. Bom, vamos tomar um banho. Era R$5,00. Dissemos que só iríamos fazer xixi. De graça. Tomamos banho escondidas. Saímos de lá um pouco refeitas e decidimos tentar mais uma carona. Foi mais por desencargo de consciência, ninguém mais queria brincar de aventura. Ligamos pra V e Mb, mas elas já estavam voltando, pegaram o ônibus que a gente perdeu. Ligamos pros nossos pais, poq, somos responsáveis, mas ainda não conseguíamos contato com o alfabeto, vivendo outra realidade em São João. Decidimos conhecer Mariana e depois pensar no resto.
Demoramos mais tempo para chegar lá do que para conhecer a cidade, que só tem uma praça e um PF baratinho. Comemos, tiramos foto na pracinha com o coreto e voltamos. Nisso, no caminho de volta, no meio daquela paisagem arrebatadora, no charme que só o frio das montanhas tem, M. lança a hipótese de que nossa barrinha da sorte estava acabando. Sim, aparentemente temos uma “barrinha da sorte” que é renovada a cada evento ou pequena aventura da vida, a nossa, que então contava a soma das quatro, já deveria estar no fim... Chegamos à rodoviária e a uma “crise conjugal”: pegar outra carona¿ usar o mágico cartão e ir baldeando, de cidadezinha em cidadezinha¿ esperar o próximo bus, que sairia na manhã seguinte¿
O fato é: estávamos (estamos) presas em Ouro Preto, como os caras naquele filme O Anjo Exterminador. Tiramos uma foto, na igreja perto da rodoviária, para um dia colocarmos num álbum com a legenda: Buñuel. Compramos a passagem para o dia seguinte mesmo. Ora o que fazer. O que fazer¿¿ Então, levando em conta que eram umas 18h, o jeito era procurar o bar mais próximo. Andamos sem destino, sem querer subir muitas colinas, e encontramos um barzinho super charmoso, com um preço decente, super quentinho. Resolvemos ficar. Confissões sexuais pt 2. Momento escatológico. Cerveja enviada pelo cavalheiro da mesa ao lado. Quem¿¿¿¿ Edmilson, o simpático. A trilha sonora da máquina. “M. é uma mulher suja”. O cavaleiro se apresenta: é dada a largada. E os pulinhos de J.¿¿ “Mas, é doce¿”. Seu Jorge. Ele usa aliança. Quem¿¿¿ Qm é Daniel¿¿
E agora: estamos aqui, ainda no bar. E nem sei o nome do bar ou da rua. O dono do bar, que achávamos que fosse só o garçom, ouviu a gente comentar nossa pequena odisseia e ofereceu abrigo. Disse que podíamos dormir aqui. Aqui dentro, olha que incrível! Claro que tem um segurança que dorme aqui também, mas tá de boa. As meninas tão dormindo já. Ou fingindo. Descolaram até uns colchonetes pra gente. Cara lá fora tá muito frio. To aqui pensando que se eu deveria ter seguido o cara que ofereceu as cervejas... tinha tempo que eu não ficava com um cara gato assim... Mas também... largar as meninas aqui e ir desbravar as ruelas de Ouro Preto com um desconhecido... náaa. Tivemos muita aventura nos últimos dias. Ah, eu podia escrever algo melhor. No Rio. Depois do Projeto.
O que a gente tá fazendo em Ouro Preto, se o ENEH é em São João Del Rei¿ Tentar resp isso qd voltar pro Rio.
Escrever roteiro qd voltar pro Rio.
Escrever projeto de monog. qd voltar pro Rio.
Trab. Am. III, prova Br I. Merda.
Mandar e-mail pro preto gato de ouro preto.

* * *



Oi, voltei. Alice, escrevendo de Salvador, terra mais linda, bem em 2014. A história é essa que vcs leram. Tem umas outras coisas anotadas no caderno; quer dizer outras histórias. Será que ela e as outras conseguiram voltar pro Rio¿ Tô pensando aqui que se ninguém se manifestar, se ninguém souber o paradeiro dessas meninas, dessa história, vou mesmo é transforma-la num roteiro. Escrevi esse pouquinho aqui, copiei essas palavras todas delas, e me bateu uma baita vontade de escrever também. Gostei dela. Claro, tadinha, era só um rascunho, sei, mas ela escreve como eu queria escrever, tadinha. A gente se parece. Sei lá. De repente uso mesmo as ideias do caderninho. Achado não é roubado. Sabe como é... num tá fácil pra ninguém. E eu to aqui, bem tentando devolver, ou tentando conhecer, sei lá. Beijos e abraços a tod@s.

sábado, 2 de novembro de 2013

DENTRO DA CANÇÃO SELVAGEM

Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Ricardo repetia essas palavras a si como um mantra para a salvação eterna, para a danação eterna. As cartas do baralho cigano tinham mostrado um homem de negócios em seu caminho, sucesso na carreira, uma viagem, dinheiro, paz e até mesmo um novo amor, tudo isso “num futuro próximo”.
E não importa o tamanho ou intensidade do ceticismo nosso de cada dia. Acredito piamente que previsões feitas por pessoas fantasiadas, e fantasiosas, sempre embutem um tanto de esperança nos frágeis corações que se deixam passar pelo minucioso processo investigativo-divinatório de tarólogos, astrólogos e afins. Digo frágil porque pessoas como Ricardo, que se encontram em alguma das inúmeras encruzilhadas da vida, constantemente acompanhadas por incertezas trabalhistas e amorosas, costumam carregar um semblante débil, dispostas a tomar para si respostas metafísicas para questões de ordem pragmática.
            Ricardo havia feito de tudo para conseguir aquela vaga, que lhe salvaria a vida, as finanças, as hemorroidas, os hematomas, os ossos quebrantados, a pele curtida. Havia feito de tudo para fugir da existência miserável que perseguia sua sombra, sem sombras de dúvida. E agora José? Drummond não viria para redimir as coisas, ou para explicar as moscas que rodeavam suas ideias.
Quando se candidatou à vaga, Ricardo estava de mudança, ainda que não soubesse ao certo onde iria morar. Tinha uma semana para se livrar de um apartamento cheio de mobília, lembranças e a sensação de uma vida interrompida. Espalhou suas tralhas nas casas dos amigos mais próximos, jogou um bocado de coisa fora; desmontou-se. Resumia-se, então, todo ele, a uma mochila, um vasinho de espada-de-são-jorge, uma estante vermelha e um quadro com um pôster do Magritte em preto e branco. Inscreveu-se no site da empresa numa lan house, com o mochilão apoiado no balcão, minutos antes de fechar um contrato informal para alugar um quarto em uma casa de hippies anacrônicos, bem no centro da cidade. Na sequência, digitou um sms para Renata: ainda n terminei o cap 2, mas pelo avanço d ontem acho q até o final do dia rola. E aí? Com todas as merdas que estavam acontecendo, gostava da ideia de ter uma namorada, mesmo que de maneira casual.
Leu a resposta enquanto comia um joelho com refresco de caju: Pois é.... eu tenho uma sugestão: a Ju vai comemorar o aniversário dela hj "Casarão 70", na Bento Lisboa. Pelo q entendi vai ser uma festinha tranks, tipo música ao vivo, de graça. Partiu? Bjssss. Leu a resposta e quase perdeu a fome pensando por que, meus deus, por que as mulheres escrevem tanto?... Como dizer que eu só quero tomar uma cerveja, abraça-la a assistir um filme explosivo? Melhor não dizer nada. E não disse.
A casa dos hippies era imunda, tinha quinze cachorros, um cágado, dois gatos, e nenhuma faxineira ou diarista, pelo que lhe informou Tomás, o gerente pancado que o recebeu e o acompanhou ao tal quarto. Em poucos dias Ricardo descobriria que Tomás fechava o registro da água para economizar, deixando os banheiros intransitáveis com todo o tipo de odor que o corpo humano pode produzir, que além das pulgas a casa era enfestada de baratas, que passeavam tranquilamente por toda cozinha, que o casal do quarto ao lado protagonizava agoniantes cenas de violência doméstica, que metade dos moradores passava o dia inteiro no sofá da sala fumando um e bebendo um chá. Era o único lugar que ele tinha, o único que podia pagar, o único que conseguira em uma semana.
Uma vez instalado, tratou de mandar notícias aos amigos fiéis que nunca lhe perdiam de vista, por mais que ele se escondesse. O e-mail foi rápido e honesto: A vida anda boa, uma vez que ainda não me matei... as novidades são: não tenho um emprego para o próximo ano, minha tese insiste em se mostrar cada vez mais complexa e, ao mesmo tempo, incompleta, além disso, só a perspectiva de morar com meus pais em Vassouras me causa ânsia de vômito, estou enclausurado em três metros quadrados de paz e ar-condicionado, tendo por companhia minha insana consciência que martela as mais absurdas verdades e os mais dolorosos delírios e, assim, no caos, vou tentando escrever e não enlouquecer por completo. Releu o texto algumas vezes antes de enviar e decidiu que era melhor jogar limpo mesmo.
Na terceira vez que sua mãe ligou ele resolveu atender. Estava aos prantos porque ele não dava noticias, porque o celular dele vive desligado e dizendo que ele nem sabia que a avó centenária estava internada e que seu pai... e que... e que... já não ouvia mais. Saiu de casa em direção à biblioteca e, porque sua vida não fazia sentido mesmo, pegou um papelzinho que dançava no ar, exibindo-se pela Presidente Vargas como que por encanto. Ele achou bonito o papelzinho rosa-enjoativo rodando no ar, na hora lhe pareceu muito semelhante à sua própria vida. Era o anúncio de uma cartomante que atendia ali perto.
Aquilo pareceu tão bizarro que pensou a respeito. Sua vida estava tão bizarra, que ousou consultar a pseudo pitonisa do Saara. Afinal, que mal faria? Que mal faria a uma alma aflita, o conforto de incensos e pequenas sementes de esperança? Pode parecer exagero meu, mas acho que aquele foi o maior erro de Ricardo. Contudo, se apostar sua perspectiva de vida nas palavras de uma desconhecida lhe pareceu razoável, que acerto poderia obter aquela cabecinha em meio à sonoridade carioca, sob a luz aturdida e paralisante de dezembro?
            Ricardo voltou ao lar hiporonga impactado pelas previsões de vitória. Tanto que nem mesmo estranhou quando o gerente declarou em alto e bom som que era michê e recebia senhoras (ditas “patrocinadoras”) naquela casa nojenta – dizia aquilo porque precisava montar um esquema com os outros moradores da casa para as próximas visitas. Ricardo consultou diversos oráculos através do oráculo-mor, Google, e confirmou que seu mapa astral era digno de um grande estadista, que seu horóscopo chinês ressaltava suas inúmeras qualidades de bom guerreiro, e que sua numerologia para o apocalíptico 2012 era extremamente favorável.
De alguma maneira, aquilo gerou uma sensação de bem estar explicável apenas através de algum complexo aparato teórico da psicanálise. De uma hora para outra Ricardo era um cara de sorte, que exercia sua anima de maneira saudável, tinha boas perspectivas de terminar sua tese em paz e conseguir um bom emprego, como uma espécie de recompensa por todos os perrengues enfrentados ao longo daqueles quase trinta anos.
Sob tal estado de espírito respondeu aos amigos queridos: Hoje acordei melhor... pensando que essa existência de merda é, com ou sem gozo, passageira, e que com ou sem vontade de existir, com ou sem "vontade de potência", the show must go on, e assim que eu defender a tese vou sair do Brasil, devo ir para Buenos Aires, Madrid, Dubai, sei lá, mas tenho certeza de que Pangloss estava certo e tudo vai bem no melhor dos mundos possíveis... risos. Devo trabalhar em alguma coisa na minha área mesmo, mudar de ares... que sabe me casar?
            Talvez pela infelicidade da citação no e-mail, ou por capricho do universo, ou pela canalhice que rege alguns processos seletivos, ou simplesmente pelo fato de Ricardo não ser bom o bastante, ele não conseguiu aquela vaga. Nem a outra que tentou na semana seguinte, nem foi classificado no concurso público que tentou alguns meses antes e que só agora saia o resultado, nem aquela outra para o qual havia sido indicado pelo doutor fulano de tal. Nada. Nem havia no quarto infestado de pulgas sua amada guitarra com a qual gritaria uma canção desesperada, uma canção vinda de dentro da canção selvagem que vibrava e regurgitava em cada célula do seu corpo estendido no chão feito detrito.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Repetia a si como um mantra para a salvação eterna, para a danação eterna. As paredes do quarto tão pobremente mobilhado careciam de sentido, as sacolas no chão, espalhadas como praga, tão pouco tinham razão de ser; com os livros deveria limpar o rabo, com as roupas deveria fazer as velas do barco, que teria como base a madeira da estante vermelha e o armário da loja vagabunda. Por onde andaria Renata àquela hora? Por que fazia sol ao redor da praça? Por que as outras pessoas conseguiam sorrir? Por que as outras pessoas pareciam confortáveis em sua condição humana? Ao menos pareciam...
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Era só uma vaga no mercado de trabalho... Crianças continuavam sendo escravizadas em Dubai, o preço do café continuava a disparar no Rio de Janeiro, bolivianos continuavam a invadir São Paulo, pessoas continuavam a ocupar Wall Street, velhos barrigudos continuavam a peidar, mulheres barrigudas continuavam a parir. Não havia conseguido a vaga, mas e daí? Deveria, por isso, matar Madame Rigoletta? Deveria, por isso, se matar? Deveria, por isso, o mundo acabar?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Arranjaria outra, melhor ou pior, mais ou menos digna, e o mundo não se alteraria por isso, a ordem das coisas continuaria a mesma. Por que então o desespero? Por que a sensação de que a vida, num átimo, havia perdido o sentido, total e completamente, com todas as redundâncias que isso pode suscitar? Uma pessoa a mais desempregada, uma pessoa a mais fudida, uma pessoa a mais deprimida e concordando com cada vírgula de Sartre. E daí, Ricardo?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Tinha um enorme relógio na parede que não parava de tiquetaquear de demonstrar que a vida seguia ininterruptamente com ou sem a maldita vaga com ou sem a porra de um colo de um consolo de uma droga anestésica qualquer com ou sem mim com ou sem Renata ou seja lá qual for o nome dela com ou sem um ou vários deuses e assim os ponteiros despregaram dos números e ficaram içados girando como se dizendo-se onipresentes como se o tempo em si fosse o único deus existente como se as mazelas daquela forma de vida encolhida humilhada e ofendida por causa de uma merdinha de vaga significassem poeira estrelar lixo espacial prestes a se perder e a vagar pela eternidade a esmo como uma marca de Caim amaldiçoando cada tentativa futura cada tentativa furtiva de progresso como se aquela vaga imbecil não fosse a coisa mais importante na vida daquele ser humano desprezível e assim os ponteiros seguiam zombando daquilo tudo zumbindo com os acordes de metal que tentavam aclamar o ambiente tenso pesado estéril
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Sentia uma dor física em algum lugar entre o pulmão e o estômago, entre algum ponto que ia da sola dos pés até o couro cabeludo, queria que não houvesse ninguém por perto, mas o quarto estava cheio de ponteiros abusivos, de pessoas queridas, de fantasmas, de inimigos, de familiares, de amigos que te dão tapas na cara, de amigos que te expulsam de casa, tudo sem mais nem por que.
Resolveu que seria melhor ler alguma coisa para se acalmar, mas toda aquela água no rosto deixava a visão turva, e as palavras na tela do computador pareciam símbolos místicos, códigos extraterrestres. Saiu, então, para caminhar, ainda que fosse preciso fazer uso da velha bengala, guardada nos mais profundos baús de sua  memória. Pela rua havia tanta gente... tanta gente feliz... tanta gente vivendo com ou sem uma importante vaga... Como era possível aquelas pessoas não reconhecerem uma alma aflita? Como era possível ninguém distinguir a angústia insuportável, explícita nas chagas sangrentas que pululavam dos braços frouxos? Como ninguém deteve aquele anjo caído?
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... sussurrou essa ladainha enquanto caminhava da Biblioteca Nacional até o Bar do Adão, enquanto passava por rostos conhecidos até reconhecer o meu, sentada, sozinha, revisando um artigo e tomando uma cerveja. Parei de ler. Ele parou de falar. Bebemos um pouco. Suas mãos tremiam e eu não sabia o que fazer, embora não soubesse o que estava acontecendo. Eu não queria saber, não queria fazer parte daquilo, não queria sentir pena, medo, raiva, não queria sentir nada. Ricardo via uma chuva fina de meteoros rasgando o toldo, sentia cheiro de enxofre, sucumbia a calafrios por conta do furacão que se anunciava, repetia em portunhol chinfrim as profecias maias e, por fim, pediu uma Nega Fulô.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... Essa auto piedade exacerbada, essa ideia fixa de que o mundo estava realmente se acabando por causa um único revés (ou pelo apanhado de uns poucos reveses) me deixava louca, conforme Ricardo a apresentava, paulatinamente. Eu não queria aquela realidade... não daquela forma, goela abaixo, sem atenuantes, justificativas prévias ou apenas luzes florescentes que lhes conferissem algum sentido. Sim... a eterna e inútil busca por sentido qualquer... Eu ouvia aquele conjunto de mínimas catástrofes, de acontecimentos ordinários e simplesmente não decidia o que pensar sobre eles. A vaga, a cartomante, os ponteiros... Suas falas eram entrecortadas por suas alucinações, que por sua vez, me pareciam tão verídicas que eu me sentia em uma superprodução estadunidense. Por dois segundos considerei segurar suas mãos e fugir do tsunami, procurar o bunker mais próximo, encontrar o messias mais adequado e esperar pelo pior ou pelo melhor dos mundos possíveis, candidamente.
Também quis berrar um foda-se, quis compor uma melodia atenuante para meter bem dentro da canção selvagem, que ele persistia em destilar entredentes. Paguei nossa conta e ofereci carona, abrigo. Ricardo me sorriu com impressionante lucidez, disse que passaria na tal casa caótica, pegaria suas coisas e passaria uns tempos comigo. Fiquei observando enquanto ele caminhava em direção ao ponto de ônibus. Era impressionante como daquele modo, de costas com uma mão no bolso, ele era exatamente o garoto que conheci no colégio, tantos anos antes. Tive vontade de correr e abraça-lo, mas contive o estranho e súbito instinto maternal.
Não é o fim do mundo, não é o fim do mundo, não é o fim do mundo... sei que repetiria essas mesmas palavras até o fim dos tempos. Até que parasse de doer, até que sua cabeça parasse de chover e trovejar, até que elas também perdessem o sentido na hecatombe psicodélica que se afigurava na fumaça da metrópole, até que tivesse início uma existência automática, até que lhe dessem a pílula lilás, até que novamente encontrasse o coelho branco idiota para lhe cuspir na cara.


Nunca mais tive notícias de Ricardo, ou de sua canção selvagem, ou do mundo que se acabou com ele dentro. 2011 foi um ano estranho e nublado, mas 2012 seria muito pior.

domingo, 27 de outubro de 2013

A história do gozo


          É incrível como a Baía de Guanabara é ainda mais bonita vista de Niterói, né?! Quer dizer, daqui também é lindo, mas sei lá... Mas esse não é o ponto. Não, eu não vou ficar falando daqui da janela. É que tem um tempo que eu não vinha aqui... tinha esquecido como é bonito. Bom, pouco importa a paisagem quando o gozo da transa matinal escorre pelas suas pernas e você só pensa em como começar a conversa que vai vetar aquele sêmen àquela e qualquer outra parte do seu corpo. Né?! Quer dizer... especialmente se foi uma boa transa. Tô aqui falando em paisagem, pensado na vista da varanda da casa dele, mas podia ter sido em Bangu, Botafogo, Paris, daria no mesmo. Mentira. Passada em Paris, a história teria esse charme que a gente gosta de dar ao estrangeiro. Ah, Dr. Lacerda, você me pediu pra ir direto ao ponto e agora quer preâmbulos.
          Eu queria terminar, então terminamos. Tá. Eu queria só conversar, terminar, ganhar uma declaração de amor beeeeeem brega e aí, de repente reatar, isso num espaço de duas horas, com direito a cachaça. Não, Dr. Lacerda, não se trata de projetar minhas ficções... eu só fiz um plano... todo mundo faz planos, milhares deles, cotidianamente. Mas então, eu tava segura em relação a isso, à minha decisão de terminar o namoro. Como assim eu não queria terminar?! Pois se eu tinha preparado a roupa pra ocasião, o rímel, o delineador, o discurso “te-amo-mas-tô-confusa”, tudo! Eu não crio “uma realidade paralela na qual as coisas são resolvidas através de conflito e drama”! Eu hein. Achei que seus “diagnósticos” vinham depois do meu relato. Eu não estou sendo sarcástica, nem tô negando porra nenhuma. Ok... continuando.
         É...
         Eu...
        Ah, sei lá se eu ainda quero falar disso, dele, da vida. Tenho uma infinidade de trabalho atrasado... e.... Num sei. Pois é, né, eu deveria gastar a grana dessa hora fazendo o cabelo. E porque te parece importante que eu fale sobre isso? Sério, Dr. Lacerda! Engraçado que eu nunca reparei que fico suspirando quando tô preocupada... Será? Tá.
Quando eu saí da casa dele só pensava que eu tinha levado meu primeiro pé na bunda, que eu tinha sido, de certa forma, humilhada, que eu tinha dito um monte de desaforos descabidos de mulher recalcada e que o Rio fica tão lindo nublado. Agora que já passou um tempo, vejo que os desaforos não eram tão descabidos, que de fato eu queria manter um namorado, não ele, especificamente ele, o Homem H.
         É sério. Tá.
        Eu levei umas 13 horas pra chegar na casa dele. Ah, carro quebrado, mecânico gato, divagações sobre uma geração que não consegue se encaixar profissionalmente nem se engajar politicamente, uma queimadura na mão e muita revisão dos argumentos pró e contra o namoro. Mas porra, é só um namoro... Dr. Lacerda, você acha isso mesmo...? Ah, isso não deveria tomar tanto tempo na minha vida, na vida de ninguém... O marcante mesmo, o impacto da coisa tava no gozo que escorria. Quer dizer, de repente eu nem estaria aqui dando tanta atenção a isso se... Ah... Tá.
     Aí... aí eu cheguei lá. Puta da vida com a viagem, cansada, genuinamente confusa em relação à importância que eu dou aos meus sentimentos, querendo uma cerveja, um cigarro e um cafuné. Não queria pensar em nada, decidir nada. Aí conversamos. Sentamos na varanda e, olhando sempre pra Baía, nunca nos olhos, conversamos como dois bons amigos. Falamos da viagem, das divagações profissionais, do Flamengo, do Fluminense, da Copa, do Cabral, da menstruação. Falamos até às 5 da manhã. Até a gente ir dormir. Não, ele parecia normal... quer dizer... agora acho que ele já parecia querer conversar, que nem eu. Acordamos, transamos. Foi bom. Pensei de novo se eu queria mesmo terminar; pensei que eu queria encontrar uma resposta pronta dentro de mim; queria fechar os olhos e acessar um arquivo interno com respostas precisas pras minhas dúvidas; queria não ser humana.
        Ele arrumou a bagunça da madrugada anterior enquanto eu pegava minha caneca de café. Nessa hora, vigiando o trajeto de um barco, sentindo o gozo escorrer pelas minhas coxas, sentindo o calor da atividade sexual ainda percorrer minhas veias, bebendo o café devagar, eu pensava que não dava pra terminar ali naquela mesa de café da manhã fofa que ele tinha preparado. Não dava. Comecei a voltar atrás, a pensar que na verdade tava tudo bem. Foi então que ele me chamou pra sentar na rede com ele, no colo dele. Com os olhos marejados ele me olhava e formava uma ruga na testa e suava e desviava o olhar pro chão e me olhava de novo e gaguejava e suspirava e derretia sob o sol de inverno e procurava alguma coisa ao redor de si e angustiava com mais rugas e suspiros.
           “Não é fácil pra mim te dizer isso...”.
Prontosurtei. Putaquepariusurtei. Putaquepariuesseputoquerterminar. “Que isso, gatinho, fala logo...”
         “Eu andei pensando... é.... acho que... ah, não sei... eu acho que tô um pouco confuso e... talvez seja melhor...”
         “Cara! Que bom que você falou isso! Ai! Vim a viagem toda pensando nisso, pensando se eu quero um namorado ou se eu quero você, sabe? Pensando se vale a pena, pensando que eu nem sei direito o que eu sinto por você... Quer dizer, nem preciso te dizer que eu só não te traí porque tá foda, não encontra homem que  preste, nem pruma transa... te contar que a vida não ta fácil... hahahahaha O que foi?!! Que cara é essa?!”
          “Só achei que sua reação seria outra...”
          “Mas me conta, você tá comendo alguém?”
          “(...)”
          “Fala! (risos)”
          “Não.”
         “Ah, você achou que eu fosse chorar? Hahahahahahahahahaha. Ai ai... enfim, bom resolvermos tudo assim, tudo numa boa!”
       Ah, Dr. Lacerda, que isso foi uma demonstração de imaturidade emocional eu já sabia. Quero entender porque eu sempre saio de um relacionamento trocando farpas, ou aos berros, ou aos prantos ou... hahahahahaha Mais 5 anos de análise?! Tá. Então, depois eu fui beber, óbvio, com o C. em Copacabana. No caminho pro bar, quem eu encontro na rua? Ferreira Gullar! Claro que eu não o conheço... Mas ele sempre circula pelo Lido, cansei de vê-lo por ali. Enfim... achei que seria bacana escrever um poema pro Homem H. É, tive a ideia lá pela sexta dose. Achei um post-it na bolsa e fui escrevendo no táxi e... ah, o C. ficou pouco tempo, tinha que ir pro ensaio da peça, aliás, estreia hoje! Enfim... acabou que eu resolvi visitar meu tarólogo na galeria Ritz. Acabou que ele não tava lá e eu achei meu bilhete muito brega, deixei pregado na porta dele...
      Como assim acabou meu tempo?! Você não quer mais me ouvir?! Mas eu nem falei das coisas importantes, nem falei sobre como me sinto muito melhor agora, solteira. Na verdade acho que é mais um alívio por não estar em compromisso com alguém que eu nem sabia o que sentia s... É claro que a gente sempre sabe quando ama uma pessoa... mas... ah, para, esse lance de que amor é uma coisa complexa é mui... tá, entendi. Só mais uma pergunta... esse tempo todo que eu venho aqui, contando as férias que você chama de “ausências”, eu tenho te chamado de Dr. e talz... Então, Lacerda, você tem doutorado, quer dizer, defendeu uma tese e coisa e tal, ou a gente aqui só tá corroborando um senso comum de tempos passados?

domingo, 25 de agosto de 2013

Na Ritz

            Vejam vocês, Marisa estava morando em Botafogo. Descolou um trampo como babá, que conseguiu conciliar com o permanente ofício de “vendedora da Avon”. Agora, quem conhece Marisa assim, na superficialidade de seus sorrisos de botequim, podia imagina-la (ah, a gente sempre imagina figuras como Marisa) quase como uma garotinha-zona-sul; ela, que até pouco tempo era orgulhosa moradora de Paracambi. Ninguém tem a real dimensão do que era morar num quarto alugado na casa de um sujeito machista, misógino, careta e covarde, trabalhando 13 horas por dia, gastando cada centavo de seu salário para experimentar (voluntariamente, eu diria, antropologicamente) os agouros da vida burguesa com gostinho de maresia ao final de cada provação etílica. Bom, Marisa achava (e talvez ainda ache) que ninguém tinha, que ninguém entendia e disso se queixava aos montes. E quem acreditaria se contassem que viram Marisa, numa manhã particularmente quente e bela, a caminhar pela Voluntários da Pátria com olhos marejados de dor e desespero, a desejar colo e conformismo?!
            Isto porque Marisa é leve de obrigações da vida normativa, especialmente no que diz respeito à profissão: nem cogitou ensino “superior”, paga uma modesta previdência privada e, muito filósofa, acha que “dinheiro é pra gastar e vida é pra viver, sem mimimi, sem ninguém para te bancar e, portanto, manipular” [sic]. É leve e gosta de rir de tudo, de todas as dores, as suas e as alheias. E lá estava ela, linda, independente, com uma puta dor de dente, sem um centavo no bolso ou qualquer vestígio de sarcasmo no rosto. Apenas a alguns metros do trabalho se percebeu olhando para a Unidade de Pronto Atendimento com algum interesse.
Não cabe aqui narrar o que ela pensou sobre o sistema de saúde público da cidade do Rio de Janeiro, em parte porque a indignação de quem depende dele é tão unânime e pública que seria redundante acrescentar mais um lamento, em parte, grande parte, porque não sei, precisamente, o que se passava por aquela cabeça – Marisa não é criação minha, não é personagem parida do narrador, ela pertence ao mundo e àqueles capazes de enxerga-la. Aliás, esta história, ouvi da boca dela, num bar em Maria da Graça.
            O atendimento foi rápido. Diagnóstico: olha, acho que é virose... brincadeira... pode ser o sizo... pode... e porque você ainda não tirou esses sizos... que estranho... bom, pode ser um canal... quantas vezes você usa fio dental [nota mental pervertida na cabecinha de Marisa]... sei... mas pode ser uma inflamaçãozinha na gengiva... coisa básica... é... eu sei que tá doendo... vou de dar um remedinho óootemo... mas é... você tem que procurar um dentista particular... é... eu sei.... mas aqui eu não tenho recursos pra examinar.... aham... sei... posso te dar um encaminhamento prum posto pra depois você ir de repente prum hospital, mas até lá minha filha... já era sua boquinha... Com uma risadinha cínica o dentista deu um encaminhamento para fazer radiografia e um endereço em Copa, de um camarada, que trabalhava com preços populares.
            A “avenida copacabana”, como dizem os antigos em menção à Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sempre conservou (ou concentrou) seu melhor e inegável caos nos quarteirões entre as ruas Santa Clara e Siqueira Campos, muito, mas muito antes de qualquer ideia de metrô. Rasgando o bairro, antes como navalha do que como aorta, esse passeio público abriga todos, dentre os inúmeros, estereótipos outrora poetizados, cada qual em seus respectivos trechos. Um sujeito incauto, que se atem à certeza do trocador do ônibus quando este diz que para chegar ao número 500 da Avenida você tem que descer no ponto da Barata Ribeiro, perto da Dias da Rocha, vai chegar atrasado em seu compromisso, mas, se vale de consolo, poderá desfrutar de uma elegante caminhada pela desordem urbana no compasso dos (nem sempre simpáticos) aposentados.
            Marisa, esperta e moderna, saiu do metrô na Figueiredo e, no tempo de uma trovoada, estava em frente ao número 610: Galeria Ritz, edifício que nasceu para sepultar o charmoso cinema dos anos 1950. Para ter acesso ao oitavo andar era necessário passar pelo combinado semipsicodélico, multicolorido, sob vacilante luz amarela, e que engloba todo o tipo de comércio conhecido pela raça humana (minha sobrinha jura que certa vez viu uma moça muito “pintada” vendendo dois coelhos brancos nos primeiros degraus da escada). A Ritz é como a imagem que Hollywood nos passa de Bangkok.
            A concepção de edifícios mistos, isto é, aqueles que abrigam num mesmo corredor consultórios médicos e residências familiares, sempre pareceu uma aberração para Marisa. Porém, naquela tarde de verão sua dor era tanta (agora assolando metade da cara) que prendeu a respiração e só soltou quando a secretária abriu a porta do 823.
            Horas depois, com 2 dentes a menos e um cheque pré-datado que ela ainda não sabia exatamente como cobriria, Marisa caminhou em direção ao elevador; com a felicidade modorrenta da anestesia. Achou até graça do urro saído de uma porta com anúncio de estúdio de tatuagem, enjoou um pouco com o cheiro de frango frito, vindo sabe-se lá de onde e demorou um tanto para notar o papel avisando que o elevador estava parado. Parou no quarto andar para pegar um ar quando reparou numa porta, definitivamente residencial, com os dizeres “Lar Feliz” no tapete gasto e, ao lado, dois sacos pretos cheios, daqueles que a gente usa para lixo ou para mudanças quando faltam malas. A porta parecia ter sido arrombada algumas vezes e, um pouco acima da maçaneta havia um bilhete colado, ocupando dois post-it gigantes e rosa choque. Ela leu aquilo umas três vezes antes de tirar uma foto, aproveitando a modernidade telefônica dos dias de hoje. A nota dizia: 

Mas é claro q nós sabíamos q eu escreveria qualquer merda...
Eu só queria ter certeza de q estamos fazendo a coisa certa, queria confirmar (a mim mesma) q foi uma decisão de comum acordo, q eu já sabia no q ia dar.
Queria ter certezas, a despeito de saber q elas não existem para além das ficções.
Queria falar à toa, pq sou dessas, pq sempre falo pra caralho.
Queria não me sentir estranha...
e no fim das contas, pouco importa o q eu quero ou digo
(...)
vida q segue.
             
              Marisa desceu as escadas em silêncio consigo mesma e atravessou a rua em ato mimético às mocinhas com uniforme de escola particular. Deu por si na Atlântica, cega pelo azul esbranquiçado de sol. Seu telefone tocava, era a patroa. Pegou o ônibus de volta a Botafogo e então só conseguia pensar na história. A história por trás daquele bilhete que não fazia o menor sentido na cabeça de Marisa. E não era culpa dos psicotrópicos: a necessidade vil de saber, investigar, julgar, monitorar e criar a vida alheia faz parte do cotidiano de nossa sociedade há algum tempo.
            Tão logo chegou na Princesa Isabel, a autora da nota já tinha um nome: Aurora, inspirada menos pela Disney e mais pela marchinha de carnaval. Aurora morava com Luciano (Marisa era fã número um do parrudinho que faz dupla com o Zezé) e o poodle Zequinha no apartamento emprestado da madrinha e viviam um constante inferno astral no relacionamento. Aurora já havia parado de cheirar umas mil vezes, enquanto Luciano vira e mexe chegava em casa com purpurina na cueca e cheiro de lubrificante. Aurora perdeu a conta de quantas vezes caminhou até a delegacia e voltou para casa com medo e amor. Luciano já nem sabia mais onde morava, de tanto deixar Copacabana para trás.
            Mas aquela sexta-feira foi marcante, foi o suficiente para Aurora trocar a fechadura da porta e deixar o que restava dos cacarecos de Luciano literalmente para fora de sua vida. Há uma semana não se falavam. Aurora deu a notícia de que começara a trabalhar de modelo para um velho escultor que tinha um atelier no andar de baixo minutos antes de saber que Luciano trouxera Lilá, travesti mais querido da Ritz, para morar com eles, dividir as contas, essas coisas. Aurora e Lilá eram amigas, acostumadas a dividir elevador, roupas, carreiras, gozos; não havia motivo para não dividir também o teto e a cama. Eram tão amigas que em pouco tempo Luciano tornou-se presença desagradável e mal cheirosa. Tão amigas que começaram a posar juntas para seu Agenor. Não havia mais espaço para Luciano. Nem para suas brigas e porradas na cara. Era tempo de tomar uma decisão.
            Novamente Voluntários da Pátria. Marisa andava pela calçada olhando o chão, tentando achar alguma pista sobre o fim daquilo tudo. Parou em frente a uma banca de jornal e releu o bilhete. Quem Aurora teria expulsado? Marisa sabia que precisava de um nível de abstração e criatividade acima do seu, sabia que alguém teria que ajuda-la a terminar a história.
No apartamento de fundos, em um dos quinze cômodos que o compunham, duas meninas gritaram de alegria quando viram Marisa entrar. A patroa dissera que estava tudo bem se ela quisesse descansar, nem precisava levar as meninas para o play... era só ficar ali, quietinha, sem falar nada, assistindo tv com elas. Compreensiva ela. Mas Marisa não podia calar.
            “Meninas, vocês conhecem a história da princesa Aurora e do príncipe Luciano? Eles viviam num lugar muito muito distante, e muito muito esquisito, chamado Copa...” 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Retorno de Camus


Você já sentiu dor? Já sentiu seus ossos vibrarem numa dança bizarra e apavorante? Já pensou que o mundo poderia acabar a qualquer momento com um raio indo parar bem no meio da sua cabeça? Lady Cat me encarava como se me fizesse essas perguntas; me encarava com aqueles olhos amarelados e cremosos, iluminados pelos clarões de quando em quando da tempestade lá fora. Eu queria apenas fazer uma ligação, fazer um sexo, mas minha mesa de trabalho estava tão entulhada, tão atolada de tarefas pela metade que eu até perdi o tesão. Bom, eu poderia me excitar de novo se exatamente naquele momento, entre clarões e olhares amarelados, alguém me jogasse bem em cima de toda a papelada e aparelhagem e me comesse com força, com raiva. Lady Cat não conseguiria, mesmo que se esforçasse. Na verdade, naquela letargia, nem faria muita diferença.
Pensei em sentir ciúmes e recalques com as últimas notícias que recebi, mas, porra, eu já estava sentindo muitas coisas; simplesmente não havia espaço para acrescentar mais nada, assim voluntariamente. Outro dia vi uma foto minha antiga e me apaixonei por mim, pelo meu eu daquela época, lembrei das piadas que eu fazia e das dores que não sentia, me apaixonei então pela mesma pessoa por quem você se apaixonou há sei lá quantos anos. Sorte a sua; ela já não existe mais.
[Admito: já quis que você me redimisse de meus próprios pecados. Mas esse desejo passou no tempo de um cigarro, como tantos outros, calados e urgentes. To ouvindo aquele (nosso) disco do Moska. Putz. Grandes metas, grandes merdas.]
Minha consciência tem estado deserta de razão, já há algum tempo. Ninguém pode entender porque todos se dispõem a racionalizar o que sinto quando, além de isso ser por si só uma grande estupidez, não é possível racionalizar a loucura; e nada pode fazer sentido até que eu misture clínquer e gipsita com um tanto d’água, a fim de transformar meu castelo de cartas em concreto, com aquele Degas na parede. Minha parede. [Eu teria sido feliz (?) na abandonada carreira de arquiteta.] Lady Cat ainda estava tesa ao som e aos frios da tempestade; agora me olhava como quem perguntando sobre a pessoa que lhe deu esse nome ridículo pelo qual ela insiste em não atender.
Ontem foi um dia mentalmente pesado. “Latência e Pedantismo” deveria ser o título da palestra. Você estava na plateia, mas como aquela que você amou já é morta, não me reconheceu, nem mesmo quando citei Borges. Olhou-me como se eu fosse uma ilustre desconhecida, bonita talvez, pretensiosa certamente, mas anônima como os que têm fome debaixo daquele viaduto em frente a sua casa. O tal professor, de uma universidade americana qualquer (ah, foda-se a Ivy League), falava sobre o retorno de Camus, de como ele fora execrado por uma geração nos anos 1970 e agora, sob o novo signo de saturno, ou com o novo cronótipo de modernidade, era resgatado, lido e adorado. Tive vontade de perguntar se Camus era de comer ou de passar no cabelo – pestilento. Tive vontade de gritar toda babaquice que era aquele jogo de cena, aquela formalidade hipócrita acadêmica. Tive vontade de ser consultora da Avon e sair mostrando revistinhas à plateia embasbacada. Tive vontade de ser outra, mas fiz uma pergunta sobre Borges, sobre o conceito de tempo em Borges, e não fui reconhecida.
Mas é claro que é tudo loucura... você naquela plateia também não era mais o mesmo, quase irreconhecível; quase. De certa forma  foi um alívio olhar pra você e não sentir raiva ou dor, sequer amor – daqueles mais piedosos e covardes. Estava lá sem me reconhecer e todos em volta comentavam a teoria do absurdo, quando absurdo era eu ter perdido tanto tempo da minha vida com. Dane-se, isso já não importa. "Tenho decididamente alguma coisa a dizer sobre o indivíduo. Deve-se falar dele com rudeza e, se for preciso, com o desprezo conveniente". Ei, não sou eu a recalcada a dizer isso. Sou, no máximo, mais uma bajuladora de autores franceses, como tantas, centenas e milhares sentados ao meu redor, nessa conferência que me parece cada vez mais ridícula, mais absurda. O absurdo pode até ser o ponto de partida, mas não quero falar sobre suicídio. Não aqui. Oras, para que eu pago meu analista?
Saí da sala a procura de um mate; lembrei-me de comprar areia e ração (nota mental). Respirei e tentei não confundir meus devaneios existencialistas com a palestra que, no fim das contas, estava boa. É um pouco automático lançar mão de categorias analíticas e contemplações filosóficas para as tarefas mais cotidianas. A música do Moska ainda tocava na minha cabeça, então naquele momento decido reler o mito de Sísifo e, academicamente domesticada, retornar a tempo dos debates e de ouvir uma pergunta sobre Hugo Chaves (?). Não te via mais porque então, uma vez com a cabeça ordenada, você nem existe mais.



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Alex



           Para o bem, ou para o mal, nada acontecia. O cimento das paredes ia esfarelando com o tempo, caindo feito uma minúscula tempestade de areia vertical que só eu enxergava. Já era tarde pra sair carregando tanto peso, as ruas desertas de beleza me inibiam a fazê-lo, mas era preciso ir vê-lo. Devolver os malditos livros, falar sobre nada e tomar um café. Um calor da porra, mas ainda bem. O trajeto até a Central do Brasil leva quase duas horas, partindo do exílio, e envolve caminhar alguns quilômetros de poeira esbranquiçada, enfrentar matilhas que dançam em círculos, cruzar a Ponte de Cristal, escalar um pequeno morro e manter-se de pé, mesmo com toda dor, desespero, choro e Ego. Manter-se de pé até a Central e tentar sorrir depois dessa experiência antropológica.
            Imaginação. Seleciono Buddy Guy, fecho os olhos e creio que nada disso é real. Porque não pode ser. Barracos, casas pela metade, extensos varais de roupas multicoloridas, uma senhora lavando panos de chão numa bacia prateada, terra amarronzada não batida, línguas de esgoto, craks, laranjeiras magricelas, aqui e acolá o pedaço de alguma serra, alguns morros de Mata Atlântica desmatada: todos esses elementos se intensificam sob os acordes da guitarra; e é quase como se meu mp3 funcionasse tal qual um photoshop, um instangran em tempo real, bem na retina dos meus olhos.
    [O ramal Japeri era uma das coisas mais impactantes que já vivi, até conhecer aquele que passa por Manguinhos. Mas essa é outra história]
     O peso que eu carregava não era só o dos tenebrosos livros, era também o das minhas expectativas frustradas, o das reflexões sociológicas inevitáveis àquelas paragens, o da crise existencial cotidiana e chinfrim, mas principalmente, o das perguntas sem resposta. O que eu vou sentir quando ele abrir a porta. O que vai significar meu sorriso se abrindo no compasso de um profundo suspiro, antes do costumeiro abraço fraterno. O que eu vou responder ao “como estão as coisas”. O que eu vou querer quando ele se sentar na minha poltrona favorita, voltejado por pequenas estantes pretas, acender um cigarro e me olhar através daqueles óculos que sempre me fazem lembrar do Mário de Andrade.
     Não nos víamos há uns 5 anos. Eu havia me casado, separado, namorado e viajado o mundo, enquanto ele... ele... não sei. Nunca soube realmente da sua vida, a despeito dos e-mails que trocávamos de quando em quando. Uma vez, numa estação de trem em Barcelona (Francia, talvez), com uma estrutura cinza escuro, abóboda em vidro, pé direito impressionantemente alto – construção que me remetia à modernidade do início do século passado –, eu tentava me perder no entra e sai de trens hodiernos enquanto segurava um postal. Ele estava em Bariloche e eu pensava que não poderia ser mais perto. 
      O cartão era o mais óbvio possível: Gaudí. Rabisquei saudades e sugestões, comentei seu novo emprego (geógrafo?) e perguntei sobre futebol. Fiquei um tempo sentada lendo nossos nomes, cuidadosamente desenhados com minha letra, ouvindo o burburinho animado no espanhol que eu pouco entendo, a pensar como pareciam ridículas aquelas palavras todas minhas. Joguei o postal numa enorme lata para reciclagem de papel, segundos antes de Pierre arrematar um beijo no meu pescoço. Olhando nossos nomes no cartão agora sujo de molho (não tratava-se de um cesto só para papéis? eu li errado?), pensei que, de um jeito ou de outro, estávamos fadados a acabar sempre assim: no lixo. 
      Pierre, Paris, Patê, tudo isso era agora um universo distante ou paralelo, quem sabe não fora em uma outra vida... Olhei para a estação de Marechal Hermes e, através de uma brecha no vidro ultra-arranhado, não pude não acha-la charmosa, não pude evitar a imagem de uma estaçãozinha com os mesmos retângulos e metais de uma cidadezinha do interior da Alemanha – e então Pierre mais uma vez. Outra vida. Sou empurrada e realocada, ouvindo o burburinho animado no português que eu pouco entendo, entre um e outro acorde mais baixo (Celso Blues Boy e um monte de cerveja). Sentia outro cheiro, interagia com outra estética, mas lá estava eu novamente em uma estação de trem a pensar nele. No fim das contas, acredito que saí do exílio não para devolver insuportáveis livros, mas, e apenas, para me livrar de um ostracismo mental contínuo.
         Ele nunca conseguiu me contar muito bem o que estava fazendo da vida; suas mensagens eram sempre sobre como ele estava se sentido, e não sobre o trabalho novo (cinema?) ou sobre quem e o que ele estava comendo. De modo que me acometia a sensação de dialogar com um personagem, com uma ficção, com um homem não de carne e osso, mas constituído todo de emoções e sensações. Sim, eu achava isso um tanto charmoso.
         Manter-me de pé, respirar e resistir ao transporte público urbano era o máximo que eu podia e queria exigir de mim mesma. Eu queria mesmo era fugir, mudar de exílio, chegar na casa dele e ficar, sem hora para sair, sem pressa em ler todas as centenas de livros incríveis que ele colecionava naqueles pequenas estantes pretas, sem nuca desligar a cafeteira. Já que a pauta eram os desnecessários livros – sim, porque certamente ele não precisava deles naquele momento, não tanto quanto eu – resolvi levar também uns contos meus, recitar qualquer coisa e prolongar minha existência ao lado dele, por mais algumas horas antes do fim.
          Mas eu ainda não sabia que aquela seria a última vez.
      Cheguei à Central suada, cansada, pesada, infeliz. Um calor da porra, mas ainda bem. No trajeto até a casa dele, passando pela Marechal Floriano, ia cabisbaixa e taciturna, remoendo meus objetivos naquela viagem. Por que insistir em fazer planos que eu mesma nem sabia se queria cumprir? Na esquina da rua dele parei e observei os bordéis que dormiam. Observei o bicheiro que cochichava. Respirei fundo oitenta vezes e tentei me livrar de toda expectativa pulsante.
           Não conheço mais os porteiros. Lembro que na primeira vez que entrei naquele elevador modernoso também carregava expectativas, outras... Estava vestida para ir a uma festa na qual meu ex ia tocar, verificava se a maquiagem ficara ok, pensava em aplausos e cenas, imaginava quem iria à Gafieira, quem eu iria encontrar. Até andar procurando pelo apartamento 714 eu não pensava nele e em como seria aquele café inaugurador, até que ele abriu a porta e me esperou passar pelo, então infinito, corredor. Quando a porta fechou atrás de mim, já não havia bandinha, rímel, ou qualquer outro homem, além daquele que me sorria.
       Aquele rosto talhado pelos anos e pelos pecados... pecados redimidos a cada abraço, a cada risada... ele nunca teria entendido que seus pecados eram redimidos a cada encontro e respiração? Nunca teria entendido que ele era meu anjo-redentor-pecador-amador? Fundamental. Nunca?
          Logo de cara, joguei os livros em uma cadeira e pedi que ele conferisse se faltava algum. Fiz questão de ser indelicada, de mostrar-me desconfortável, de parecer meio maluca. Que porra foi aquela? E a ideia de ser perfeita e ficar para sempre? Começamos com Jorge Drexler e, no terceiro café, sentamos no chão, agora com o disco novo da Gal; ele deitou a cabeça no meu colo e pediu que eu lesse meus escritos. Mas era sempre assim: de alguma forma misteriosa, ele fazia com que eu me sentisse completamente despida de meus cinismos e discursos cuidadosamente construídos, por isso o desconforto, a indelicadeza. Eu não queria mais me sentir tão despida de mim mesma, de um ‘eu’ que eu formulava e reformulava diariamente.
             Lembrei de um ano novo que passamos em sobriedade e silêncio, naquele apartamento, sobre um lençol azul. E então era tudo novo, tudo encantador.
        Eu queria parar de ler, que ele me jogasse, de novo, naquela cama e decretasse que eu nunca mais sairia, queria sair dali correndo louca pelos bordéis já acordados, queria gritar e chorar da dor que eu estava sentido por estar exilada, e exila-me nos braços dele, e derrubar tudo que havia em cima da mesa, e queimar os inúteis livros, e parar de me confessar a ele, e morrer mais um pouquinho analisando o percurso de uma formiga na parede.
          Não tenho ideia de quanto tempo fiquei divagando sobre essas coisas, até ele me chamar atenção. Entretanto, eu não conseguia mais ouvir o que ele dizia, os convites (?!) que fazia, as sensações que tinha. Minha presença ali, com a dele, já não tinha sentido para mim: roteiro errado, diretor errado, iluminação errada, falas mudas. Murmurei desculpas, o caminho de volta ao exílio era longo. Ao sair, deixei-lhe um beijo casto, colhi um último abraço apertado e voltei pelos bordéis e pela Marechal Floriano, a pensar o que teria feito de errado com ele, comigo, com minha vida.
       Terminei aquela noite ligando para ele de uma festinha nada a ver, em Laranjeiras, pedindo a porra do abrigo, a porra do exílio.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

DIA*



            Sim; o livro estava sobre a mesa. Suspirou ao perceber que já havia verificado isso pelo menos umas 4 vezes. Terminou de organizar sua mochila e foi até o armário procurar algum dinheiro no emaranhado de roupas ali jogadas “como se fosse o cesto de roupa suja lá da lavanderia”, tal qual resmungava sua mãe. Mães sempre resmungam, pesou com um sorriso triste.
            Duas notas de R$1,00 e uma centena de moedas a contar. Começou com as grandes: tinham que ser de R$0,50! Hum... a primeira não, e a segunda também não, nem a terceira ou quarta... Merda. No somatório R$3,85. É, dava para comprar um sanduíche ou um maço de cigarros e uma coca-cola. Perfeito.
            No rádio tocava um rock cheio de poesia sobre dor, perdas e uma doença bizarra. Otávio calçou suas sandálias que, aliadas ao jeans da década anterior e ao cabelo mal cortado por ele mesmo, lhe conferiam qualquer coisa de hippie, qualquer coisa de anacrônico, qualquer coisa que ele não sabia o quê. A música acabou e o locutor gritou “BOM DIA pra você que está sintonizado na rádio do rock!!! São exatamente 06:07 da manhã no Rio de Janeiro! Está entrando no ar mais um....”, um dos 12 gatos que a mãe criava pulou na mesa de desplugou a tomada. Melhor assim.
            Enquanto bebia sua caneca de café forte pensava nas tolices sobre amor que seu pai havia dito na noite passada. Por que tolices? Tinha 20 anos a mais de experiência de vida, sobrevivera à rebeldia pseudo-punk-rock dos anos 1980, usou maconha e meia dúzia de ácidos e, depois disso tudo (ou bem no meio do processo) se amarrou à uma garota CDF com ideias pervertidas, com quem teria dois filhos. Então, porque alguém bem sucedido, que passou por tanta coisa na vida, diria tolices? “Tolices de psicólogo”, pensava Otávio ao bater a porta.
            Mas, para ele, o que era aquela coisa toda de ‘amor’? Certamente, não era o que sentia pela namoradinha, Alice. O melhor mesmo era não “problematizar a questão do eu interior inserido num relacionamento dito estável e maduro”. Tolices. O ônibus veio rápido, juntamente com a sensação de que ele poderia descer no ponto perto do aeroporto, ir para Assunção (tia Deise jurava que, às vezes, eles operam voos ao Uruguai e Paraguai) e de lá começar uma viagem solo pela América do Sul, subindo até o México, ora de trem, ora de carona. Assistiu o sol nascer na Praia de Botafogo ao som de Confortably Numb, pensando porque diabos sempre se imaginava sozinho numa viagem assim. Não havia ninguém com gostaria de compartilhar essa loucura. Ninguém.
            Quando avistou o Santos Dumond começava Breath - na seleção aleatória do Discman, fiel companheiro. Achou que era uma espécie de sinal divino e, por isso, fechou os olhos se afundando mais no banco. Saltou na já então movimentada Presidente Vargas e foi andando sem pressa para a faculdade, sem pressa para as aulas da manhã, sem pressa para os textos não lidos.
            Depois do almoço, conseguiu mais uns trocados com Carlos – o grande amigo – e, mais uma vez sem pressa, caminhou pela já então lotada Rio Branco, em direção à Livraria da Travessa (quem sabe tomar um café?). De repente, alguma coisa chamou-lhe a atenção: havia um mendigo absurdamente esfarrapado, sentado à porta de um banco, com óculos de grau que reluziam ao fraco sol de inverno, lendo o jornal daquele dia (e que dia era mesmo? Certamente uma quinta-feira...). O mendigo, então e imediatamente batizado por Otávio como ‘Orlando’, fez uma careta e fixou-se na página de economia.
            O que Orlando lia? O que acontecia no mundo que ele, Orlando, poderia saber ou entender? O que estava escrito, Otávio? Otávio, que não sabia nem em qual dia do mês estavam, ficou profundamente tocado por aquela imagem: Orlando, o personagem urbano invisível, interagia, de um jeito ou de outro, com uma enxurrada de informações contemporâneas quase completamente desconhecidas por Otávio, o universitário burguês pensante.
Teve vontade de sentar ao lado dele e perguntar qual era a cotação do dólar. Tolices. E de que serviria, a ambos, àquela tarde, a cotação do dólar, ou do ouro. Quem era Orlando? O que Orlando lia? A morte (assassinato?) de Celso Daniel? Um peti vermelho da prefeita de São Paulo (Marta Suplicy?)? Mas era a seção de economia! Especulações sobre as novas medidas do novo presidente (Lula?)? Merda.
Otávio quis guardar Orlando em uma daquelas pequenas redomas de vidro com neve de mentira e coloca-lo em seu quarto, para olha-lo de quando em quando com assombro. A cena era perturbadora e, para dissipa-la, começou a caminhar muito rápido, entre empurrões e esbarrões. Queria sair dali, daquele quadro bizarro que ele não conseguia parar de desenhar mentalmente. Parou na vitrine da Travessa e ficou observando cada centímetro dos livros expostos sem, contudo, enxergar qualquer coisa.
Pensava nas “tolices” de seu pai, tentava lembrar qual era o livro que deveria ler para a próxima aula, queria lembrar de ligar para o Pedro quando chegasse em casa (buscar seu violão!). Qual era o problema de Orlando ler jornal? Por que não deixar o homem em paz? Por que aquela visão o incomodava e exasperava tanto? Talvez aquele fosse o melhor momento para conhecer o Chile, ou parar de tomar aspirina. Quiçá pensar sobre as “tolices” e sobre 'amor' não afastasse da cabeça a intuição nervosa que teve com Orlando.
Não se sabe quanto tempo ficou ali, pensando em nada, tentando não pensar em Orlando. Lentamente levantou os olhos angustiados, e viu uma menina de olhos brilhantes, que lhe acenava e sorria de dentro da Livraria. Uma das coisas que mais admirava em Alice era que ela sempre sabia onde e quando o encontrar.

* Escrito em 2002 (ou final de 2001) e levemente editado em 2012. O texto é cópia fiel do original, salvo algumas correções de pontuação.