A rua
estava coberta de lama e o ar de poeira, ainda por conta do temporal de dias
atrás. Alice saia do prédio velho, com a fachada descascada e cinza, comendo
uma maçã verde. Nada mais simples: uma mulher com vinte, talvez quarenta anos,
com uma botina preta, meia-calça preta, short cinza, blusa preta, casaco azul,
sem bolsa ou relógio, com uma maça verde enorme e obscena movimentando-se entre
os dedos e os dentes de Alice.
Imagino
que essa história possa começar assim. De fato, acredito que isso só possa ter
começado assim. Agora que eu to beeem puto, vejamos se eu consigo escrever.
Sobre essa Alice. Sobre aquele Juvenal. Juvenal faz o tipo que trabalha em
prestadoras de serviços, destas que entram em sua casa e comem suas esposas, ou
em obras públicas, ou como professor de francês. Naquele dia, aposto, ele usava
uma dessas combinações de calça cáqui e blusa de cor indefinida, que sempre
fazem parecer que o sujeito está usando um macacão velho, pronto para quase
qualquer coisa, com aquela bolsa de couro velha, que lhe modela o corpo forte. Ele
é essa cerveja toda, executa essas atividades todas. Juvenal atravessava uma
dessas avenidas intermináveis cheias de asfalto e pó, ia em direção ao posto de
gasolina, a fim de fazer não se sabe bem o que. O que se sabe é que foi entre a
contemplação do negrume sob seus pés, enquanto buscava no alto a luminosidade
de um satélite vulgar, foi no vácuo do pensamento, naquela quietude de
pensamentos que nos acomete, às vezes, foi assim que Juvenal avistou, primeiro,
as pernas, melhor, as meias sobre as pernas a atravessar. “Nada mal”, deve ter
pensado. Afinal, aquilo combinava com o asfalto, com a lama, com o urbano. Mas
então veio o verde. Aquele verde obsceno, destoante. Uma maçã, porra! Que tipo
de pessoa sai de casa quase à meia noite de uma quarta-feira (hum... talvez
quinta) comendo uma maçã verde enorme desonesta? E de preto...?
Alice só
queria sacar dinheiro antes de ir me encontrar. Comprar um maço de cigarros,
talvez. E um chocolate que ela deixaria escondido na bolsa para “momentos de
súbita ansiedade em locais proibidos ao fumo”. Alice nem queria me ver. Mas, se
ela realmente não quisesse não iria me encontrar. Claro que não. Alice não me
fazia perguntas, não me deixava desconfortável, não me ligava quase nunca, não
se preocupava com o fato de minha ex-mulher ainda morar comigo, não tinha ciúme
dos meus ex-namorados que se tornaram meus amigos. Ainda acho que Alice não
existe. Alice é uma deusa. Ela até paga suas próprias contas. Mas eu queria ver
Alice. Precisava da voz calma, da gargalhada explosiva, do rosto inquieto e
curioso sob mim e que se calava bem antes do beijo. Precisava do cheiro dela,
do cabelo dela, da pele dela. Dela. Ninguém como ela expurgava de mim aquele
cheiro de hospital público, de morte toda vida. Eu estava cansado de mais para
ir buscá-la, acomodado demais para me mover. E, de todo modo, ela viria.
Fazia um
tempo que já não pensava em Juvenal. A internet estava na merda desde o
temporal e não liguei para ele; desculpa perfeita. Sabia que Juvenal estava com
o aluno de francês, juntos quase como namorados. Juvenal é desses caras que
sabem o que querem e conseguem ser honestos sem quase sacanear os outros. A
pele dele tinha uma cor de terra curtida e um cheiro de gente do interior.
Juntou o salário de dois anos de trabalho para ir levantar paredes em Paris.
Ficou cinco anos, até ser deportado. Ele tem um jeito de olhar para as pessoas,
qualquer pessoa, e deixá-la a vontade, com tesão, com ternura. Belo dom. Belo
instrumento. Naturalmente, palavras como compromisso, exclusividade, casamento,
etc e tal, lhe causavam asco. Melhor para mim, menos trabalho. Isso até ele se
amarrar ao aluninho. Isso até ele me trocar.
Aquilo me deixava puto, mas
havia Alice, então ficava tudo bem. Aquilo me deixava puto, mas eu não deixaria
Alice. Alice deve ter virado o rosto para trás ao atravessar, ela sempre faz
isso, ele deve ter visto o rosto dela daquele jeito enigmático feliz rosado
mordiscando palavras. Alice trabalhava em uma livraria, gostava de palavras.
Muitas religiões pregam o princípio do magnetismo dos corpos. Aposto que foi assim.
Alguma coisa perto do umbigo de Juvenal se sentiu atraído pelo preto, pelo
verde, pelo belo; como um imã inconsciente ele a seguiu até a loja de
conveniências (...). Então o que? Não posso pensar no diálogo. Não posso pensar
em Juvenal atraído por uma vulva misteriosa. Não posso pensar em Alice
sensibilizada por aquelas roupas e aquele olhar tosco. Francês. Ele deve ter
feito alguma piada em francês. Alguma coisa sobre Magritte que ela achou
genial. Meudeuscomoeutoputo. Trocaram telefone salivas redes sociais? Alice
chegou duas horas atrasada. Linda. O beijo dela era maçã saliva tabaco halls
saliva... Porra? Esplendido.
Alice
ficou duas semanas sem aparecer. Normal. Juvenal ligou. Normal. Juvenal veio
consertar a internet e por minhas carências em dia. Disse que queria conversar.
(?!) Disse que queria dizer coisas que, na verdade, não poderia deveria
atreveria dizer. Disse que era necessário. Disse mais o que? Já não ouvia. Saí
do banheiro deixei-o nu tremulo liguei para Alice meu cheiro meu cabelo minha
pele. Alice disse que eu deveria ouvir Juvenal. Alice disse que tinha escrito
uma coisa. Ainda nu, no meio da minha sala, ele tinha um envelope nas mãos,
porque macho que é macho fala olhando na cara. Juvenal começou a ler o papel de
tinta impressa. Às pressas.
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