Lembro de cada segundo daquele dia. Desci para comprar
vícios. Tinha um muro de homens no deposito de bebidas que fica ao lado do
prédio, o que me faz pensar que aquilo são cinco metros quadrados de Lapa, em
plena zona norte carioca. Uma cigana com cara de boliviana falava sobre
casamento com eles. Aquela cena me pareceu impossível: homens brutos e curiosos
acerca de futuros enlaces. Homens brutos que recorriam àquela figura colorida em
cetins mil, pulseiras meio douradas meio amarronzadas, pele bronzeada, sorriso-malícia e mãos estendidas pedindo moedas em troca de revelações do
porvir.
Porque o dia começou com um cd
da Roberta Sá havia uma notinha musical em cada girar do meu calcanhar, em cada
pedrinha portuguesa aqui onde sempre é setembro. Isso de caminhar por aí, com
uma melodia qualquer gotejando na cabeça, fazendo com que as pontas dos dedos
se movimentem discretamente, dá um rebolado à pessoa, um ar de quem não tá nem
aí, de quem não quer nem saber, de quem é marginal. Parei para ler as manchetes
pregadas na banca de jornal. O criador da maçã morreu, os estudantes continuam
sua luta muito digna em Santiago do Chile, a polícia de Sergio Cabral e Eduardo
Paes agora revista crianças, os gastos com a reforma do Maracanã continuam um
mistério por deus não revelado, as pessoas continuam morrendo na África como uma
ventania descontrolada, estadunidenses protestam contra a crise. Penso que
tivesse eu um Ipod (cabe a homenagem póstuma ao geek) estaria ouvindo Calle
13.
Comprei um maço de cigarros em
condolência ao mundo que vai morrendo aos poucos também, com pouca dignidade
também. Tivesse eu menos de trinta anos certamente teria sentido alguma revolta
com essa falta de caráter que envolve a gente assim, como um cobertor de mendigo
em dia de verão. Ia, então, seguindo uma existência apática, de quem acha que já
viveu de tudo; sigo a passos lentos com Chopin, um cotidiano medíocre, um
emprego medíocre, um namorado medíocre, um pessimismo que não passa. Mas não
tinha problema. Era só não bagunçar muito. Era só não pensar muito. Sempre achei
que de nada adianta saber o que as pessoas estão fazendo, sentindo, pensando em
lugares onde nunca estarei. Eu hein.
Voltei pela rua desviando dos
carros lá está a cigana que então parecia uma índia muito mística muito latina
muito venezuelana peruana boliviana quase pude distinguir um sotaque forçado ao fundo
dos olhos quando paro a mão presa. Ela segurou meu pulso assim que atravessei o sinal, assim que desviei o olhar, assim que engatei uma rebolada para apressar
o passo, assim que achei que ela não passava de uma imigrante ilegal.
Sim, vi
a cigana venezuelana e tive preconceito porque achei que ela queria me dizer
qualquer coisa em troca de uns trocados. Desviei o olhar porque achei a cara
dela feia, com aqueles dentes a menos, com aquele aspecto sujo. Aquilo era uma aberração. Aquela
mulher, aquela alienígena, parada na encruzilhada me olhando fixamente,
segurando minha mão, me violentando com uma cultura que eu desprezo, invadindo
meu caminhar. Absurdo. A impressão que eu tive, naqueles segundos de silêncio,
era de que ela, a qualquer momento, ia se fundir a mim, me corromper. A coisa
estava insuportável; eu estava imóvel. Acreditava que alguém se daria conta daquilo
e me salvaria. Alguém, os homens brutos do depósito, a velhinha carola que nos
tangenciou e aguardava o sinal abrir, o moleque com uniforme de escola pública
que passou correndo, o PM que estava sentado ao lado do guardador de carros que
na verdade era bicheiro, alguém tinha que resolver aquele conflito
mudo.
“Fíca com medo não. Falha o que
estás pennnsando”
Sempre achei o badalar de sinos
das seis da tarde uma coisa meio agourenta, mística. Eles soaram, vindos de uma
igreja que tem perto do número 21 e que eu nuca vi na vida, exatamente quando
ela terminou de dizer aquelas palavras, bem devagar. Soltou minha mão e me
prendeu com os olhos, à espera da resposta. Eu ri e muito sem jeito ofereci um
cigarro, porque eu posso ser preconceituosa, mas não sou mal educada. Acendemos,
e ela repetiu, mais ansiosa.
“Fíca com medo não. Faaaalha o
que estás pennnsando!”
“Não tenho nada pra
dizer.”
“Tem
shim.”
“Me deixa
ir.”
“Ainda
não.”
Com olhos embotados vidrados
viscerais esquadrinhou a mão que pegou de novo mexendo nas moedas pregadas ao
véu balançando pulseiras vagabundas e tudo em volta muro de homens brutos PM a
pasmar sinal fechado tudo parecia pertencer a uma realidade paralela e eu também
e ela também éramos tudo e todos do mesmo mundo outro diferente do habitual
enquanto ela murmurava coisas que eu não queria entender. Então comecei a ouvir
e entender as coisas inúteis que ela dizia. Havia um mar, uma sereia e eu
deveria conversar com a sereia, deveria pedir conselhos, deveria mudar de
cidade, de nome, de vida. Deveria começar uma vida nova, encontrar um homem
novo. Deveria não me preocupar, porque tudo estava arranjado, e Destino a tinha
enviado para que eu não me assustasse quando a roda começasse a girar. Ri mais
um pouco, menos sem jeito. Entreguei a ela o troco do cigarro, subi as escadas
feito atleta e abri a porta de casa à espera de um circo, de uma assombrosa
profusão de joaninhas dançando perto do pé direito, de uma lagarta viciada,
qualquer coisa que desse sentido às palavras surreais da cigana
boliviana.
Naturalmente, tudo estava em
perfeita ordem. Confesso que fiquei um pouco frustrada... ninguém lê o horóscopo
diário sem ao menos cogitar uma possível verdade, ou verossimilhança. Nada de
extraordinário, até três dias após a insólita entrevista, quando acordei de
manhã e todos os meus sapatos tinham desaparecido. Procurei pela casa toda e nem
sinal, nem chinelo. Liguei para a polícia que me mandou ir à merda, depois de
ter-me feito esperar duas horas sendo encaminhada a vários departamentos.
Comprei uma sandália pela internet alguns minutos antes de ler o e-mail que meu
namorado enviou. Ele, agora ela, agora Sandra, roubou meus sapatos para
vende-los em uma feira alternativa em Santa Teresa e comprar uma passagem para
Macaé, onde moraria com seu novo amor, Michaela (seria ele, ou
ela?).
A sandália chegou no dia
seguinte e me encontrou tentando encontrar minha carteira, lutando contra o
sangue que persistia correr em mim, a despeito de toda aquela vodka, ingerida
nas últimas 27 horas. Como a carteira não atendia aos meus chamados estridentes,
abria a caixa: era um calçado horroroso, com “as cores do verão”. Imediatamente
comecei a chorar, a pensar na cigana peruana que certamente havia me rogado uma
praga. Acordei no meu sofá e o homem mais gato da face da terra estava me
olhando. Antes que eu pudesse me confundir com a cena, ele explicou. Era o
entregador da sandália terrível e estava ali porque quando eu vi a coisa
colorida desatei a chorar, entrar em um devaneio sobre sereias, mares e
argentinas, até desmaiar.
Finalmente encontrei uma maneira
de não me misturar a determinado tipo de gente, seguindo assim, os ensinamentos
de papai ("padrasto" tem uma conotação tão forte... tão séria e desconfortável...), como qualquer moça deveria fazer. Uma semana depois nos mudamos para
Fernando de Noronha, de onde administrávamos a fabricação de sandálias grotescas
com “a cores da estação” - sim, ao sobreviver ao porre e ao desmaio, entendi que aquilo era um sinal divino, que aquelas sandálias horrorosas seriam minha salvação... tudo o que eu tinha que fazer era torna-las mais coloridas e brilhantes e usar o entregador como garoto-propaganda. Ideia genial. A cada mês ou dois, publico um anúncio em jornais e
sites de conteúdo duvidoso perguntando o paradeiro da cigana colombiana,
ofertando a recompensa de uma linha incrível de sandálias fantásticas
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