domingo, 22 de abril de 2012

Cigana Boliviana


Lembro de cada segundo daquele dia. Desci para comprar vícios. Tinha um muro de homens no deposito de bebidas que fica ao lado do prédio, o que me faz pensar que aquilo são cinco metros quadrados de Lapa, em plena zona norte carioca. Uma cigana com cara de boliviana falava sobre casamento com eles. Aquela cena me pareceu impossível: homens brutos e curiosos acerca de futuros enlaces. Homens brutos que recorriam àquela figura colorida em cetins mil, pulseiras meio douradas meio amarronzadas, pele bronzeada, sorriso-malícia e mãos estendidas pedindo moedas em troca de revelações do porvir.
Porque o dia começou com um cd da Roberta Sá havia uma notinha musical em cada girar do meu calcanhar, em cada pedrinha portuguesa aqui onde sempre é setembro. Isso de caminhar por aí, com uma melodia qualquer gotejando na cabeça, fazendo com que as pontas dos dedos se movimentem discretamente, dá um rebolado à pessoa, um ar de quem não tá nem aí, de quem não quer nem saber, de quem é marginal. Parei para ler as manchetes pregadas na banca de jornal. O criador da maçã morreu, os estudantes continuam sua luta muito digna em Santiago do Chile, a polícia de Sergio Cabral e Eduardo Paes agora revista crianças, os gastos com a reforma do Maracanã continuam um mistério por deus não revelado, as pessoas continuam morrendo na África como uma ventania descontrolada, estadunidenses protestam contra a crise. Penso que tivesse eu um Ipod (cabe a homenagem póstuma ao geek) estaria ouvindo Calle 13.

Comprei um maço de cigarros em condolência ao mundo que vai morrendo aos poucos também, com pouca dignidade também. Tivesse eu menos de trinta anos certamente teria sentido alguma revolta com essa falta de caráter que envolve a gente assim, como um cobertor de mendigo em dia de verão. Ia, então, seguindo uma existência apática, de quem acha que já viveu de tudo; sigo a passos lentos com Chopin, um cotidiano medíocre, um emprego medíocre, um namorado medíocre, um pessimismo que não passa. Mas não tinha problema. Era só não bagunçar muito. Era só não pensar muito. Sempre achei que de nada adianta saber o que as pessoas estão fazendo, sentindo, pensando em lugares onde nunca estarei. Eu hein.
Voltei pela rua desviando dos carros lá está a cigana que então parecia uma índia muito mística muito latina muito venezuelana peruana boliviana quase pude distinguir um sotaque forçado ao fundo dos olhos quando paro a mão presa. Ela segurou meu pulso assim que atravessei o sinal, assim que desviei o olhar, assim que engatei uma rebolada para apressar o passo, assim que achei que ela não passava de uma imigrante ilegal.
Sim, vi a cigana venezuelana e tive preconceito porque achei que ela queria me dizer qualquer coisa em troca de uns trocados. Desviei o olhar porque achei a cara dela feia, com aqueles dentes a menos, com aquele aspecto sujo. Aquilo era uma aberração. Aquela mulher, aquela alienígena, parada na encruzilhada me olhando fixamente, segurando minha mão, me violentando com uma cultura que eu desprezo, invadindo meu caminhar. Absurdo. A impressão que eu tive, naqueles segundos de silêncio, era de que ela, a qualquer momento, ia se fundir a mim, me corromper. A coisa estava insuportável; eu estava imóvel. Acreditava que alguém se daria conta daquilo e me salvaria. Alguém, os homens brutos do depósito, a velhinha carola que nos tangenciou e aguardava o sinal abrir, o moleque com uniforme de escola pública que passou correndo, o PM que estava sentado ao lado do guardador de carros que na verdade era bicheiro, alguém tinha que resolver aquele conflito mudo.
“Fíca com medo não. Falha o que estás pennnsando”
Sempre achei o badalar de sinos das seis da tarde uma coisa meio agourenta, mística. Eles soaram, vindos de uma igreja que tem perto do número 21 e que eu nuca vi na vida, exatamente quando ela terminou de dizer aquelas palavras, bem devagar. Soltou minha mão e me prendeu com os olhos, à espera da resposta. Eu ri e muito sem jeito ofereci um cigarro, porque eu posso ser preconceituosa, mas não sou mal educada. Acendemos, e ela repetiu, mais ansiosa.
“Fíca com medo não. Faaaalha o que estás pennnsando!”
“Não tenho nada pra dizer.”
“Tem shim.”
“Me deixa ir.”
“Ainda não.”
Com olhos embotados vidrados viscerais esquadrinhou a mão que pegou de novo mexendo nas moedas pregadas ao véu balançando pulseiras vagabundas e tudo em volta muro de homens brutos PM a pasmar sinal fechado tudo parecia pertencer a uma realidade paralela e eu também e ela também éramos tudo e todos do mesmo mundo outro diferente do habitual enquanto ela murmurava coisas que eu não queria entender. Então comecei a ouvir e entender as coisas inúteis que ela dizia. Havia um mar, uma sereia e eu deveria conversar com a sereia, deveria pedir conselhos, deveria mudar de cidade, de nome, de vida. Deveria começar uma vida nova, encontrar um homem novo. Deveria não me preocupar, porque tudo estava arranjado, e Destino a tinha enviado para que eu não me assustasse quando a roda começasse a girar. Ri mais um pouco, menos sem jeito. Entreguei a ela o troco do cigarro, subi as escadas feito atleta e abri a porta de casa à espera de um circo, de uma assombrosa profusão de joaninhas dançando perto do pé direito, de uma lagarta viciada, qualquer coisa que desse sentido às palavras surreais da cigana boliviana.
Naturalmente, tudo estava em perfeita ordem. Confesso que fiquei um pouco frustrada... ninguém lê o horóscopo diário sem ao menos cogitar uma possível verdade, ou verossimilhança. Nada de extraordinário, até três dias após a insólita entrevista, quando acordei de manhã e todos os meus sapatos tinham desaparecido. Procurei pela casa toda e nem sinal, nem chinelo. Liguei para a polícia que me mandou ir à merda, depois de ter-me feito esperar duas horas sendo encaminhada a vários departamentos. Comprei uma sandália pela internet alguns minutos antes de ler o e-mail que meu namorado enviou. Ele, agora ela, agora Sandra, roubou meus sapatos para vende-los em uma feira alternativa em Santa Teresa e comprar uma passagem para Macaé, onde moraria com seu novo amor, Michaela (seria ele, ou ela?).
A sandália chegou no dia seguinte e me encontrou tentando encontrar minha carteira, lutando contra o sangue que persistia correr em mim, a despeito de toda aquela vodka, ingerida nas últimas 27 horas. Como a carteira não atendia aos meus chamados estridentes, abria a caixa: era um calçado horroroso, com “as cores do verão”. Imediatamente comecei a chorar, a pensar na cigana peruana que certamente havia me rogado uma praga. Acordei no meu sofá e o homem mais gato da face da terra estava me olhando. Antes que eu pudesse me confundir com a cena, ele explicou. Era o entregador da sandália terrível e estava ali porque quando eu vi a coisa colorida desatei a chorar, entrar em um devaneio sobre sereias, mares e argentinas, até desmaiar.
Finalmente encontrei uma maneira de não me misturar a determinado tipo de gente, seguindo assim, os ensinamentos de papai ("padrasto" tem uma conotação tão forte... tão séria e desconfortável...), como qualquer moça deveria fazer. Uma semana depois nos mudamos para Fernando de Noronha, de onde administrávamos a fabricação de sandálias grotescas com “a cores da estação” - sim, ao sobreviver ao porre e ao desmaio, entendi que aquilo era um sinal divino, que aquelas sandálias horrorosas seriam minha salvação... tudo o que eu tinha que fazer era torna-las mais coloridas e brilhantes e usar o entregador como garoto-propaganda. Ideia genial. A cada mês ou dois, publico um anúncio em jornais e sites de conteúdo duvidoso perguntando o paradeiro da cigana colombiana, ofertando a recompensa de uma linha incrível de sandálias fantásticas

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