domingo, 22 de abril de 2012

A Vaga

       Nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo... Repetia a si como um mantra pra salvação eterna, pra danação eterna. As cartas do baralho cigano haviam mostrado um homem de negócios em seu caminho, sucesso na carreira, uma viagem, dinheiro e paz, num futuro próximo. Havia feito de tudo pra conseguir aquela vaga, que lhe salvaria a vida, as finanças, as hemorróidas, os hematomas, os ossos quebrantados, a pele curtida. Havia feito de tudo pra fugir da existência miserável que perseguia sua sombra, sem sombras de dúvida. E agora, José? Drummond não viria pra redimir as coisas, ou pra explicar as moscas que rodeavam suas idéias. As paredes do quarto tão pobremente mobiliado careciam de sentido, as sacolas no chão, espalhadas como praga, tão pouco tinham razão de ser; com os livros deveria limpar a bunda, com as roupas deveria fazer as velas do barco, que teria como base a madeira da estante e do armário. Por que fazia sol ao redor da praça? Por que as outras pessoas conseguiam sorrir? Por que as outras pessoas pareciam confortáveis em sua condição humana? Ao menos pareciam...
       Nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo... Era só uma vaga no mercado de trabalho. Crianças continuavam sendo escravizadas em Dubai, o preço o café continuava a disparar no Rio de Janeiro, bolivianos continuavam a invadir São Paulo, pessoas continuavam a ocupar Wall Street, velhos barrigudos continuavam a peidar, mulheres barrigudas continuavam a parir. Não havia conseguido a vaga, mas e daí? Arranjaria outra, melhor ou pior, e o mundo não se alteraria por isso, a ordem as coisas continuaria a mesma. Por que o desespero, então? Por que a sensação de que a vida, num átimo, havia perdido o sentido, total e completamente, com todas as redundâncias que isso poderia suscitar? Uma pessoa a mais desempregada, uma pessoa a mais fudida, uma pessoa a mais deprimida, uma pessoa a mais concordando com cada vírgula de Sartre. E daí?
           Nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo... Tinha um enorme relógio de parede que não parava de tiquetaquear de demonstrar que a vida seguia ininterruptamente com ou sem a maldita vaga com ou sem a porra de um cafuné de um consolo de uma droga anestésica qualquer com ou sem um ou vários deuses e assim os ponteiros despregaram dos números e ficaram içados girando como um ventilador de teto pra depois desferir parábolas aleatórias pelo quarto como se dizendo onipresentes como se o tempo em si fosse o único deus existente como se as mazelas daquela forma de vida encolhida “humilhada e ofendida” por causa de uma merdinha de vaga significassem poeira estrelar lixo espacial prestes a se perder e a vagar pela eternidade a esmo como se o fato de não ter conseguido uma porra de uma vaga pudesse gerar uma marca de Caim amaldiçoando cada tentativa futura de acerto cada tentativa furtiva de progresso como se aquela vaga imbecil não fosse a coisa mais importante na vida daquele ser humano desprezível e assim os ponteiros seguiam zombado daquilo tudo zumbindo com os acordes de metal que tentavam acalmar o ambiente tenso pesado estéril.

Nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo... Sentia uma dor física, queria que não houvesse ninguém por perto, mas o quarto estava cheio de ponteiros abusivos, de pessoas queridas, de fantasmas, de inimigos, de familiares, de amigos que te dão tapas na cara, de amigos que te expulsam de casa sem mais nem por quê. Resolveu que seria melhor ler alguma coisa pra se acalmar, mas toda aquela água no rosto deixava a visão turva. Saiu, então, para caminhar, ainda que fosse preciso fazer uso da velha bengala, guardada a sete chaves em sua memória. Pela rua havia tanta gente... tanta gente feliz... tanta gente vivendo com ou sem uma importante vaga... Como era possível aquelas pessoas não reconhecerem uma alma aflita e inquieta? Como era possível ninguém distinguir a angústia insuportável, explícita nas chagas sangrentas que pululavam dos braços frouxos? Como ninguém deteve aquele anjo caído?

      Nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo... Repetiria essas merdas de palavras até o fim dos tempos, se necessário. Até que parasse de doer, até que parasse de chorar, até que elas também perdessem o sentido na hecatombe psicodélica que se afigurava na fumaça dos cigarros alheios, até que tivesse início uma existência automática, como a descrita por Huxely, até que lhe dessem a pílula vermelha, até que encontrasse o coelho branco idiota novamente, pra lhe cuspir na cara.

Maldita vaga.

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