Nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo...
Repetia a si como um mantra pra salvação eterna, pra danação eterna. As cartas
do baralho cigano haviam mostrado um homem de negócios em seu caminho, sucesso
na carreira, uma viagem, dinheiro e paz, num futuro próximo. Havia feito de tudo
pra conseguir aquela vaga, que lhe salvaria a vida, as finanças, as hemorróidas,
os hematomas, os ossos quebrantados, a pele curtida. Havia feito de tudo pra
fugir da existência miserável que perseguia sua sombra, sem sombras de dúvida. E
agora, José? Drummond não viria pra redimir as coisas, ou pra explicar as moscas
que rodeavam suas idéias.
As paredes do quarto tão pobremente mobiliado careciam de
sentido, as sacolas no chão, espalhadas como praga, tão pouco tinham razão de
ser; com os livros deveria limpar a bunda, com as roupas deveria fazer as velas
do barco, que teria como base a madeira da estante e do armário. Por que fazia
sol ao redor da praça? Por que as outras pessoas conseguiam sorrir? Por que as
outras pessoas pareciam confortáveis em sua condição humana? Ao menos
pareciam...
Nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo... Era só uma vaga no mercado de trabalho. Crianças continuavam sendo escravizadas em Dubai, o preço o café continuava a disparar no Rio de Janeiro, bolivianos continuavam a invadir São Paulo, pessoas continuavam a ocupar Wall Street, velhos barrigudos continuavam a peidar, mulheres barrigudas continuavam a parir. Não havia conseguido a vaga, mas e daí? Arranjaria outra, melhor ou pior, e o mundo não se alteraria por isso, a ordem as coisas continuaria a mesma. Por que o desespero, então? Por que a sensação de que a vida, num átimo, havia perdido o sentido, total e completamente, com todas as redundâncias que isso poderia suscitar? Uma pessoa a mais desempregada, uma pessoa a mais fudida, uma pessoa a mais deprimida, uma pessoa a mais concordando com cada vírgula de Sartre. E daí?
Nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo... Era só uma vaga no mercado de trabalho. Crianças continuavam sendo escravizadas em Dubai, o preço o café continuava a disparar no Rio de Janeiro, bolivianos continuavam a invadir São Paulo, pessoas continuavam a ocupar Wall Street, velhos barrigudos continuavam a peidar, mulheres barrigudas continuavam a parir. Não havia conseguido a vaga, mas e daí? Arranjaria outra, melhor ou pior, e o mundo não se alteraria por isso, a ordem as coisas continuaria a mesma. Por que o desespero, então? Por que a sensação de que a vida, num átimo, havia perdido o sentido, total e completamente, com todas as redundâncias que isso poderia suscitar? Uma pessoa a mais desempregada, uma pessoa a mais fudida, uma pessoa a mais deprimida, uma pessoa a mais concordando com cada vírgula de Sartre. E daí?
Nãoéofimdomundo,
nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo... Tinha um enorme relógio de parede que não
parava de tiquetaquear de demonstrar que a vida seguia ininterruptamente com ou
sem a maldita vaga com ou sem a porra de um cafuné de um consolo de uma droga
anestésica qualquer com ou sem um ou vários deuses e assim os ponteiros
despregaram dos números e ficaram içados girando como um ventilador de teto pra
depois desferir parábolas aleatórias pelo quarto como se dizendo onipresentes
como se o tempo em si fosse o único deus existente como se as mazelas daquela
forma de vida encolhida “humilhada e ofendida” por causa de uma merdinha de vaga
significassem poeira estrelar lixo espacial prestes a se perder e a vagar pela
eternidade a esmo como se o fato de não ter conseguido uma porra de uma vaga
pudesse gerar uma marca de Caim amaldiçoando cada tentativa futura de acerto
cada tentativa furtiva de progresso como se aquela vaga imbecil não fosse a
coisa mais importante na vida daquele ser humano desprezível e assim os
ponteiros seguiam zombado daquilo tudo zumbindo com os acordes de metal que
tentavam acalmar o ambiente tenso pesado estéril.
Nãoéofimdomundo,
nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo... Sentia uma dor física, queria que não
houvesse ninguém por perto, mas o quarto estava cheio de ponteiros abusivos, de
pessoas queridas, de fantasmas, de inimigos, de familiares, de amigos que te dão
tapas na cara, de amigos que te expulsam de casa sem mais nem por quê. Resolveu
que seria melhor ler alguma coisa pra se acalmar, mas toda aquela água no rosto
deixava a visão turva. Saiu, então, para caminhar, ainda que fosse preciso fazer
uso da velha bengala, guardada a sete chaves em sua memória. Pela rua havia
tanta gente... tanta gente feliz... tanta gente vivendo com ou sem uma
importante vaga... Como era possível aquelas pessoas não reconhecerem uma alma
aflita e inquieta? Como era possível ninguém distinguir a angústia insuportável,
explícita nas chagas sangrentas que pululavam dos braços frouxos? Como ninguém
deteve aquele anjo caído?
Nãoéofimdomundo,
nãoéofimdomundo, nãoéofimdomundo... Repetiria essas merdas de palavras até o fim
dos tempos, se necessário. Até que parasse de doer, até que parasse de chorar,
até que elas também perdessem o sentido na hecatombe psicodélica que se
afigurava na fumaça dos cigarros alheios, até que tivesse início uma existência
automática, como a descrita por Huxely, até que lhe dessem a pílula vermelha,
até que encontrasse o coelho branco idiota novamente, pra lhe cuspir na
cara.
Maldita vaga.
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