O sujeito
estava usando um blazer. Não, nada no mundo justifica isso. Era verão, era uma
festa, dessas de universitários descompromissados, era uma ocasião informal,
era Rio de Janeiro, não São Paulo. Não, nada no mundo justifica isso. Pensar
que ele havia ido até lá para vê-la, testá-la, provocá-la, também não o alivia.
Com ou sem casaca, o fato é que nenhum dos dois podia prever a reação que
teriam ao se reencontrarem.
Eles eram um casal naquele
estágio, após alguns términos e recaídas cada vez menos impetuosas, cada vez
mais caídas, quando nunca sabiam se estavam juntos ou não. Quando nunca sabiam
se queriam estar juntos ou não. Imaginar um relacionamento como um jogo é uma
metáfora pobre e destitui de charme o misterioso conjunto de sensações que são
comumente interpretadas como amor, em contrapartida, fora dessa comparação é
difícil encontrar parâmetros e elementos analíticos a fim de perceber, com
alguma clareza, as pequenas insanidades que nos movem. Aquele blazer era fruto
de um delírio, de uma atitude patológica com a intenção de afastar a moça,
deixando uma marca de arrogância no fim das coisas. Essas loucuras
comportamentais ela não mais poderia tolerar, talvez por não mais compreender,
talvez por não mais compartilhar a mesma linguagem de seu par.
Ele passou o dia inteiro no
trabalho pensando se deveria continuar. Atrás da mesa, fingia estar ali, fingia
ler o que lhe entregavam, fingia dizer as palavras que dizia, fingia acreditar
nas ordens que dava, fingia, fingia, fingia. Fingia até mesmo ser quem ele
gostava de ser, assim, no cotidiano. Dissimulava suas dúvidas em olhares
atravessados. Relia o e-mail dela. Por que continuar com ela? Por que continuar
com esse tipo (miserável) de vida? Acredito que foi entre tais pensamentos que
a idéia do blazer surgiu: uma armadura, uma peça que o qualificaria, como
alguém superior. Ah, sim... ele sempre pareceu ser alguém com especial
necessidade de afirmar algum tipo de superioridade.
Sem dúvidas o blazer o
distinguia dos outros homens da sua idade naquela festa, dos outros homens que
estavam ali simplesmente para beber e atuar em investidas sexuais
despretensiosas, os outros homens que, ali, não precisavam demonstrar o quão
homens eram de fato. O blazer entrou no salão antes do dono, antes de se saber
quem era, sabia-se que havia alguém de blazer. O blazer entrou no salão e
caminhou, obstinado a ignorar a presença dela, que só vestia preto. Em uma
atitude desconcertada, ela segurou sua manga e buscou seus olhos. O silêncio de
deus. A festa girava e seguia ao redor deles, como se nada estivesse acontecendo,
como se ali, na quietude daqueles segundos, entre o blazer e o preto, não
estivesse acontecendo uma pequena tragédia doméstica, uma hecatombe em
miniatura, como se não houvesse nada de errado naquele olhar bruto. A festa
girava e seguia ao redor deles, como uma moldura bizarra, destoante.
Ela havia enviado um e-mail.
Ela esperava a recíproca, de alguma maneira. Não arriscaria, não mais. Ela era
daquele tipo que já sentiu as pequenas insanidades, que já se deixou levar, que
já cagou para tudo, que já se importou demais. Não fazia sentido continuar, se
expor, falar de amor, tentar fazer com que desse certo. Nada fora da recíproca
diária, fora do horizonte de expectativas que ele se dava ao luxo de dar a ela,
nada. Um e-mail sim, ele deveria saber que ela ainda gostava dele, nada mais.
Nada mais era o que ela queria que ele soubesse. Ela passou o dia inteiro no
trabalho pensando se deveria continuar. Pensando se haveria uma resposta, se
valeria a pena. Pensando que caso ele não respondesse ela sairia com os amigos
e foda-se. Pensando que nessas horas o mais saudável é pensar que foda-se.
Agonia. Como uma pontada em
algum lugar do corpo, até então desconhecido. Insuportáveis goteiras no
cérebro. Suspiros abafados. Ele e ela, rei e rainha, passaram o dia assim, sem
saber ao certo porquê, sem conseguir investigar as ondas de desconforto que
passavam por dentro e por fora. Ele respondeu, disse que ficaria em casa,
fazendo sabe-se lá o que. Ela respondeu, disse que ficaria em casa, fazendo
sabe-se lá o que. Pronto, ficariam em casa, confusos, sem conseguir reatar de
vez, sem conseguir sumir de vez.
Ela decide sair com os amigos,
ir a uma festa para fazer uso do foda-se e não pensar em mais nada, para
anestesiar a agonia de suas incertezas. Ele decide que precisa provar ao mundo
que é um homem importante e imponente, pega o blazer que figurou em seus
devaneios e sai. Encontrou um amigo que comentou sobre a tal festa de
universitários descompromissados, um amigo que comentou que ela provavelmente
estaria lá, com os melhor amigos para sempre, um amigo que comentou que ele
estava muito bonito e elegante com aquele blazer, um amigo que comentou que ele
faria um tremendo sucesso vestido daquele jeito tão elegante, um amigo que
comentou que ele poderia fazer uma surpresa a ela.
Pode não parecer, mas a
maioria das coisas termina tal qual começa. Aquele silêncio, aquele olhar de
quem quer conhecer o outro que já não conhece mais, a timidez que impede as
primeiras ou últimas palavras, a incompreensão diante de algo incognoscível, o
frio na barriga gerado pela eterna dúvida de estar fazendo a coisa certa, de
estar fazendo merda.
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