domingo, 20 de maio de 2012

Não me escreva aquela carta de amor -PARTE III

            A rua estava coberta de lama e o ar de poeira, ainda por conta do temporal de dias atrás. Alice saia do prédio velho, com a fachada descascada e cinza, comendo uma maçã verde. Nada mais simples: uma mulher com vinte, talvez quarenta anos, com uma botina preta, meia-calça preta, short cinza, blusa preta, casaco azul, sem bolsa ou relógio, com uma maça verde, enorme e obscena movimentando-se entre os dedos e os dentes de Alice.
            Tentei gritar seu nome, mas Alice andava estranhamente rápido. Minha boca ficou aberta em um enorme A, enquanto meu corpo parecia obedecer ao comando “estátua!!” da brincadeiras de criança. Acho que fiquei uns 3 ou 4 segundos assim, tempo suficiente pra vir um vagabundo e resmungar alguma coisa sobre jovens drogados... não agüento isso. Catei as chaves de casa na bagunça da bolsa, mais uns 5 ou 7 segundos. Entrei em casa ofegante, afinal 4 andares é uma loucura pros pulmões semi-danificados pelas tais drogas das quais o vagabundo falou. Aff! Esse cheiro de gato me enlouquece, aí, saio tacando bom ar e morrendo de medo de morrer intoxicada. Boto um cd do Caetano e porra Alice não deu comida pra Raposa de novo. Aff! Levo uns 13 minutos entre limpar o chão, a caixa, encher os pratinhos, lavar as mãos 5 vezes e fazer um cafuné na gata que, no fim das contas, acaba sendo uma boa companhia.
            Na porta da geladeira um papel engordurado com a data de hoje tem somente uma coisa escrita: Roberto. Ok, estamos sozinhas por hoje, Raposa. A menos que vc esteja com saudades do Henrique. É... pois é... eu também não to com saudades dele... Enfim. Raposa, peraí, fica aqui na cozinha comigo enquanto faço uma jantinha, deve levar só uns 24 minutos. Isso. Me diz, vc que mora com a Alice há mais tempo, o que ela ainda tá fazendo com o Roberto? Ah, porra, foi a Alice quem me ensinou conversar com vc, não me olha assim! Sabe que quando eu vim morar aqui eu nem queria de verdade... Achava que essa coisa de bicho em apê era mó furada, mas acho que me acostumei. O quarto vago era bom e eu conheço a Alice desde antes de saber meu próprio nome. Muito doido isso. E eu sei que vc gosta mais de mim do que do Roberto... tenho certeza de que ele não limpava seu cantinho como eu limpo.. e também nem devia fazer um cafuné. Todo estranho, sempre vidrado, sempre atrasado, sempre em movimento. De certa forma combina com ela. Porque vc acha que eles terminaram? Mas a pergunta que não quer calar é: porque eles sempre terminam e voltam? É... também acho que eles nunca ficaram juntos de verda porra, desde quando vc come cebola? Devolve essa merda!
            A TV e a mesa estavam cobertos da poeira que vinha da obra do vizinho, ou da rua, ou da falta de faxina mesmo, tanto faz. 7 ou 70 livros sobre semiótica culinária e literatura barata povoavam um pedaço da mesa e uns pedaços do chão. O sofá, semi despedaçado pelo trabalho de arte contemporânea da Raposa, poderia (e deveria) estar no lixo, junto com metade das roupas que deveriam estar no armário da Alice, mas que insistiam em fazer exposição nas cadeiras da sala. Era um lugar quase confortável, quase grande para um 2 quartos. O mais impressionante era o espelho. Ocupava metade da parede que dava de frente pra porta quase até o teto; herança de vovó. Limpar aquilo tudo levaria uns 39 minutos.
            Se eu não tivesse com tanta fome e preguiça limparia agora, mas é melhor botar outro cd pra trilha sonora do jantar. Henri Salvador, pruma uma noite romântica com Raposa. Depois eu boto mais 1 ou 2 coisinhas pra gente ouvir antes de assistir aquele filme que te falei ontem.  Henri, Henrique.. aff! A ‘ideia’ amor nos ocupa muito mais do que o que sentimos em si. É cruel viver um amor duro, longe dessas expectativas e dessa ‘ideia’. Assim são os gatos, não é Raposa? Quer dizer, se vc ama um gato, éeeeeee! To ligada nas suas escapadas pro apê do vizinho... é siamês aquele, né? Já foram 4 ou 5... Enfim. Acho que se vc amasse um gato, vc amaria e pronto, sem blábláblá, sem ter que ligar se não tiver com saudades, sem ter que dissimular nada, sabe? Claro que sabe... ta fazendo essa cara, toda concentrada no que eu to falando, só pode tá concordando! Agente compra essa ‘idéia’ a todo momento e quando tenta se livrar dela, quando tenta viver o que realmente sente sem lá muitas expectativas, sem lá muitas cobranças, pensa que tá fazendo merda, sabe? Acho que passa uma certa insegurança isso. É o que eu tento fazer com o Henrique, mas eu nunca sei se ele me entende, eu nunca sei o que ele sente, a gente nunca sabe o que um quer do outro. Acho que não saberia nem entenderia mesmo que falasse com ele 7 vezes por semana. Minha vó, que era professora, coitada, sempre dizia que se a gente quisesse ver algum tipo de relacionamento “repleto de assertivas”, é, ela falava assim mesmo, a gente tinha que ler um romance, desde que não fosse Jane Austen. Acho que ela não falava sério. Mas a gente era criança, a gente nem sab... Alô, Alice? Que foi? Caralho, quem é Juvenal? E o Rober... Vc vai pra onde?! Mas... Francês? Onde vc tá? Hã? Hã? Hãaa? Tá. Digo sim. Mas porra... Tá. Até amanhã então. Pego sim. Pago sim. Tranquilo, depois vc me paga. Beijo.
            Aff! Armário... segunda gaveta... pasta amarela... aqui. Olha Raposa, vo te contar, hein? Essa brincadeira vai me custa quase 1 hora, entre passar num banco, depois em outro... A Alice é muito maluca, vc não sabe, ela acabou de conhecer um cara e que que é isso? Uma carta?!! Hahahaha! Tem até meu nome no meio... que parada... vem cá Raposa, vem ler comigo... deixa eu acender isso aqui... é... to ligada que vc curte esse cheiro...

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