domingo, 20 de maio de 2012

Não me escreva aquela carta de amor - PARTE II

            A rua estava coberta de lama e o ar de poeira, ainda por conta do temporal de dias atrás. Alice saia do prédio velho, com a fachada descascada e cinza, comendo uma maçã verde. Nada mais simples: uma mulher com vinte, talvez quarenta anos, com uma botina preta, meia-calça preta, short cinza, blusa preta, casaco azul, sem bolsa ou relógio, com uma maça verde, enorme e obscena movimentando-se entre os dedos e os dentes de Alice.
            Era uma tarde cinza, o Rio parecia Londres no verão. A verdade é que não importa muito a cor do céu: todo mundo quer viver uma historinha de amor. Homens, Mulheres, Crianças e Outras Categorias. Todos. É uma maldição; nascemos, todos, com um platonismo embutido como um chip. Nossa maldita cultura gregária-romântica. Nosso maldito capitalismo que move nossos desejos ao que não temos, para que quando chegarmos ao cerne dos tais desejos, rumemos a novas aspirações. Capital romântico? Talvez nada disso tenha a ver com criações do século retrasado. Talvez. O fato é que Alice não foge à regra. Ela é um ser humano contemporâneo independente do sistema de produção ou da cultura vigente e ainda assim extremamente ligada a esses fatores. Alice saía à rua, rumo ao tarólogo, rumo às respostas que tanto queria encontrar. Alice era um ponto de exclamação pulsante de expectativas. Filha de seu tempo queria um anestésico para as crises existenciais cotidianas. Queria um emprego decente, queria uma casa mais confortável, queria um plano de saúde, queria não precisar de um plano de saúde, queria um macho que a chamasse de sua, queria uma idéia de autonomia que vendiam nas esquinas que ela cruzava enquanto o sulco da maçã escorria dos lábios até o queixo.
            A grana para o táxi seria ideal, mas o melhor mesmo era caminhar rápido para ver se a tal endorfina faria de fato algum efeito, algum feitiço. Melhor mesmo seria parar num bar, seria tentar não pensar. Foi assim que a vi. Ela andou dois quarteirões do prédio cinza até a mesa em frente a minha. Ótimo isso; precisava escrever a coluna pro blog que meu chefe patrocina. Se a matéria não fosse sobre a Libertadores teria sido sobre o suspiro que ela deu ao sentar na cadeira de plástico. Ou sobre as mãos tremulas que vasculhavam alguma coisa nos bolsos. Ou sobre o meio sorriso destinado ao garçom. Ou sobre os goles que deu de olhos fechados na cerveja. Não. Seria sobre o olhar que me lançou. Algo sério, com requinte de selvageria e exotismo. Eu tinha meu notebook por onde me esconder, por onde me camuflar. Ela estava ali, parada e inquieta, sem bolsa, com a mesa vazia, um copo, uma garrafa e um par de cotovelos. Esse abandono não tinha nada de frágil, na verdade era tão natural e completo que ela, Alice, parecia ter nascido ali, como que por geração espontânea. Alice. O que estaria escrito em sua identidade? Maria, Priscila, João? Alice era uma mulher sentada à mesa em frente a minha. Alice era uma criação minha, eu fazia sua história e suas vontades. Sabe-se lá de onde ela conseguiu um espelho e um batom. Ela passava aquele batom nos lábios bem devagar, como se quisesse preencher um milímetro de boca de cada vez, como se não houvesse nada mais a fazer naquela noite além de segurar aquele minúsculo bastão. Minha aguda atenção a sua presença não poderia passar despercebida.
            Um meio sorriso, um olhar indicando a cadeira vaga a sua frente, um sinal para que o garçom trouxesse mais um copo, mais uma garrafa. A tabela que demonstrava a ressurreição do Fluminense já não tinha nada de divertido. Levantei, juntei minhas coisas em uma das mãos sem qualquer sutileza, caminhei em direção a ela, três passos talvez, sentei. Bebemos a garrafa toda em silencio, enquanto eu adivinhava seu nome, sua trajetória, sua busca por respostas, enquanto embutia naquela personagem um punhado das minhas expectativas e crenças. Afinal, é isso que fazemos o tempo todo, impunemente. Pouco importa se era Alice, Berenice, Maurício, Madureira: ela era minha. Minha criação, minha adoração, meu refúgio do trabalho, meu refúgio de mim e só existiria enquanto pousasse os olhos sobre mim com aquele silencio inquieto e curioso, prestes a explodir em gargalhada a qualquer momento. Divina. E minha.
            Mas então, seguindo a linha egoísta que costuma perseguir nossa existência de ser humano, comecei a questionar o que ela poderia pensar sobre mim. Cogitei o que ela estava achando daquela pessoa que se sentava ao bar para escrever, o que ela estava achando da minha roupa, do meu cabelo. Será que ela achava que eu estava afim dela? Será que achava que eu queria vender seus rins? Cafetina-la? Oferecer-lhe um emprego? Um tapa? O que Alice acha de mim? Ainda que suas impressões sobre minha figura não pudessem corromper tudo aquilo que Alice já significava para mim, era imprescindível saber o que ela queria, o que ela faria, o que ela diria, o que ela pensava. Veio não uma gargalhada, mas um riso contido. Trocamos algumas observações sobre o outono, sobre as tarifas do banco, sobre o banheiro do bar, sobre o horóscopo.

 Em algum momento não muito preciso ela sacou um guardanapo, uma caneta (do Jorge, o garçom?) e começou a escrever. Foi tão natural, tão ato continuo a nossa conversa que de inicio não me pareceu sequer curioso. Falava e escrevia sem perder o compasso e tudo em volta parecia fazer parte da mesma ficção. Súbito, disse que estava atrasada, que ainda teria que passar no posto de gasolina pra comprar cigarros, que tinha um compromisso, que tinha um presente pra mim. Levantou, colocou o guardanapo no bolso da minha camisa enquanto me beijava na boca e saiu

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