Ah, coitado do Caio Fernando
Abreu. Essa coisa de torna-lo guru espiritual do Facebook é muito triste, mas
engraçada também. Imaginar um sujeito super-revolucionário, no sentido
estético-literário-libertário, servido de auto ajuda pra pós-adolescentes é
admitir primeiro um sentimento de derrota da boa literatura contemporânea e, ao
mesmo tempo, um alargamento de seu alcance. O que, por sua vez, não deixa de
ser uma vitória. Por exemplo, pessoas como Péricles jamais leriam uma frase
sequer do Caio, sem a participação daquela rede social.
Você não pretende reativar sua conta?
Bom, o Péricles é um rapaz que
nada faz jus à origem “greco-política-pseudo-filosófica” do nome que inspirou
sua mãe na manhã das primeiras contrações. Na verdade, ele deveria ser batizado
como “Pedro”, mas a súbita ausência do pai e algumas complicações de ordem
hormonal na mãe impediam a ideia original. Soube dessa história, e de outras, num porre que
tomamos num Trem do Samba; bons tempos. Enfim... Ele era um rapaz tão comum,
tão óbvio, que dava até preguiça de observa-lo ou tentar interagir com ele:
beleza padrão para os princípios do século XXI, inteligência e perspicácia
medíocres, grande carisma, sorriso espontâneo, vocabulário limitado e,
naturalmente, aquela indecisão congênita, a total falta de noção do que fazer
para, um dia, chegar à fase adulta, ao menos com uma profissão. Pensando bem...
essa descrição poderia aplicar-se a mim, naquele ano de 2008; ou a você.
Agora me veio à cabeça que
Paris deve estar fazendo bem à sua calvície. Lembra quando pensamos em abrir um
SPA naquela estrada que pegamos por engano, quase chegando a Itaipava? Você já
está longe há muito tempo, se bobiar, nem conheceu a Jeanne – aquela que é filha
de franceses; olha a coincidência. Na indecisão toda do Péricles, ele acabou
indo tentar a vida na comunicação. Lembro que a primeira vez que o vi, ele tava
conversando com a Jeanne e com a Maria – dessa você lembra, a que vivia com um
pé e/ou mão quebrados. Eles estavam na curva do primeiro e principal corredor
do prédio, aquele com os azulejos azuis meio aportuguesados que você odiava, na
fronteira daquela gente esquisita de “UI! Licenciaturann”, perto daquele pátio
onde a galera ensaiava umas esquetes sem pé nem cabeça, só pra encenar no
Sujinho. Sabe? Tenho certeza de que você teria bolado o roteiro de uma sessão
de fotos com aquelas figuras – exposição na certa. Tenho certeza de que você
teria amado.
A Jeanne, um dia te apresento
a ela, vem de uma família grande, mora num condomínio de casas maneiras em
algum lugar longe do “nosso” apê em Botafogo. Jeanne tem aquela mania de cultivar
afetos mal resolvidos (talvez fosse melhor dizer “tinha”), principalmente
depois que o affair, ou coisa que o valha, já se esgotou. É com total
propriedade para usar o modo reflexivo do verbo; pois é... aquela nossa
conversa sobre a (im)possibilidade de os relacionamentos SE esgotarem, como se
não houvesse/viesse nada de fora ou dentro para a coisa desandar. Tanto o é –
era – que após o término dos três meses de namorico com Péricles, Jeanne decidiu que
ele era um cara bacana, gatinho-gente-boa na medida certa, enfim, algo que
preste nesse mundo de meu-deus. Veja bem meu bem, Jeanne gosta de arte,
frequenta museus, estava quase terminado jornalismo, é toda-gatinha-gente-boa,
realmente inteligente, charmosamente rabugenta e perigosamente obcecada, portanto, já pode imaginar onde isso vai parar...
Que ela não me ouça, mas
desconfio que o tal “amor”, sim, esta palavra foi empregada, começou quando ela
desconfiou, pela primeira vez, que Péricles e Maria eram mais que bons amigos.
Na verdade, a desconfiança era de que para Péricles, Maria era algo mais, sem
recíprocas. Essa pulga virou carrapato e depois sarna. Afinal, para Jeanne não
interessava se ela estava feliz e realmente afim
do sujeito, o mais importante era que ele não estivesse afim de sua amiga. Justo. Ok... compreensível. É engraçado lembrar
que você tinha ciúmes dos meus amigos.
Agora a cereja do bolo: apesar
de toda paranoia-delirante-Péricles, Jeanne ainda estava, ou pelo menos parecia
estar, emocionalmente vinculada ao Charles. É, ele mesmo... aquele seu amigo
coroa, figurasssssa. O pseudo-affair deles nem vale a pena ser mencionado, o fato
é que o mais importante que Charles tinha a ensina-la ela não aprendeu: “putaquepariu!
Mulher não ama, mulher cisma”. Sabia
que você ia adorar essa. É que o Charles foi outra obsessão, outra forma
frustrada de dedicar-se a ser objeto de desejo de alguém idolatrado. Disseram
que você andou estudando psicanálise – talvez tenha simplesmente arranjado uma
namorada terapeuta; mais provável terapeuta namorada. Dane-se. Com ou sem
Freud, não é difícil perceber que havia (há?) algo estranho naquela paixão,
naquele binômio que nunca houve, naquela ausência de algo como Jeanne-Charles,
naquela adoração anacrônica: moça indefesa feliz na possibilidade de
entregar-se ao garanhão defensor/portador de uma moral esquecida na gaveta.
Então Jeanne ainda estava
vinculada a Charles quando começou a se envolver com Péricles. Na verdade, acho
que nem posso chamar aquilo de envolvimento, uma vez que para ela, ele era não
mais que uma deliciosa distração: encontravam-se diariamente na faculdade,
frequentavam o Bar Da Balela, pagavam
de casalsinho pra tudo e todos, inclusive para o Charles, claro está. Mas, veja
bem... aqui estou te trazendo os fatos que não me fugiram ao longo dos anos que
se passaram, os anos em que você esteve fora de mim; ou seja, como diria nosso
quérido Manuel de Barros, “tudo que não invento é falso”. Enfim... Lá estavam
eles pagando de casal-gatinho-gente-boa (exatamente como nós, bem no começo,
bem antes de começarmos a pensar), até que... como foi que a coisa degringolou?
Ah, a Maria!
Conforme a coisa
Jeanne-Péricles seguia um rumo ordinário e sem qualquer pimentinha, Maria ia se
aproximando cada vez mais do rapaz medíocre, firmando uma amizade baseada em
afinidades duvidosas. Vamos combinar que as afinidades entre ele e Jeanne
também não eram, digamos, tão óbvias... enfim.... Maria-Péricles: sob o manto
da amizade surge o binômio que tanto incomodou Jeanne. Talvez por preguiça,
talvez por falta de tato, ou por finalmente perceber que não estava mais
funcionando bem, Jeanne...........................Péricles começaram a se
afastar cada vez mais, na mesma pro porção em que MariaPéricles ficavam mais
próximos (é... eu te desenhei essa).
Um belo dia, Jeanne acorda com
uma ligação de Maria: eles haviam se beijado. É; não rolou uma sacanagem nem a
confissão de uma puta traição: foi apenas um (uns?) beijo (?), nada de mais,
mas o bastante para que Jeanne decidisse duas coisas: primeiro, a
amizade/lealdade de Maria seria eternamente questionada; segundo: ela, Jeanne, realmente
gostava de Péricles. Ali nasceu
aquela cisma da qual o Charles tanto
fala... No lavar de roupas sujas, descobre-se que Maria teria conversado muito
com Péricles sobre Jeanne, sem que esta soubesse, pensa-se na possibilidade de Péricles
ser apaixonado por Maria, pensa-se na possibilidade de Péricles ser apaixonado
por Jeanne. Por que não enxergar que ele era só um garoto entrando na faculdade
conhecendo meninas/mulheres interessantes?!
As dúvidas e incertezas
rasgavam a cabeça de Jeanne: “será que fiz a coisa certa? Será que gosto? Será que
odeio? Será que está tudo bem? Será que perdoo Maria? Será que me perdoo? Será que
Péricles gosta dela? Será que gosta de mim? Por que isso sempre acontece? Por que
não pode ser mais simples?”. E o que poderia aplacar essa série de perguntas
que faziam rodízio constante, nocauteando cada segundo de pensamento de Jeanne?
Como ela não usava cocaína, foi a um centro de umbanda – com a semi perdoada
Maria – a fim de achar uma solução espiritual às questões emocionais que
pareciam (e o são) impassíveis de resposta. Meia dúzia de aclarações depois, eis
a declaração bombástica do preto velho: “ele é o homem da sua vida... vocês...
vocês têm uma ligação espiritual”.
Àquela altura do campeonato,
fazia quase um ano do beijo maldito, do início – com data marcada – de toda paranoia
que uma paixão mal resolvida pode trazer. Jeanne dedicou-se a reconquistar seu
macho a qualquer custo. E por que? Acho que ela precisava manter-se emocionalmente
vinculada a alguém; Charles há muito estava em outras. Acho que essa coisa do “amor”
com o Péricles era uma maneira de viver tão somente no mundo idealizado: quando
ficamos juntos, quando tomamos aquele sorvete, quando você caiu descendo da
arquibancada do Maracanã, quando ficou com ciúmes da minha saia justa, quando
meu coração saltou aquele dia... são coisas pontuais, isoladas, felizes
molduras do que gostaríamos de ter sido. Acho que foi por isso. Pela
idealização. De todo modo ela precisava materializar aquela coisa toda,
precisava ao menos tentar reatar Jeanne-Péricles, por isso foi àquela festa,
comprou aquele vestido e sorriu daquele modo.
Eu estava lá, não acompanhei
tão de perto porque esta bêbada falando mal de você – já tão longe há tanto
tempo. Sei que eles sumiram e que eu acordei com uma daquelas ressacas que você
bem conhece, acordei com Jeanne, numa voz nervosa, dizendo que tinha perdido a
dignidade em Madureira, mas que logo logo iria recupera-la. Sim, nesses termos.
Ao que tudo indica, foram parar na casa
dele, na cama dele e ele simplesmente não
conseguiu se concentrar para come-la. Nem no dia seguinte. Nem no telefonema
que ele deveria ter feito no outro dia. Ele não era capaz de lidar com aquilo. A
parte boa é que a partir desse choque, desse sacode, Jeanne foi dissolvendo a
ideia do binômio com Péricles, foi deixando a história deles lá atrás, no meio
das coisas que se faz quando se é jovem, demasiado jovem. Não, não éramos
demasiado jovens quando você foi fazer sei lá o que na Europa. Ok... eu sei o
que... Também não tínhamos um binômio... Enfim...
“Veja bem: não pense que estou
tentando reatar uma história de amor já bastante espatifada (ou talvez sim, mas
você não me deu chance e a coisa mais saudável que eu podia fazer era entrar
noutra). Acontece que, com ou sem cama, gosto profundamente de você” (entre
aspas, mas citado de cor). Lembra disso? Daquele livro com as correspondências dele,
qual era mesmo? Dane-se. Esse puto do Caio Fernando Abreu sempre falando por
mim, por nós...
Pois é... e eu continuo a te
contar minha vida assim, através de histórias e amores alheios. Covarde, você
disse uma vez; e eu pulei no seu pescoço. Essas coisas, todas elas, nada querem
dizer pra mim, não depois de receber um bilhetinho azul anunciando sua volta.
Não te espero mais. Não te quero mais. Tal qual na historieta Jeanne-Péricles,
você me era mais útil longe, de onde eu podia te desenhar com minhas cores
favoritas; não quero o real, não o seu real. Uma última coisa, antes que eu
esqueça... lembra quando você me mandava ler a Paideia toda vez que eu insistia
naquela coisa de “amor” ter sido inventado no oitocentos? Acho que podemos
ficar de comum acordo em dizer que, não importa muito em qual século foi, “amor”
nasceu de uma tarde de outono.
Nenhum comentário:
Postar um comentário