segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Retorno de Camus


Você já sentiu dor? Já sentiu seus ossos vibrarem numa dança bizarra e apavorante? Já pensou que o mundo poderia acabar a qualquer momento com um raio indo parar bem no meio da sua cabeça? Lady Cat me encarava como se me fizesse essas perguntas; me encarava com aqueles olhos amarelados e cremosos, iluminados pelos clarões de quando em quando da tempestade lá fora. Eu queria apenas fazer uma ligação, fazer um sexo, mas minha mesa de trabalho estava tão entulhada, tão atolada de tarefas pela metade que eu até perdi o tesão. Bom, eu poderia me excitar de novo se exatamente naquele momento, entre clarões e olhares amarelados, alguém me jogasse bem em cima de toda a papelada e aparelhagem e me comesse com força, com raiva. Lady Cat não conseguiria, mesmo que se esforçasse. Na verdade, naquela letargia, nem faria muita diferença.
Pensei em sentir ciúmes e recalques com as últimas notícias que recebi, mas, porra, eu já estava sentindo muitas coisas; simplesmente não havia espaço para acrescentar mais nada, assim voluntariamente. Outro dia vi uma foto minha antiga e me apaixonei por mim, pelo meu eu daquela época, lembrei das piadas que eu fazia e das dores que não sentia, me apaixonei então pela mesma pessoa por quem você se apaixonou há sei lá quantos anos. Sorte a sua; ela já não existe mais.
[Admito: já quis que você me redimisse de meus próprios pecados. Mas esse desejo passou no tempo de um cigarro, como tantos outros, calados e urgentes. To ouvindo aquele (nosso) disco do Moska. Putz. Grandes metas, grandes merdas.]
Minha consciência tem estado deserta de razão, já há algum tempo. Ninguém pode entender porque todos se dispõem a racionalizar o que sinto quando, além de isso ser por si só uma grande estupidez, não é possível racionalizar a loucura; e nada pode fazer sentido até que eu misture clínquer e gipsita com um tanto d’água, a fim de transformar meu castelo de cartas em concreto, com aquele Degas na parede. Minha parede. [Eu teria sido feliz (?) na abandonada carreira de arquiteta.] Lady Cat ainda estava tesa ao som e aos frios da tempestade; agora me olhava como quem perguntando sobre a pessoa que lhe deu esse nome ridículo pelo qual ela insiste em não atender.
Ontem foi um dia mentalmente pesado. “Latência e Pedantismo” deveria ser o título da palestra. Você estava na plateia, mas como aquela que você amou já é morta, não me reconheceu, nem mesmo quando citei Borges. Olhou-me como se eu fosse uma ilustre desconhecida, bonita talvez, pretensiosa certamente, mas anônima como os que têm fome debaixo daquele viaduto em frente a sua casa. O tal professor, de uma universidade americana qualquer (ah, foda-se a Ivy League), falava sobre o retorno de Camus, de como ele fora execrado por uma geração nos anos 1970 e agora, sob o novo signo de saturno, ou com o novo cronótipo de modernidade, era resgatado, lido e adorado. Tive vontade de perguntar se Camus era de comer ou de passar no cabelo – pestilento. Tive vontade de gritar toda babaquice que era aquele jogo de cena, aquela formalidade hipócrita acadêmica. Tive vontade de ser consultora da Avon e sair mostrando revistinhas à plateia embasbacada. Tive vontade de ser outra, mas fiz uma pergunta sobre Borges, sobre o conceito de tempo em Borges, e não fui reconhecida.
Mas é claro que é tudo loucura... você naquela plateia também não era mais o mesmo, quase irreconhecível; quase. De certa forma  foi um alívio olhar pra você e não sentir raiva ou dor, sequer amor – daqueles mais piedosos e covardes. Estava lá sem me reconhecer e todos em volta comentavam a teoria do absurdo, quando absurdo era eu ter perdido tanto tempo da minha vida com. Dane-se, isso já não importa. "Tenho decididamente alguma coisa a dizer sobre o indivíduo. Deve-se falar dele com rudeza e, se for preciso, com o desprezo conveniente". Ei, não sou eu a recalcada a dizer isso. Sou, no máximo, mais uma bajuladora de autores franceses, como tantas, centenas e milhares sentados ao meu redor, nessa conferência que me parece cada vez mais ridícula, mais absurda. O absurdo pode até ser o ponto de partida, mas não quero falar sobre suicídio. Não aqui. Oras, para que eu pago meu analista?
Saí da sala a procura de um mate; lembrei-me de comprar areia e ração (nota mental). Respirei e tentei não confundir meus devaneios existencialistas com a palestra que, no fim das contas, estava boa. É um pouco automático lançar mão de categorias analíticas e contemplações filosóficas para as tarefas mais cotidianas. A música do Moska ainda tocava na minha cabeça, então naquele momento decido reler o mito de Sísifo e, academicamente domesticada, retornar a tempo dos debates e de ouvir uma pergunta sobre Hugo Chaves (?). Não te via mais porque então, uma vez com a cabeça ordenada, você nem existe mais.



segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Alex



           Para o bem, ou para o mal, nada acontecia. O cimento das paredes ia esfarelando com o tempo, caindo feito uma minúscula tempestade de areia vertical que só eu enxergava. Já era tarde pra sair carregando tanto peso, as ruas desertas de beleza me inibiam a fazê-lo, mas era preciso ir vê-lo. Devolver os malditos livros, falar sobre nada e tomar um café. Um calor da porra, mas ainda bem. O trajeto até a Central do Brasil leva quase duas horas, partindo do exílio, e envolve caminhar alguns quilômetros de poeira esbranquiçada, enfrentar matilhas que dançam em círculos, cruzar a Ponte de Cristal, escalar um pequeno morro e manter-se de pé, mesmo com toda dor, desespero, choro e Ego. Manter-se de pé até a Central e tentar sorrir depois dessa experiência antropológica.
            Imaginação. Seleciono Buddy Guy, fecho os olhos e creio que nada disso é real. Porque não pode ser. Barracos, casas pela metade, extensos varais de roupas multicoloridas, uma senhora lavando panos de chão numa bacia prateada, terra amarronzada não batida, línguas de esgoto, craks, laranjeiras magricelas, aqui e acolá o pedaço de alguma serra, alguns morros de Mata Atlântica desmatada: todos esses elementos se intensificam sob os acordes da guitarra; e é quase como se meu mp3 funcionasse tal qual um photoshop, um instangran em tempo real, bem na retina dos meus olhos.
    [O ramal Japeri era uma das coisas mais impactantes que já vivi, até conhecer aquele que passa por Manguinhos. Mas essa é outra história]
     O peso que eu carregava não era só o dos tenebrosos livros, era também o das minhas expectativas frustradas, o das reflexões sociológicas inevitáveis àquelas paragens, o da crise existencial cotidiana e chinfrim, mas principalmente, o das perguntas sem resposta. O que eu vou sentir quando ele abrir a porta. O que vai significar meu sorriso se abrindo no compasso de um profundo suspiro, antes do costumeiro abraço fraterno. O que eu vou responder ao “como estão as coisas”. O que eu vou querer quando ele se sentar na minha poltrona favorita, voltejado por pequenas estantes pretas, acender um cigarro e me olhar através daqueles óculos que sempre me fazem lembrar do Mário de Andrade.
     Não nos víamos há uns 5 anos. Eu havia me casado, separado, namorado e viajado o mundo, enquanto ele... ele... não sei. Nunca soube realmente da sua vida, a despeito dos e-mails que trocávamos de quando em quando. Uma vez, numa estação de trem em Barcelona (Francia, talvez), com uma estrutura cinza escuro, abóboda em vidro, pé direito impressionantemente alto – construção que me remetia à modernidade do início do século passado –, eu tentava me perder no entra e sai de trens hodiernos enquanto segurava um postal. Ele estava em Bariloche e eu pensava que não poderia ser mais perto. 
      O cartão era o mais óbvio possível: Gaudí. Rabisquei saudades e sugestões, comentei seu novo emprego (geógrafo?) e perguntei sobre futebol. Fiquei um tempo sentada lendo nossos nomes, cuidadosamente desenhados com minha letra, ouvindo o burburinho animado no espanhol que eu pouco entendo, a pensar como pareciam ridículas aquelas palavras todas minhas. Joguei o postal numa enorme lata para reciclagem de papel, segundos antes de Pierre arrematar um beijo no meu pescoço. Olhando nossos nomes no cartão agora sujo de molho (não tratava-se de um cesto só para papéis? eu li errado?), pensei que, de um jeito ou de outro, estávamos fadados a acabar sempre assim: no lixo. 
      Pierre, Paris, Patê, tudo isso era agora um universo distante ou paralelo, quem sabe não fora em uma outra vida... Olhei para a estação de Marechal Hermes e, através de uma brecha no vidro ultra-arranhado, não pude não acha-la charmosa, não pude evitar a imagem de uma estaçãozinha com os mesmos retângulos e metais de uma cidadezinha do interior da Alemanha – e então Pierre mais uma vez. Outra vida. Sou empurrada e realocada, ouvindo o burburinho animado no português que eu pouco entendo, entre um e outro acorde mais baixo (Celso Blues Boy e um monte de cerveja). Sentia outro cheiro, interagia com outra estética, mas lá estava eu novamente em uma estação de trem a pensar nele. No fim das contas, acredito que saí do exílio não para devolver insuportáveis livros, mas, e apenas, para me livrar de um ostracismo mental contínuo.
         Ele nunca conseguiu me contar muito bem o que estava fazendo da vida; suas mensagens eram sempre sobre como ele estava se sentido, e não sobre o trabalho novo (cinema?) ou sobre quem e o que ele estava comendo. De modo que me acometia a sensação de dialogar com um personagem, com uma ficção, com um homem não de carne e osso, mas constituído todo de emoções e sensações. Sim, eu achava isso um tanto charmoso.
         Manter-me de pé, respirar e resistir ao transporte público urbano era o máximo que eu podia e queria exigir de mim mesma. Eu queria mesmo era fugir, mudar de exílio, chegar na casa dele e ficar, sem hora para sair, sem pressa em ler todas as centenas de livros incríveis que ele colecionava naqueles pequenas estantes pretas, sem nuca desligar a cafeteira. Já que a pauta eram os desnecessários livros – sim, porque certamente ele não precisava deles naquele momento, não tanto quanto eu – resolvi levar também uns contos meus, recitar qualquer coisa e prolongar minha existência ao lado dele, por mais algumas horas antes do fim.
          Mas eu ainda não sabia que aquela seria a última vez.
      Cheguei à Central suada, cansada, pesada, infeliz. Um calor da porra, mas ainda bem. No trajeto até a casa dele, passando pela Marechal Floriano, ia cabisbaixa e taciturna, remoendo meus objetivos naquela viagem. Por que insistir em fazer planos que eu mesma nem sabia se queria cumprir? Na esquina da rua dele parei e observei os bordéis que dormiam. Observei o bicheiro que cochichava. Respirei fundo oitenta vezes e tentei me livrar de toda expectativa pulsante.
           Não conheço mais os porteiros. Lembro que na primeira vez que entrei naquele elevador modernoso também carregava expectativas, outras... Estava vestida para ir a uma festa na qual meu ex ia tocar, verificava se a maquiagem ficara ok, pensava em aplausos e cenas, imaginava quem iria à Gafieira, quem eu iria encontrar. Até andar procurando pelo apartamento 714 eu não pensava nele e em como seria aquele café inaugurador, até que ele abriu a porta e me esperou passar pelo, então infinito, corredor. Quando a porta fechou atrás de mim, já não havia bandinha, rímel, ou qualquer outro homem, além daquele que me sorria.
       Aquele rosto talhado pelos anos e pelos pecados... pecados redimidos a cada abraço, a cada risada... ele nunca teria entendido que seus pecados eram redimidos a cada encontro e respiração? Nunca teria entendido que ele era meu anjo-redentor-pecador-amador? Fundamental. Nunca?
          Logo de cara, joguei os livros em uma cadeira e pedi que ele conferisse se faltava algum. Fiz questão de ser indelicada, de mostrar-me desconfortável, de parecer meio maluca. Que porra foi aquela? E a ideia de ser perfeita e ficar para sempre? Começamos com Jorge Drexler e, no terceiro café, sentamos no chão, agora com o disco novo da Gal; ele deitou a cabeça no meu colo e pediu que eu lesse meus escritos. Mas era sempre assim: de alguma forma misteriosa, ele fazia com que eu me sentisse completamente despida de meus cinismos e discursos cuidadosamente construídos, por isso o desconforto, a indelicadeza. Eu não queria mais me sentir tão despida de mim mesma, de um ‘eu’ que eu formulava e reformulava diariamente.
             Lembrei de um ano novo que passamos em sobriedade e silêncio, naquele apartamento, sobre um lençol azul. E então era tudo novo, tudo encantador.
        Eu queria parar de ler, que ele me jogasse, de novo, naquela cama e decretasse que eu nunca mais sairia, queria sair dali correndo louca pelos bordéis já acordados, queria gritar e chorar da dor que eu estava sentido por estar exilada, e exila-me nos braços dele, e derrubar tudo que havia em cima da mesa, e queimar os inúteis livros, e parar de me confessar a ele, e morrer mais um pouquinho analisando o percurso de uma formiga na parede.
          Não tenho ideia de quanto tempo fiquei divagando sobre essas coisas, até ele me chamar atenção. Entretanto, eu não conseguia mais ouvir o que ele dizia, os convites (?!) que fazia, as sensações que tinha. Minha presença ali, com a dele, já não tinha sentido para mim: roteiro errado, diretor errado, iluminação errada, falas mudas. Murmurei desculpas, o caminho de volta ao exílio era longo. Ao sair, deixei-lhe um beijo casto, colhi um último abraço apertado e voltei pelos bordéis e pela Marechal Floriano, a pensar o que teria feito de errado com ele, comigo, com minha vida.
       Terminei aquela noite ligando para ele de uma festinha nada a ver, em Laranjeiras, pedindo a porra do abrigo, a porra do exílio.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

DIA*



            Sim; o livro estava sobre a mesa. Suspirou ao perceber que já havia verificado isso pelo menos umas 4 vezes. Terminou de organizar sua mochila e foi até o armário procurar algum dinheiro no emaranhado de roupas ali jogadas “como se fosse o cesto de roupa suja lá da lavanderia”, tal qual resmungava sua mãe. Mães sempre resmungam, pesou com um sorriso triste.
            Duas notas de R$1,00 e uma centena de moedas a contar. Começou com as grandes: tinham que ser de R$0,50! Hum... a primeira não, e a segunda também não, nem a terceira ou quarta... Merda. No somatório R$3,85. É, dava para comprar um sanduíche ou um maço de cigarros e uma coca-cola. Perfeito.
            No rádio tocava um rock cheio de poesia sobre dor, perdas e uma doença bizarra. Otávio calçou suas sandálias que, aliadas ao jeans da década anterior e ao cabelo mal cortado por ele mesmo, lhe conferiam qualquer coisa de hippie, qualquer coisa de anacrônico, qualquer coisa que ele não sabia o quê. A música acabou e o locutor gritou “BOM DIA pra você que está sintonizado na rádio do rock!!! São exatamente 06:07 da manhã no Rio de Janeiro! Está entrando no ar mais um....”, um dos 12 gatos que a mãe criava pulou na mesa de desplugou a tomada. Melhor assim.
            Enquanto bebia sua caneca de café forte pensava nas tolices sobre amor que seu pai havia dito na noite passada. Por que tolices? Tinha 20 anos a mais de experiência de vida, sobrevivera à rebeldia pseudo-punk-rock dos anos 1980, usou maconha e meia dúzia de ácidos e, depois disso tudo (ou bem no meio do processo) se amarrou à uma garota CDF com ideias pervertidas, com quem teria dois filhos. Então, porque alguém bem sucedido, que passou por tanta coisa na vida, diria tolices? “Tolices de psicólogo”, pensava Otávio ao bater a porta.
            Mas, para ele, o que era aquela coisa toda de ‘amor’? Certamente, não era o que sentia pela namoradinha, Alice. O melhor mesmo era não “problematizar a questão do eu interior inserido num relacionamento dito estável e maduro”. Tolices. O ônibus veio rápido, juntamente com a sensação de que ele poderia descer no ponto perto do aeroporto, ir para Assunção (tia Deise jurava que, às vezes, eles operam voos ao Uruguai e Paraguai) e de lá começar uma viagem solo pela América do Sul, subindo até o México, ora de trem, ora de carona. Assistiu o sol nascer na Praia de Botafogo ao som de Confortably Numb, pensando porque diabos sempre se imaginava sozinho numa viagem assim. Não havia ninguém com gostaria de compartilhar essa loucura. Ninguém.
            Quando avistou o Santos Dumond começava Breath - na seleção aleatória do Discman, fiel companheiro. Achou que era uma espécie de sinal divino e, por isso, fechou os olhos se afundando mais no banco. Saltou na já então movimentada Presidente Vargas e foi andando sem pressa para a faculdade, sem pressa para as aulas da manhã, sem pressa para os textos não lidos.
            Depois do almoço, conseguiu mais uns trocados com Carlos – o grande amigo – e, mais uma vez sem pressa, caminhou pela já então lotada Rio Branco, em direção à Livraria da Travessa (quem sabe tomar um café?). De repente, alguma coisa chamou-lhe a atenção: havia um mendigo absurdamente esfarrapado, sentado à porta de um banco, com óculos de grau que reluziam ao fraco sol de inverno, lendo o jornal daquele dia (e que dia era mesmo? Certamente uma quinta-feira...). O mendigo, então e imediatamente batizado por Otávio como ‘Orlando’, fez uma careta e fixou-se na página de economia.
            O que Orlando lia? O que acontecia no mundo que ele, Orlando, poderia saber ou entender? O que estava escrito, Otávio? Otávio, que não sabia nem em qual dia do mês estavam, ficou profundamente tocado por aquela imagem: Orlando, o personagem urbano invisível, interagia, de um jeito ou de outro, com uma enxurrada de informações contemporâneas quase completamente desconhecidas por Otávio, o universitário burguês pensante.
Teve vontade de sentar ao lado dele e perguntar qual era a cotação do dólar. Tolices. E de que serviria, a ambos, àquela tarde, a cotação do dólar, ou do ouro. Quem era Orlando? O que Orlando lia? A morte (assassinato?) de Celso Daniel? Um peti vermelho da prefeita de São Paulo (Marta Suplicy?)? Mas era a seção de economia! Especulações sobre as novas medidas do novo presidente (Lula?)? Merda.
Otávio quis guardar Orlando em uma daquelas pequenas redomas de vidro com neve de mentira e coloca-lo em seu quarto, para olha-lo de quando em quando com assombro. A cena era perturbadora e, para dissipa-la, começou a caminhar muito rápido, entre empurrões e esbarrões. Queria sair dali, daquele quadro bizarro que ele não conseguia parar de desenhar mentalmente. Parou na vitrine da Travessa e ficou observando cada centímetro dos livros expostos sem, contudo, enxergar qualquer coisa.
Pensava nas “tolices” de seu pai, tentava lembrar qual era o livro que deveria ler para a próxima aula, queria lembrar de ligar para o Pedro quando chegasse em casa (buscar seu violão!). Qual era o problema de Orlando ler jornal? Por que não deixar o homem em paz? Por que aquela visão o incomodava e exasperava tanto? Talvez aquele fosse o melhor momento para conhecer o Chile, ou parar de tomar aspirina. Quiçá pensar sobre as “tolices” e sobre 'amor' não afastasse da cabeça a intuição nervosa que teve com Orlando.
Não se sabe quanto tempo ficou ali, pensando em nada, tentando não pensar em Orlando. Lentamente levantou os olhos angustiados, e viu uma menina de olhos brilhantes, que lhe acenava e sorria de dentro da Livraria. Uma das coisas que mais admirava em Alice era que ela sempre sabia onde e quando o encontrar.

* Escrito em 2002 (ou final de 2001) e levemente editado em 2012. O texto é cópia fiel do original, salvo algumas correções de pontuação. 

domingo, 20 de maio de 2012

Não me escreva aquela carta de amor - PARTE I

            A rua estava coberta de lama e o ar de poeira, ainda por conta do temporal de dias atrás. Alice saia do prédio velho, com a fachada descascada e cinza, comendo uma maçã verde. Nada mais simples: uma mulher com vinte, talvez quarenta anos, com uma botina preta, meia-calça preta, short cinza, blusa preta, casaco azul, sem bolsa ou relógio, com uma maça verde enorme e obscena movimentando-se entre os dedos e os dentes de Alice.
            Imagino que essa história possa começar assim. De fato, acredito que isso só possa ter começado assim. Agora que eu to beeem puto, vejamos se eu consigo escrever. Sobre essa Alice. Sobre aquele Juvenal. Juvenal faz o tipo que trabalha em prestadoras de serviços, destas que entram em sua casa e comem suas esposas, ou em obras públicas, ou como professor de francês. Naquele dia, aposto, ele usava uma dessas combinações de calça cáqui e blusa de cor indefinida, que sempre fazem parecer que o sujeito está usando um macacão velho, pronto para quase qualquer coisa, com aquela bolsa de couro velha, que lhe modela o corpo forte. Ele é essa cerveja toda, executa essas atividades todas. Juvenal atravessava uma dessas avenidas intermináveis cheias de asfalto e pó, ia em direção ao posto de gasolina, a fim de fazer não se sabe bem o que. O que se sabe é que foi entre a contemplação do negrume sob seus pés, enquanto buscava no alto a luminosidade de um satélite vulgar, foi no vácuo do pensamento, naquela quietude de pensamentos que nos acomete, às vezes, foi assim que Juvenal avistou, primeiro, as pernas, melhor, as meias sobre as pernas a atravessar. “Nada mal”, deve ter pensado. Afinal, aquilo combinava com o asfalto, com a lama, com o urbano. Mas então veio o verde. Aquele verde obsceno, destoante. Uma maçã, porra! Que tipo de pessoa sai de casa quase à meia noite de uma quarta-feira (hum... talvez quinta) comendo uma maçã verde enorme desonesta? E de preto...?
            Alice só queria sacar dinheiro antes de ir me encontrar. Comprar um maço de cigarros, talvez. E um chocolate que ela deixaria escondido na bolsa para “momentos de súbita ansiedade em locais proibidos ao fumo”. Alice nem queria me ver. Mas, se ela realmente não quisesse não iria me encontrar. Claro que não. Alice não me fazia perguntas, não me deixava desconfortável, não me ligava quase nunca, não se preocupava com o fato de minha ex-mulher ainda morar comigo, não tinha ciúme dos meus ex-namorados que se tornaram meus amigos. Ainda acho que Alice não existe. Alice é uma deusa. Ela até paga suas próprias contas. Mas eu queria ver Alice. Precisava da voz calma, da gargalhada explosiva, do rosto inquieto e curioso sob mim e que se calava bem antes do beijo. Precisava do cheiro dela, do cabelo dela, da pele dela. Dela. Ninguém como ela expurgava de mim aquele cheiro de hospital público, de morte toda vida. Eu estava cansado de mais para ir buscá-la, acomodado demais para me mover. E, de todo modo, ela viria.
            Fazia um tempo que já não pensava em Juvenal. A internet estava na merda desde o temporal e não liguei para ele; desculpa perfeita. Sabia que Juvenal estava com o aluno de francês, juntos quase como namorados. Juvenal é desses caras que sabem o que querem e conseguem ser honestos sem quase sacanear os outros. A pele dele tinha uma cor de terra curtida e um cheiro de gente do interior. Juntou o salário de dois anos de trabalho para ir levantar paredes em Paris. Ficou cinco anos, até ser deportado. Ele tem um jeito de olhar para as pessoas, qualquer pessoa, e deixá-la a vontade, com tesão, com ternura. Belo dom. Belo instrumento. Naturalmente, palavras como compromisso, exclusividade, casamento, etc e tal, lhe causavam asco. Melhor para mim, menos trabalho. Isso até ele se amarrar ao aluninho. Isso até ele me trocar.
Aquilo me deixava puto, mas havia Alice, então ficava tudo bem. Aquilo me deixava puto, mas eu não deixaria Alice. Alice deve ter virado o rosto para trás ao atravessar, ela sempre faz isso, ele deve ter visto o rosto dela daquele jeito enigmático feliz rosado mordiscando palavras. Alice trabalhava em uma livraria, gostava de palavras. Muitas religiões pregam o princípio do magnetismo dos corpos. Aposto que foi assim. Alguma coisa perto do umbigo de Juvenal se sentiu atraído pelo preto, pelo verde, pelo belo; como um imã inconsciente ele a seguiu até a loja de conveniências (...). Então o que? Não posso pensar no diálogo. Não posso pensar em Juvenal atraído por uma vulva misteriosa. Não posso pensar em Alice sensibilizada por aquelas roupas e aquele olhar tosco. Francês. Ele deve ter feito alguma piada em francês. Alguma coisa sobre Magritte que ela achou genial. Meudeuscomoeutoputo. Trocaram telefone salivas redes sociais? Alice chegou duas horas atrasada. Linda. O beijo dela era maçã saliva tabaco halls saliva... Porra? Esplendido.
            Alice ficou duas semanas sem aparecer. Normal. Juvenal ligou. Normal. Juvenal veio consertar a internet e por minhas carências em dia. Disse que queria conversar. (?!) Disse que queria dizer coisas que, na verdade, não poderia deveria atreveria dizer. Disse que era necessário. Disse mais o que? Já não ouvia. Saí do banheiro deixei-o nu tremulo liguei para Alice meu cheiro meu cabelo minha pele. Alice disse que eu deveria ouvir Juvenal. Alice disse que tinha escrito uma coisa. Ainda nu, no meio da minha sala, ele tinha um envelope nas mãos, porque macho que é macho fala olhando na cara. Juvenal começou a ler o papel de tinta impressa. Às pressas.

Não me escreva aquela carta de amor - PARTE II

            A rua estava coberta de lama e o ar de poeira, ainda por conta do temporal de dias atrás. Alice saia do prédio velho, com a fachada descascada e cinza, comendo uma maçã verde. Nada mais simples: uma mulher com vinte, talvez quarenta anos, com uma botina preta, meia-calça preta, short cinza, blusa preta, casaco azul, sem bolsa ou relógio, com uma maça verde, enorme e obscena movimentando-se entre os dedos e os dentes de Alice.
            Era uma tarde cinza, o Rio parecia Londres no verão. A verdade é que não importa muito a cor do céu: todo mundo quer viver uma historinha de amor. Homens, Mulheres, Crianças e Outras Categorias. Todos. É uma maldição; nascemos, todos, com um platonismo embutido como um chip. Nossa maldita cultura gregária-romântica. Nosso maldito capitalismo que move nossos desejos ao que não temos, para que quando chegarmos ao cerne dos tais desejos, rumemos a novas aspirações. Capital romântico? Talvez nada disso tenha a ver com criações do século retrasado. Talvez. O fato é que Alice não foge à regra. Ela é um ser humano contemporâneo independente do sistema de produção ou da cultura vigente e ainda assim extremamente ligada a esses fatores. Alice saía à rua, rumo ao tarólogo, rumo às respostas que tanto queria encontrar. Alice era um ponto de exclamação pulsante de expectativas. Filha de seu tempo queria um anestésico para as crises existenciais cotidianas. Queria um emprego decente, queria uma casa mais confortável, queria um plano de saúde, queria não precisar de um plano de saúde, queria um macho que a chamasse de sua, queria uma idéia de autonomia que vendiam nas esquinas que ela cruzava enquanto o sulco da maçã escorria dos lábios até o queixo.
            A grana para o táxi seria ideal, mas o melhor mesmo era caminhar rápido para ver se a tal endorfina faria de fato algum efeito, algum feitiço. Melhor mesmo seria parar num bar, seria tentar não pensar. Foi assim que a vi. Ela andou dois quarteirões do prédio cinza até a mesa em frente a minha. Ótimo isso; precisava escrever a coluna pro blog que meu chefe patrocina. Se a matéria não fosse sobre a Libertadores teria sido sobre o suspiro que ela deu ao sentar na cadeira de plástico. Ou sobre as mãos tremulas que vasculhavam alguma coisa nos bolsos. Ou sobre o meio sorriso destinado ao garçom. Ou sobre os goles que deu de olhos fechados na cerveja. Não. Seria sobre o olhar que me lançou. Algo sério, com requinte de selvageria e exotismo. Eu tinha meu notebook por onde me esconder, por onde me camuflar. Ela estava ali, parada e inquieta, sem bolsa, com a mesa vazia, um copo, uma garrafa e um par de cotovelos. Esse abandono não tinha nada de frágil, na verdade era tão natural e completo que ela, Alice, parecia ter nascido ali, como que por geração espontânea. Alice. O que estaria escrito em sua identidade? Maria, Priscila, João? Alice era uma mulher sentada à mesa em frente a minha. Alice era uma criação minha, eu fazia sua história e suas vontades. Sabe-se lá de onde ela conseguiu um espelho e um batom. Ela passava aquele batom nos lábios bem devagar, como se quisesse preencher um milímetro de boca de cada vez, como se não houvesse nada mais a fazer naquela noite além de segurar aquele minúsculo bastão. Minha aguda atenção a sua presença não poderia passar despercebida.
            Um meio sorriso, um olhar indicando a cadeira vaga a sua frente, um sinal para que o garçom trouxesse mais um copo, mais uma garrafa. A tabela que demonstrava a ressurreição do Fluminense já não tinha nada de divertido. Levantei, juntei minhas coisas em uma das mãos sem qualquer sutileza, caminhei em direção a ela, três passos talvez, sentei. Bebemos a garrafa toda em silencio, enquanto eu adivinhava seu nome, sua trajetória, sua busca por respostas, enquanto embutia naquela personagem um punhado das minhas expectativas e crenças. Afinal, é isso que fazemos o tempo todo, impunemente. Pouco importa se era Alice, Berenice, Maurício, Madureira: ela era minha. Minha criação, minha adoração, meu refúgio do trabalho, meu refúgio de mim e só existiria enquanto pousasse os olhos sobre mim com aquele silencio inquieto e curioso, prestes a explodir em gargalhada a qualquer momento. Divina. E minha.
            Mas então, seguindo a linha egoísta que costuma perseguir nossa existência de ser humano, comecei a questionar o que ela poderia pensar sobre mim. Cogitei o que ela estava achando daquela pessoa que se sentava ao bar para escrever, o que ela estava achando da minha roupa, do meu cabelo. Será que ela achava que eu estava afim dela? Será que achava que eu queria vender seus rins? Cafetina-la? Oferecer-lhe um emprego? Um tapa? O que Alice acha de mim? Ainda que suas impressões sobre minha figura não pudessem corromper tudo aquilo que Alice já significava para mim, era imprescindível saber o que ela queria, o que ela faria, o que ela diria, o que ela pensava. Veio não uma gargalhada, mas um riso contido. Trocamos algumas observações sobre o outono, sobre as tarifas do banco, sobre o banheiro do bar, sobre o horóscopo.

 Em algum momento não muito preciso ela sacou um guardanapo, uma caneta (do Jorge, o garçom?) e começou a escrever. Foi tão natural, tão ato continuo a nossa conversa que de inicio não me pareceu sequer curioso. Falava e escrevia sem perder o compasso e tudo em volta parecia fazer parte da mesma ficção. Súbito, disse que estava atrasada, que ainda teria que passar no posto de gasolina pra comprar cigarros, que tinha um compromisso, que tinha um presente pra mim. Levantou, colocou o guardanapo no bolso da minha camisa enquanto me beijava na boca e saiu

Não me escreva aquela carta de amor -PARTE III

            A rua estava coberta de lama e o ar de poeira, ainda por conta do temporal de dias atrás. Alice saia do prédio velho, com a fachada descascada e cinza, comendo uma maçã verde. Nada mais simples: uma mulher com vinte, talvez quarenta anos, com uma botina preta, meia-calça preta, short cinza, blusa preta, casaco azul, sem bolsa ou relógio, com uma maça verde, enorme e obscena movimentando-se entre os dedos e os dentes de Alice.
            Tentei gritar seu nome, mas Alice andava estranhamente rápido. Minha boca ficou aberta em um enorme A, enquanto meu corpo parecia obedecer ao comando “estátua!!” da brincadeiras de criança. Acho que fiquei uns 3 ou 4 segundos assim, tempo suficiente pra vir um vagabundo e resmungar alguma coisa sobre jovens drogados... não agüento isso. Catei as chaves de casa na bagunça da bolsa, mais uns 5 ou 7 segundos. Entrei em casa ofegante, afinal 4 andares é uma loucura pros pulmões semi-danificados pelas tais drogas das quais o vagabundo falou. Aff! Esse cheiro de gato me enlouquece, aí, saio tacando bom ar e morrendo de medo de morrer intoxicada. Boto um cd do Caetano e porra Alice não deu comida pra Raposa de novo. Aff! Levo uns 13 minutos entre limpar o chão, a caixa, encher os pratinhos, lavar as mãos 5 vezes e fazer um cafuné na gata que, no fim das contas, acaba sendo uma boa companhia.
            Na porta da geladeira um papel engordurado com a data de hoje tem somente uma coisa escrita: Roberto. Ok, estamos sozinhas por hoje, Raposa. A menos que vc esteja com saudades do Henrique. É... pois é... eu também não to com saudades dele... Enfim. Raposa, peraí, fica aqui na cozinha comigo enquanto faço uma jantinha, deve levar só uns 24 minutos. Isso. Me diz, vc que mora com a Alice há mais tempo, o que ela ainda tá fazendo com o Roberto? Ah, porra, foi a Alice quem me ensinou conversar com vc, não me olha assim! Sabe que quando eu vim morar aqui eu nem queria de verdade... Achava que essa coisa de bicho em apê era mó furada, mas acho que me acostumei. O quarto vago era bom e eu conheço a Alice desde antes de saber meu próprio nome. Muito doido isso. E eu sei que vc gosta mais de mim do que do Roberto... tenho certeza de que ele não limpava seu cantinho como eu limpo.. e também nem devia fazer um cafuné. Todo estranho, sempre vidrado, sempre atrasado, sempre em movimento. De certa forma combina com ela. Porque vc acha que eles terminaram? Mas a pergunta que não quer calar é: porque eles sempre terminam e voltam? É... também acho que eles nunca ficaram juntos de verda porra, desde quando vc come cebola? Devolve essa merda!
            A TV e a mesa estavam cobertos da poeira que vinha da obra do vizinho, ou da rua, ou da falta de faxina mesmo, tanto faz. 7 ou 70 livros sobre semiótica culinária e literatura barata povoavam um pedaço da mesa e uns pedaços do chão. O sofá, semi despedaçado pelo trabalho de arte contemporânea da Raposa, poderia (e deveria) estar no lixo, junto com metade das roupas que deveriam estar no armário da Alice, mas que insistiam em fazer exposição nas cadeiras da sala. Era um lugar quase confortável, quase grande para um 2 quartos. O mais impressionante era o espelho. Ocupava metade da parede que dava de frente pra porta quase até o teto; herança de vovó. Limpar aquilo tudo levaria uns 39 minutos.
            Se eu não tivesse com tanta fome e preguiça limparia agora, mas é melhor botar outro cd pra trilha sonora do jantar. Henri Salvador, pruma uma noite romântica com Raposa. Depois eu boto mais 1 ou 2 coisinhas pra gente ouvir antes de assistir aquele filme que te falei ontem.  Henri, Henrique.. aff! A ‘ideia’ amor nos ocupa muito mais do que o que sentimos em si. É cruel viver um amor duro, longe dessas expectativas e dessa ‘ideia’. Assim são os gatos, não é Raposa? Quer dizer, se vc ama um gato, éeeeeee! To ligada nas suas escapadas pro apê do vizinho... é siamês aquele, né? Já foram 4 ou 5... Enfim. Acho que se vc amasse um gato, vc amaria e pronto, sem blábláblá, sem ter que ligar se não tiver com saudades, sem ter que dissimular nada, sabe? Claro que sabe... ta fazendo essa cara, toda concentrada no que eu to falando, só pode tá concordando! Agente compra essa ‘idéia’ a todo momento e quando tenta se livrar dela, quando tenta viver o que realmente sente sem lá muitas expectativas, sem lá muitas cobranças, pensa que tá fazendo merda, sabe? Acho que passa uma certa insegurança isso. É o que eu tento fazer com o Henrique, mas eu nunca sei se ele me entende, eu nunca sei o que ele sente, a gente nunca sabe o que um quer do outro. Acho que não saberia nem entenderia mesmo que falasse com ele 7 vezes por semana. Minha vó, que era professora, coitada, sempre dizia que se a gente quisesse ver algum tipo de relacionamento “repleto de assertivas”, é, ela falava assim mesmo, a gente tinha que ler um romance, desde que não fosse Jane Austen. Acho que ela não falava sério. Mas a gente era criança, a gente nem sab... Alô, Alice? Que foi? Caralho, quem é Juvenal? E o Rober... Vc vai pra onde?! Mas... Francês? Onde vc tá? Hã? Hã? Hãaa? Tá. Digo sim. Mas porra... Tá. Até amanhã então. Pego sim. Pago sim. Tranquilo, depois vc me paga. Beijo.
            Aff! Armário... segunda gaveta... pasta amarela... aqui. Olha Raposa, vo te contar, hein? Essa brincadeira vai me custa quase 1 hora, entre passar num banco, depois em outro... A Alice é muito maluca, vc não sabe, ela acabou de conhecer um cara e que que é isso? Uma carta?!! Hahahaha! Tem até meu nome no meio... que parada... vem cá Raposa, vem ler comigo... deixa eu acender isso aqui... é... to ligada que vc curte esse cheiro...

sábado, 19 de maio de 2012

As insistências e suas inutilezas

                Ah, coitado do Caio Fernando Abreu. Essa coisa de torna-lo guru espiritual do Facebook é muito triste, mas engraçada também. Imaginar um sujeito super-revolucionário, no sentido estético-literário-libertário, servido de auto ajuda pra pós-adolescentes é admitir primeiro um sentimento de derrota da boa literatura contemporânea e, ao mesmo tempo, um alargamento de seu alcance. O que, por sua vez, não deixa de ser uma vitória. Por exemplo, pessoas como Péricles jamais leriam uma frase sequer do Caio, sem a participação daquela rede social. Você não pretende reativar sua conta?
             Bom, o Péricles é um rapaz que nada faz jus à origem “greco-política-pseudo-filosófica” do nome que inspirou sua mãe na manhã das primeiras contrações. Na verdade, ele deveria ser batizado como “Pedro”, mas a súbita ausência do pai e algumas complicações de ordem hormonal na mãe impediam a ideia original. Soube dessa história, e de outras, num porre que tomamos num Trem do Samba; bons tempos. Enfim... Ele era um rapaz tão comum, tão óbvio, que dava até preguiça de observa-lo ou tentar interagir com ele: beleza padrão para os princípios do século XXI, inteligência e perspicácia medíocres, grande carisma, sorriso espontâneo, vocabulário limitado e, naturalmente, aquela indecisão congênita, a total falta de noção do que fazer para, um dia, chegar à fase adulta, ao menos com uma profissão. Pensando bem... essa descrição poderia aplicar-se a mim, naquele ano de 2008; ou a você.
               Agora me veio à cabeça que Paris deve estar fazendo bem à sua calvície. Lembra quando pensamos em abrir um SPA naquela estrada que pegamos por engano, quase chegando a Itaipava? Você já está longe há muito tempo, se bobiar, nem conheceu a Jeanne – aquela que é filha de franceses; olha a coincidência. Na indecisão toda do Péricles, ele acabou indo tentar a vida na comunicação. Lembro que a primeira vez que o vi, ele tava conversando com a Jeanne e com a Maria – dessa você lembra, a que vivia com um pé e/ou mão quebrados. Eles estavam na curva do primeiro e principal corredor do prédio, aquele com os azulejos azuis meio aportuguesados que você odiava, na fronteira daquela gente esquisita de “UI! Licenciaturann”, perto daquele pátio onde a galera ensaiava umas esquetes sem pé nem cabeça, só pra encenar no Sujinho. Sabe? Tenho certeza de que você teria bolado o roteiro de uma sessão de fotos com aquelas figuras – exposição na certa. Tenho certeza de que você teria amado.
          A Jeanne, um dia te apresento a ela, vem de uma família grande, mora num condomínio de casas maneiras em algum lugar longe do “nosso” apê em Botafogo. Jeanne tem aquela mania de cultivar afetos mal resolvidos (talvez fosse melhor dizer “tinha”), principalmente depois que o affair, ou coisa que o valha, já se esgotou. É com total propriedade para usar o modo reflexivo do verbo; pois é... aquela nossa conversa sobre a (im)possibilidade de os relacionamentos SE esgotarem, como se não houvesse/viesse nada de fora ou dentro para a coisa desandar. Tanto o é – era – que após o término dos três meses de namorico com Péricles, Jeanne decidiu que ele era um cara bacana, gatinho-gente-boa na medida certa, enfim, algo que preste nesse mundo de meu-deus. Veja bem meu bem, Jeanne gosta de arte, frequenta museus, estava quase terminado jornalismo, é toda-gatinha-gente-boa, realmente inteligente, charmosamente rabugenta e perigosamente obcecada, portanto, já pode imaginar onde isso vai parar...
          Que ela não me ouça, mas desconfio que o tal “amor”, sim, esta palavra foi empregada, começou quando ela desconfiou, pela primeira vez, que Péricles e Maria eram mais que bons amigos. Na verdade, a desconfiança era de que para Péricles, Maria era algo mais, sem recíprocas. Essa pulga virou carrapato e depois sarna. Afinal, para Jeanne não interessava se ela estava feliz e realmente afim do sujeito, o mais importante era que ele não estivesse afim de sua amiga. Justo. Ok... compreensível. É engraçado lembrar que você tinha ciúmes dos meus amigos.
         Agora a cereja do bolo: apesar de toda paranoia-delirante-Péricles, Jeanne ainda estava, ou pelo menos parecia estar, emocionalmente vinculada ao Charles. É, ele mesmo... aquele seu amigo coroa, figurasssssa. O pseudo-affair deles nem vale a pena ser mencionado, o fato é que o mais importante que Charles tinha a ensina-la ela não aprendeu: “putaquepariu! Mulher não ama, mulher cisma”. Sabia que você ia adorar essa. É que o Charles foi outra obsessão, outra forma frustrada de dedicar-se a ser objeto de desejo de alguém idolatrado. Disseram que você andou estudando psicanálise – talvez tenha simplesmente arranjado uma namorada terapeuta; mais provável terapeuta namorada. Dane-se. Com ou sem Freud, não é difícil perceber que havia (há?) algo estranho naquela paixão, naquele binômio que nunca houve, naquela ausência de algo como Jeanne-Charles, naquela adoração anacrônica: moça indefesa feliz na possibilidade de entregar-se ao garanhão defensor/portador de uma moral esquecida na gaveta.
         Então Jeanne ainda estava vinculada a Charles quando começou a se envolver com Péricles. Na verdade, acho que nem posso chamar aquilo de envolvimento, uma vez que para ela, ele era não mais que uma deliciosa distração: encontravam-se diariamente na faculdade, frequentavam o Bar Da Balela, pagavam de casalsinho pra tudo e todos, inclusive para o Charles, claro está. Mas, veja bem... aqui estou te trazendo os fatos que não me fugiram ao longo dos anos que se passaram, os anos em que você esteve fora de mim; ou seja, como diria nosso quérido Manuel de Barros, “tudo que não invento é falso”. Enfim... Lá estavam eles pagando de casal-gatinho-gente-boa (exatamente como nós, bem no começo, bem antes de começarmos a pensar), até que... como foi que a coisa degringolou? Ah, a Maria!
        Conforme a coisa Jeanne-Péricles seguia um rumo ordinário e sem qualquer pimentinha, Maria ia se aproximando cada vez mais do rapaz medíocre, firmando uma amizade baseada em afinidades duvidosas. Vamos combinar que as afinidades entre ele e Jeanne também não eram, digamos, tão óbvias... enfim.... Maria-Péricles: sob o manto da amizade surge o binômio que tanto incomodou Jeanne. Talvez por preguiça, talvez por falta de tato, ou por finalmente perceber que não estava mais funcionando bem, Jeanne...........................Péricles começaram a se afastar cada vez mais, na mesma pro porção em que MariaPéricles ficavam mais próximos (é... eu te desenhei essa).
        Um belo dia, Jeanne acorda com uma ligação de Maria: eles haviam se beijado. É; não rolou uma sacanagem nem a confissão de uma puta traição: foi apenas um (uns?) beijo (?), nada de mais, mas o bastante para que Jeanne decidisse duas coisas: primeiro, a amizade/lealdade de Maria seria eternamente questionada; segundo: ela, Jeanne, realmente gostava de Péricles. Ali nasceu aquela cisma da qual o Charles tanto fala... No lavar de roupas sujas, descobre-se que Maria teria conversado muito com Péricles sobre Jeanne, sem que esta soubesse, pensa-se na possibilidade de Péricles ser apaixonado por Maria, pensa-se na possibilidade de Péricles ser apaixonado por Jeanne. Por que não enxergar que ele era só um garoto entrando na faculdade conhecendo meninas/mulheres interessantes?!
           As dúvidas e incertezas rasgavam a cabeça de Jeanne: “será que fiz a coisa certa? Será que gosto? Será que odeio? Será que está tudo bem? Será que perdoo Maria? Será que me perdoo? Será que Péricles gosta dela? Será que gosta de mim? Por que isso sempre acontece? Por que não pode ser mais simples?”. E o que poderia aplacar essa série de perguntas que faziam rodízio constante, nocauteando cada segundo de pensamento de Jeanne? Como ela não usava cocaína, foi a um centro de umbanda – com a semi perdoada Maria – a fim de achar uma solução espiritual às questões emocionais que pareciam (e o são) impassíveis de resposta. Meia dúzia de aclarações depois, eis a declaração bombástica do preto velho: “ele é o homem da sua vida... vocês... vocês têm uma ligação espiritual”.
       Àquela altura do campeonato, fazia quase um ano do beijo maldito, do início – com data marcada – de toda paranoia que uma paixão mal resolvida pode trazer. Jeanne dedicou-se a reconquistar seu macho a qualquer custo. E por que? Acho que ela precisava manter-se emocionalmente vinculada a alguém; Charles há muito estava em outras. Acho que essa coisa do “amor” com o Péricles era uma maneira de viver tão somente no mundo idealizado: quando ficamos juntos, quando tomamos aquele sorvete, quando você caiu descendo da arquibancada do Maracanã, quando ficou com ciúmes da minha saia justa, quando meu coração saltou aquele dia... são coisas pontuais, isoladas, felizes molduras do que gostaríamos de ter sido. Acho que foi por isso. Pela idealização. De todo modo ela precisava materializar aquela coisa toda, precisava ao menos tentar reatar Jeanne-Péricles, por isso foi àquela festa, comprou aquele vestido e sorriu daquele modo.
          Eu estava lá, não acompanhei tão de perto porque esta bêbada falando mal de você – já tão longe há tanto tempo. Sei que eles sumiram e que eu acordei com uma daquelas ressacas que você bem conhece, acordei com Jeanne, numa voz nervosa, dizendo que tinha perdido a dignidade em Madureira, mas que logo logo iria recupera-la. Sim, nesses termos.  Ao que tudo indica, foram parar na casa dele, na cama dele e ele simplesmente não conseguiu se concentrar para come-la. Nem no dia seguinte. Nem no telefonema que ele deveria ter feito no outro dia. Ele não era capaz de lidar com aquilo. A parte boa é que a partir desse choque, desse sacode, Jeanne foi dissolvendo a ideia do binômio com Péricles, foi deixando a história deles lá atrás, no meio das coisas que se faz quando se é jovem, demasiado jovem. Não, não éramos demasiado jovens quando você foi fazer sei lá o que na Europa. Ok... eu sei o que... Também não tínhamos um binômio... Enfim...
          “Veja bem: não pense que estou tentando reatar uma história de amor já bastante espatifada (ou talvez sim, mas você não me deu chance e a coisa mais saudável que eu podia fazer era entrar noutra). Acontece que, com ou sem cama, gosto profundamente de você” (entre aspas, mas citado de cor). Lembra disso? Daquele livro com as correspondências dele, qual era mesmo? Dane-se. Esse puto do Caio Fernando Abreu sempre falando por mim, por nós...
           Pois é... e eu continuo a te contar minha vida assim, através de histórias e amores alheios. Covarde, você disse uma vez; e eu pulei no seu pescoço. Essas coisas, todas elas, nada querem dizer pra mim, não depois de receber um bilhetinho azul anunciando sua volta. Não te espero mais. Não te quero mais. Tal qual na historieta Jeanne-Péricles, você me era mais útil longe, de onde eu podia te desenhar com minhas cores favoritas; não quero o real, não o seu real. Uma última coisa, antes que eu esqueça... lembra quando você me mandava ler a Paideia toda vez que eu insistia naquela coisa de “amor” ter sido inventado no oitocentos? Acho que podemos ficar de comum acordo em dizer que, não importa muito em qual século foi, “amor” nasceu de uma tarde de outono.