Você já sentiu dor? Já sentiu
seus ossos vibrarem numa dança bizarra e apavorante? Já pensou que o mundo
poderia acabar a qualquer momento com um raio indo parar bem no meio da sua
cabeça? Lady Cat me encarava como se me fizesse essas perguntas; me encarava
com aqueles olhos amarelados e cremosos, iluminados pelos clarões de quando em
quando da tempestade lá fora. Eu queria apenas fazer uma ligação, fazer um
sexo, mas minha mesa de trabalho estava tão entulhada, tão atolada de tarefas
pela metade que eu até perdi o tesão. Bom, eu poderia me excitar de novo se
exatamente naquele momento, entre clarões e olhares amarelados, alguém me
jogasse bem em cima de toda a papelada e aparelhagem e me comesse com força,
com raiva. Lady Cat não conseguiria, mesmo que se esforçasse. Na verdade,
naquela letargia, nem faria muita diferença.
Pensei em sentir ciúmes e
recalques com as últimas notícias que recebi, mas, porra, eu já estava sentindo
muitas coisas; simplesmente não havia espaço para acrescentar mais nada, assim
voluntariamente. Outro dia vi uma foto minha antiga e me apaixonei por mim,
pelo meu eu daquela época, lembrei das piadas que eu fazia e das dores que não
sentia, me apaixonei então pela mesma pessoa por quem você se apaixonou há sei
lá quantos anos. Sorte a sua; ela já não existe mais.
[Admito: já quis que você me
redimisse de meus próprios pecados. Mas esse desejo passou no tempo de um
cigarro, como tantos outros, calados e urgentes. To ouvindo aquele (nosso) disco
do Moska. Putz. Grandes metas, grandes merdas.]
Minha consciência tem estado
deserta de razão, já há algum tempo. Ninguém pode entender porque todos se
dispõem a racionalizar o que sinto quando, além de isso ser por si só uma
grande estupidez, não é possível racionalizar a loucura; e nada pode fazer
sentido até que eu misture clínquer e gipsita com um tanto d’água, a fim de transformar
meu castelo de cartas em concreto, com aquele Degas na parede. Minha parede. [Eu
teria sido feliz (?) na abandonada carreira de arquiteta.] Lady Cat ainda
estava tesa ao som e aos frios da tempestade; agora me olhava como quem
perguntando sobre a pessoa que lhe deu esse nome ridículo pelo qual ela insiste
em não atender.
Ontem foi um dia mentalmente
pesado. “Latência e Pedantismo”
deveria ser o título da palestra. Você estava na plateia, mas como aquela que você
amou já é morta, não me reconheceu, nem mesmo quando citei Borges. Olhou-me
como se eu fosse uma ilustre desconhecida, bonita talvez, pretensiosa
certamente, mas anônima como os que têm fome debaixo daquele viaduto em frente
a sua casa. O tal professor, de uma universidade americana qualquer (ah,
foda-se a Ivy League), falava sobre o retorno de Camus, de como ele fora
execrado por uma geração nos anos 1970 e agora, sob o novo signo de saturno, ou
com o novo cronótipo de modernidade, era resgatado, lido e adorado. Tive
vontade de perguntar se Camus era de comer ou de passar no cabelo – pestilento.
Tive vontade de gritar toda babaquice que era aquele jogo de cena, aquela
formalidade hipócrita acadêmica. Tive vontade de ser consultora da Avon e sair
mostrando revistinhas à plateia embasbacada. Tive vontade de ser outra, mas fiz
uma pergunta sobre Borges, sobre o conceito de tempo em Borges, e não fui
reconhecida.
Mas é claro que é tudo loucura...
você naquela plateia também não era mais o mesmo, quase irreconhecível; quase.
De certa forma foi um alívio olhar pra você e não sentir raiva ou dor, sequer
amor – daqueles mais piedosos e covardes. Estava lá sem me reconhecer e todos
em volta comentavam a teoria do absurdo, quando absurdo era eu ter perdido
tanto tempo da minha vida com. Dane-se, isso já não importa. "Tenho decididamente
alguma coisa a dizer sobre o indivíduo. Deve-se falar dele com rudeza e, se for
preciso, com o desprezo conveniente". Ei, não sou eu a recalcada a dizer
isso. Sou, no máximo, mais uma bajuladora de autores franceses, como tantas,
centenas e milhares sentados ao meu redor, nessa conferência que me parece cada
vez mais ridícula, mais absurda. O
absurdo pode até ser o ponto de partida, mas não quero falar sobre suicídio.
Não aqui. Oras, para que eu pago meu analista?
Saí da sala a procura de um mate;
lembrei-me de comprar areia e ração (nota mental). Respirei e tentei não
confundir meus devaneios existencialistas com a palestra que, no fim das
contas, estava boa. É um pouco automático lançar mão de categorias analíticas e
contemplações filosóficas para as tarefas mais cotidianas. A música do Moska
ainda tocava na minha cabeça, então naquele momento decido reler o mito de
Sísifo e, academicamente domesticada, retornar a tempo dos debates e de ouvir
uma pergunta sobre Hugo Chaves (?). Não te via mais porque então, uma vez com a
cabeça ordenada, você nem existe mais.